Por Noah Mancini
Com o início do ano, também começa a corrida pelos festivais e mostras de cinema pelo país. Ao longo do primeiro semestre, editais e chamadas públicas passam a ocupar veículos especializados e redes do setor audiovisual, marcando o momento em que muitos filmes iniciam sua trajetória de circulação. Para realizadores independentes, sobretudo aqueles que atuam fora do eixo hegemônico, esse calendário não é apenas uma vitrine, mas uma das poucas possibilidades concretas de encontro entre obra e público. É nesse circuito que muitos filmes respiram, existem e prolongam sua vida.
No campo da diversidade de sexualidade e gênero, ainda são poucos os festivais nacionais que conseguem manter relevância contínua ao longo dos anos. Os festivais dedicados ao cinema negro e às produções racializadas, embora distribuídos por diferentes regiões do país, também enfrentam desafios relacionados à continuidade de suas edições. O pesquisador Clébson Francisco, em seu levantamento Mapa do Cinema Negro, contabilizou 26 festivais e 14 mostras no Brasil, além de 12 cineclubes e três plataformas de streaming dedicados aos cinemas negros, números expressivos que revelam também a fragilidade estrutural dessas iniciativas.
Alguns eventos conseguiram consolidar seu lugar no circuito, como o Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul, a Semana de Cinema Negro de Belo Horizonte e o Festival Egbé — Mostra de Cinema Negro. Ainda assim, mesmo festivais já legitimados vivem sob constante ameaça. A sobrevivência desses espaços equilibra-se entre incentivos fiscais diretos e indiretos, editais públicos instáveis e parcerias pontuais com o terceiro setor. A produção de circuitos no Brasil, em grande medida, permanece dependente de políticas descontínuas e de arranjos institucionais frágeis.
Nos últimos cinco anos, observa-se o surgimento de novos festivais marcados por recortes territoriais e identitários mais específicos. Muitas dessas iniciativas priorizam produções do Norte e Nordeste, regiões historicamente desassistidas pelas estruturas tradicionais de difusão, ou se organizam a partir de recortes raciais, sociais e de dissidências de gênero. Esse movimento não surge por acaso: quando o centro não absorve, as margens constroem seus próprios circuitos de circulação.
Já em 2011, um informativo da Secretaria de Cultura sobre a economia do audiovisual na Bahia apontava esse cenário. Apesar da existência de festivais, cineclubes, salas alternativas e TVs universitárias, a produção local apresentava baixa inserção nesses espaços, dificultando que o próprio público tivesse acesso ao cinema realizado em seu território. A constatação permanece atual e revela uma urgência persistente: se produzimos filmes em nossas regiões, é necessário também criar circuitos capazes de sustentá-los e formar públicos que reconheçam sua própria imagem na tela.
Os festivais operam, nesse sentido, como dispositivos fundamentais de formação cultural. Para além das sessões, promovem debates, oficinas, publicações críticas e atividades educativas que ampliam repertórios e qualificam o olhar do público. Ao reunir realizadores, programadores e pesquisadores, esses eventos também favorecem a circulação de conhecimento técnico e contribuem para a profissionalização do setor audiovisual.
O impasse torna-se evidente: se a maior parte dos festivais brasileiros concentra-se do Sudeste para baixo, e mesmo ali enfrenta dificuldades para escoar sua própria produção, o cinema que emerge nos interiores e em outras extremidades do país encontra ainda menos oportunidades de visibilidade. No entanto, a circulação é parte essencial do percurso de um filme. Exibir, dialogar e ser reconhecido são etapas que prolongam sua existência simbólica e material.
Pesquisadores apontam que o impacto dos festivais ocorre tanto de forma direta quanto indireta. De um lado, oferecem prêmios, laboratórios de roteiro, fundos de desenvolvimento, residências artísticas e possibilidades de coprodução. De outro, funcionam como instâncias de legitimação, ampliando o reconhecimento das obras junto à crítica, ao mercado e ao próprio campo audiovisual.
Em grande medida, estamos falando de curta-metragens. Embora exista uma produção relevante de longas, concentrada sobretudo no eixo Rio–São Paulo, a trajetória da maioria dos cineastas brasileiros começa no curta. Quantitativamente, essa é a base da produção nacional. Como observa a pesquisadora Stefani Pedro, os curtas-metragens, devido à sua brevidade e à relativa facilidade de produção, representam uma oportunidade significativa para novos realizadores experimentarem linguagens e ingressarem na indústria cinematográfica.
A digitalização dos meios de produção e a ampliação de políticas públicas em determinados períodos contribuíram para uma descentralização parcial do audiovisual brasileiro. Trata-se de pensar um cinema feito por pessoas do território e no próprio território. O deslocamento das margens para os grandes centros em busca de viabilidade econômica não é novidade histórica, mas permanece a questão: o que acontece com aqueles que insistem em produzir regionalmente?
Nos últimos anos, coletivos independentes, pequenas produtoras e iniciativas universitárias têm tensionado antigas estatísticas. Mostras locais, laboratórios de criação e redes alternativas de circulação ampliam gradualmente a presença regional no mapa audiovisual brasileiro. Mesmo diante de limitações estruturais, há uma vitalidade criativa insistente que desafia a lógica centralizadora do setor.
Se o cinema brasileiro deseja, de fato, representar sua diversidade territorial e social, o fortalecimento do circuito de exibição precisa tornar-se uma engrenagem permanente de sustentação. A consolidação de redes regionais, aliada a políticas públicas estáveis e à profissionalização da gestão cultural, pode reduzir a intermitência dos eventos e ampliar o acesso da população às obras produzidas em seu próprio contexto.
Mais do que vitrines, os festivais tornaram-se territórios de permanência. Enquanto o centro ainda define quem pode circular plenamente no cinema brasileiro, às margens seguem criando seus próprios caminhos e com eles, novas formas de imaginar o país através da tela.
*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

