Acompanho e admiro a jornada da indígena Avelin Buniacá Kambiwá, de Minas Gerais. Mulher guerreira e corajosa, não se cala diante daquilo que considera injusto. Socióloga e Doutora Honoris Causa, suas ideias são profundamente autênticas a ponto de encontrar calorosas divergências até mesmo dentro do universo indígena. Mas isso não a constrange. Seu trabalho nas redes sociais perpassa — pacientemente — explicar aos não-indígenas as consequências do uso equivocado de saberes ancestrais e suas consequências para si e para os povos originários.
Entre as narrativas de Avelin está o termo “piratas”, que se refere a pessoas que se aproximam dos saberes indígenas apenas para extrair deles algum tipo de benefício. Quanto mais penso sobre isso, mais me convenço de que talvez seja uma das descrições mais precisas para um fenômeno que se tornou muito comum no universo da ayahuasca e das bioculturas em geral.
“Toda pirataria é desequilíbrio e todo desequilíbrio cobra seu preço, mais cedo ou mais tarde“, alerta Avelin.
Na última década, vi pessoas sérias dedicarem-se verdadeiramente ao estudo, à construção de relações, à defesa dos povos indígenas e ao fortalecimento de comunidades. Mas, com certeza, também acompanhei o surgimento de uma quantidade impressionante de oportunistas.
Não estou falando apenas dos charlatões mais óbvios. Esses são fáceis de identificar, mesmo que, paradoxalmente, acumulem milhões de seguidores. Estou falando de um perfil que se tornou cada vez mais frequente à medida que a ayahuasca ganhou projeção internacional e passou a circular em ambientes terapêuticos, acadêmicos e de desenvolvimento pessoal, transformando a bebida em objeto de desejo e curiosidade para pessoas em busca de experiências extraordinárias que deem sentido a suas vidas ou amenizem traumas, doenças e transtornos mentais, padrões de comportamento, hábitos nocivos etc.
Esse pirata geralmente compreende muito pouco ou nada sobre os povos indígenas dos quais extrai sua autoridade. Em compensação, entende bastante de redes sociais, marketing digital e construção de imagem. Ele sabe produzir vídeos, criar narrativas impactantes e alimentar a sensação de que possui acesso a conhecimentos exclusivos. Mas é nítido que o único compromisso verdadeiro é com o aumento do próprio capital, seja financeiro, moral, social…
Essas pessoas não se interessam pelas lutas territoriais dos povos indígenas. Estão a anos-luz dos debates sobre proteção dos conhecimentos tradicionais. Porque, caso essa luta esbarre em suas convicções e conveniências, facilmente invocam a força da subjetividade e exploram a autodeterminação indígena para irem atrás de seu viés de confirmação.
Respostas convenientes
Se indígenas politicamente organizados dizem não ao uso do cocar por não indígenas, por exemplo, logo os piratas encontram um indígena que diga o contrário só para validar aquele símbolo de poder ativo em suas encenações. Isso é ferramenta básica do neocolonialismo. Porém, quem tem discernimento sabe que um cocar em certas cabeças não passa de um amontoado de pena e barbante usado para impressionar desavisados.
Esses piratas não participam das discussões sobre reciprocidade. Não demonstram preocupação com a forma como imagens, cantos, símbolos e saberes estão sendo utilizados. Seu interesse começa e termina nele mesmo, e é desanimador a quantidade de gente que dá moral para essas preservadas.
E o mesmo acontece com as bioculturas.
“As medicinas da Mãe Terra são caminhos de força e cura para toda a humanidade, mas também são entidades vivas. Se a gente transforma esses espíritos em mercadoria, ostentação espiritual, recursos ou atalhos de prestígio, sem reciprocidade e relacionalidade com os povos indígenas e a Mãe Terra, estamos ferindo princípios ancestrais do Bem Viver (Teko Porã, Sumak kawsay), gerando desequilíbrio”, explica a indígena Buniacá Kambiwá.
Pirataria moderna
Nos últimos anos tenho observado alguns desses personagens crescerem rapidamente nas redes sociais. Vejo vídeos sensacionalistas acumulando milhares de visualizações. Vejo imagens de indígenas utilizadas como adereço para gerar autoridade. Vejo promessas mirabolantes sendo feitas em nome da floresta. Vejo pessoas construindo carreiras inteiras vendendo uma ideia romantizada de ancestralidade sem qualquer responsabilidade com aqueles que mantiveram esses conhecimentos vivos. E me lembro de que, há pouco tempo, ir para a floresta ainda fazia algum sentido e dava algum crédito à pessoa por ter ido beber na fonte. Mas hoje, nem isso mais. A floresta recebe a todos, até os oportunistas, charlatões e, os piores, os bem-intencionados.
E essa lógica segue de vento em popa, porque a espiritualidade foi capturada pela lógica dos influenciadores. Vivemos uma época em que aparência e profundidade são frequentemente confundidas. É a hora em que noto como muitas pessoas estão tão desesperadas por respostas que deixam de fazer perguntas necessárias na hora de confiar o seu desenvolvimento espiritual a um espaço. E logo viram papagaio de pirata.
Então, não é raro encontrar alguém que sabe citar dezenas de supostos segredos da floresta, mas não consegue dizer o nome de um ou dois povos que preservaram esses conhecimentos. Pessoas que falam sobre ancestralidade, espiritualidade e medicinas tradicionais indígenas durante horas sem jamais mencionar os conflitos, as ameaças e as violências enfrentadas pelas comunidades indígenas contemporâneas não deveriam ocupar nenhum lugar de poder.
Fazem da floresta um cenário para viver uma experiência psicodélica cheia de elementos, mas vazia de sentido. Transformam os povos indígenas em personagens que não podem sair do script para não decepcionar.
Há também os oportunistas críticos ao colonialismo histórico. Denunciam nas redes sociais e palestras os processos de exploração ocorridos durante séculos, condenam a violência praticada contra os povos indígenas e defendem publicamente a diversidade cultural. No entanto, no sigilo, reproduzem dinâmicas semelhantes quando se trata dos conhecimentos tradicionais. Mudam as linguagens, mudam as justificativas e mudam os símbolos, mas permanece a mesma lógica de extração. A diferença é que, agora, a extração ocorre em nome da cura, da expansão da consciência ou do desenvolvimento espiritual. Aí o vale-tudo começa. Afinal, quem seria tão horrível de ser contra tudo isso? É de uma desonestidade…
Floresta como cenário
Existe uma enorme contradição em utilizar a imagem da floresta para construir autoridade enquanto se ignora a realidade concreta daqueles que vivem nela, em falar sobre sabedoria ancestral sem demonstrar qualquer interesse pelas reivindicações políticas dos povos que carregam essa ancestralidade, em transformar a ayahuasca em produto global enquanto as comunidades que guardaram esses conhecimentos durante gerações continuam enfrentando invasões territoriais, violência e abandono.
É justamente aí que a imagem do pirata faz sentido. Porque o pirata não produz tesouro, ele pega de quem já produziu sem ter colaborado em absolutamente nada para ele existir e transforma em patrimônio próprio algo que jamais existiria sem o trabalho, a resistência e os sacrifícios de inúmeras gerações anteriores. E já viu em alguma história de pirata ele dizer de quem era o tesouro que ele ostenta? Pouco importa quem o produziu, quem o protegeu ou quem pagou o preço por sua existência.
Quando observamos a expansão global da ayahuasca, vale a pena perguntar quem está sendo reconhecido, quem está sendo ouvido e quem está sendo beneficiado por esse crescimento. Vale a pena observar quais vozes ocupam os palcos internacionais, quais rostos aparecem nas campanhas publicitárias e quais histórias são contadas sobre a origem dessas medicinas.
Nem toda pessoa não indígena que trabalha com ayahuasca é um pirata. Longe disso. Existem pesquisadores, praticantes, lideranças religiosas, terapeutas e aliados que dedicam suas vidas à construção de relações respeitosas e duradouras com os povos indígenas. São os diplomatas cósmicos. Existem iniciativas comprometidas com protocolos éticos, repartição de benefícios e fortalecimento das comunidades guardiãs. Raro, mas generalizações seriam injustas, como sempre. Mas a existência de bons exemplos não elimina o problema.
Quando Avelin fala sobre os piratas, não vejo apenas uma crítica a indivíduos específicos. Vejo uma crítica a uma lógica que continua operando sobre os povos indígenas. Mudaram os tempos, mudaram os discursos e mudaram os mercados, mas a ideia de extrair riqueza dos territórios indígenas sem construir relações justas continua assustadoramente viva. Chegou o momento de desbancar esses piratas e devolver o protagonismo aos povos indígenas.
*Caroline Apple é jornalista há quase 20 anos, com passagem por alguns dos principais veículos do país. Sua trajetória é marcada pela cobertura de temas ligados à política e aos Direitos Humanos, com ênfase nos últimos 10 anos na causa indígena e nas disputas culturais, políticas e simbólicas em torno das bioculturas e dos psicodélicos. É uma das primeiras jornalistas no Brasil a se especializar na cobertura da cannabis para fins medicinais.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

