Quilombo do Audiovisual Negro

Esta coluna é um espaço para reflexões e debates sobre as produções e ações de profissionais do audiovisual negro. Aqui vamos conversar sobre mercado, políticas públicas, ações afirmativas e estratégias para a ampliação da presença e permanência de pessoas negras no audiovisual e nos imaginários.

Gestão do Impossível: por que a cota de tela decide o futuro do cinema negro

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Lançamento da série de ficção 'Nós Somos Pares', produção da Borboletas Filmes
Lançamento da série de ficção ‘Nós Somos Pares’, produção da Borboletas Filmes | Crédito: Quilombo do Audiovisual Negro

O cinema negro não disputa só com Hollywood; disputa com a própria desigualdade interna do orçamento nacional

Com ensinamentos da intelectual negra baiana Valdecir Nascimento, cofundadora do Odara – Instituto da Mulher Negra, nós, mulheres negras e também representantes do audiovisual negro independente, seguimos atuando em nossas carreiras fazendo a “Gestão do Impossível”, ou seja, acreditando no potencial de nossas narrativas, produzindo-as e ainda tendo a ousadia de circular com elas pelo nosso país.

Diante dos últimos casos ocorridos no setor, como a discussão sobre a Cota de Tela, a lei que garante filmes brasileiros nos cinemas e que ainda precisa ser defendida, ou os R$ 136 milhões investidos em uma única produção, cabe uma análise sobre fomento e exibição: uma coisa não funciona sem a outra. A cota de tela e o fomento são duas pontas da mesma política. Como equilibrar o fomento a grandes projetos com potencial de mercado e a necessidade de pulverizar recursos para garantir a diversidade brasileira? O filme precisa ser visto. O público precisa ter conhecimento da existência dessas obras, e um dos caminhos é fazer com que elas cheguem às salas de cinema. Por isso as políticas públicas, se aplicadas corretamente, são de extrema importância para o nosso setor.

Como distribuidora na Borboletas Filmes, em 2024, colocamos em cartaz, em 10 salas de cinema pelo país, com muita dificuldade, um longa-metragem documental de um cineasta negro, que em determinado momento nos confidenciou que, em mais de 20 anos de carreira, com mais de 50 anos de idade, e com 3 longas produzidos, essa era a primeira vez que ele chegava ao Circuito Comercial. Infelizmente, essa é uma realidade constante no audiovisual negro independente, que historicamente acessa editais de menor valor e enfrenta mais barreiras na distribuição. O cinema negro não disputa só com Hollywood. Disputa com a própria desigualdade interna do orçamento nacional, o que faz com que essas produções sigam sem chance real de encontrar o público nas salas de cinema.

O cinema brasileiro é uma potência e contribui com o fomento e o desenvolvimento da cadeia da economia criativa e com a democratização do acesso à cultura para todos os segmentos da sociedade, pois quando a cultura gera conexão ela inspira, gera repertório, promove o pensamento crítico, o sentimento de pertencimento e tem o poder de impactar vidas. Então, ao decidirem quem tem direito à tela, decide-se a construção de um imaginário, de uma identidade nacional. Por isso é importante compreender a necessidade do cumprimento da cota de tela de modo equânime em todos os dias e horários, garantindo a igualdade de condições de exibição das diferentes obras produzidas no Brasil.

A lógica é simples: sem obrigação legal, o mercado tende a priorizar o que dá mais retorno imediato. E, no cinema, isso significa os blockbusters estrangeiros, com campanhas milionárias de marketing. Sem a cota, o filme brasileiro produzido com orçamento menor e sem verba para divulgação em massa desaparece do cartaz em uma semana. A cota não garante bilheteria. Ela garante acesso. Garante que o público possa escolher. Garante que um filme baiano, pernambucano ou gaúcho tenha pelo menos a chance de encontrar sua plateia. Por que isso importa tanto para o cinema negro? Quando falamos de audiovisual negro, a cota de tela ganha uma camada a mais, porque não estamos falando só de mercado. Estamos falando de narrativa e de direito à imagem.

Se a cota de tela for cumprida de forma apenas burocrática, concentrando sessões às 10h da manhã de uma terça-feira em um único título, o efeito prático é que o restante da produção nacional segue invisível. O risco é retrocedermos ao que o cinema negro conheceu bem: ser tratado como cota simbólica. Existir no catálogo, mas não na programação real. Defender a cota é defender o direito de existir na tela. No fim, a cota de tela é sobre isso: garantir que o Brasil se veja. Políticas públicas para o audiovisual não são favor. São reparação e estratégia de país. Um país que não exibe suas próprias histórias abre mão de formar seu imaginário. Por isso, mais do que nunca, é preciso discutir a cota de tela. Não para atacar A ou B, mas para lembrar que, sem ela, a maioria dos nossos filmes simplesmente não chega ao público. E sem público, não há cinema nacional. E sem cinema nacional diverso, não há democracia de imagens.

Cabe a nós supervisionar, fiscalizar e cobrar dos devidos órgãos por melhorias ao nosso setor, pois não podemos mais deixar que poucos filmes com muito dinheiro disputem um calendário de exibição que, na prática, pode ser esvaziado por manobras de cumprimento burocrático da cota. É preciso ter espaço para toda a diversidade de produção ao longo do ano; portanto, garantir que a cota de tela funcione o ano inteiro é questão de sobrevivência. E por aqui, seguimos o vento que movimenta a luta, às vezes borboletas, às vezes búfala, seguimos com estratégias para circular com o nosso audiovisual ainda na “Gestão do Impossível”.

* Camila de Moraes é CEO da Borboletas Filmes. Cineasta, distribuidora, jornalista e produtora cultural. Assina a direção dos documentários “A escrita do seu corpo” (curta-metragem/2016), “O Caso do Homem Errado” (longa-metragem/2017), “Mãe Solo”(curta-metragem/2021) e “Oliveira Silveira – O Poeta da Consciência Negra”(curta-metragem/2022). Na ficção, assina a direção do curta-metragem “A Um Gole da Eternidade” (2024), ao lado do seu pai, Paulo Ricardo de Moraes. Também assina a direção e o roteiro da série de ficção “Nós Somos Pares” (2025). Entre os anos de 2024 e 2025, coordenou o “Circuito Filmes que Voam! Borboletas Filmes”, levou mais de 80 filmes nacionais, entre curtas-metragens e longas-metragens para bairros periféricos de Salvador-Bahia, com sessões semanais, destinada à “Terça do Cinema”.

** Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Thaís Ferraz

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