Quilombo do Audiovisual Negro

Esta coluna é um espaço para reflexões e debates sobre as produções e ações de profissionais do audiovisual negro. Aqui vamos conversar sobre mercado, políticas públicas, ações afirmativas e estratégias para a ampliação da presença e permanência de pessoas negras no audiovisual e nos imaginários.

Não basta produzir: é preciso fazer o cinema circular

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Não basta produzir: é preciso fazer o cinema circular
Não basta produzir: é preciso fazer o cinema circular | Crédito: Virginia Dandara

Mas aumentar a produção não resolve sozinho o problema. É preciso que esses filmes tenham onde ser exibidos e que o público tenha condições de conhecê-los.

Em agosto, fomos surpreendidos pelo anúncio do cancelamento da Semana de Cinema Negro de Belo Horizonte. Depois de cinco edições, o festival já fazia parte do calendário cultural da cidade e se tornou um espaço importante para a exibição e discussão do cinema negro brasileiro e internacional. A programação também criou uma possibilidade de intercâmbio entre realizadores de diferentes regiões do país, além de trazer para Belo Horizonte produções que dificilmente chegam ao circuito comercial.

A importância da Semana pode ser percebida também pela forma como o público ocupa esses espaços. No Palácio das Artes, com entrada gratuita, as pessoas podem assistir a filmes brasileiros que talvez não encontrassem em uma sala de cinema convencional e conversar sobre essas produções com quem participou delas. É uma dimensão da distribuição que muitas vezes fica em segundo plano quando se fala sobre audiovisual.

Produzir um filme é apenas uma parte do processo. Depois de pronto, ele precisa encontrar caminhos para chegar ao público. No Brasil, essa etapa continua sendo um desafio, principalmente para produções que não estão inseridas nos grandes circuitos de exibição. Os festivais cumprem uma função importante nesse processo porque criam espaços para que esses filmes sejam exibidos e conhecidos.

Por isso, a dificuldade enfrentada pela Semana de Cinema Negro não deveria ser vista apenas como uma questão relacionada a um festival específico. A APAN acompanha há algum tempo os desafios enfrentados por eventos de cinemas negros e mantém uma rede voltada para essa discussão. No último ano, esse debate também apareceu em um encontro realizado pela associação com organizadores de festivais. Entre os relatos, a dificuldade de acesso a patrocínios esteve presente de forma recorrente.

É uma discussão que ganha ainda mais importância quando olhamos para o tamanho do audiovisual brasileiro. Um estudo realizado pela FIA aponta que a indústria audiovisual sustentou 608.970 empregos em 2024, considerando os impactos diretos, indiretos e induzidos de suas atividades.  Esse número ajuda a colocar os festivais dentro de uma discussão maior. Um evento de cinema envolve profissionais de produção, comunicação, curadoria, técnica, programação, entre outras áreas. O recurso destinado a um festival também circula por essa cadeia de trabalho.

No caso dos cinemas negros, existe ainda uma questão relacionada à própria circulação dessa produção. Nos últimos anos, o cinema negro brasileiro ganhou espaço com o surgimento de novos realizadores. Parte desse crescimento está relacionada às políticas de ação afirmativa e à atuação dos movimentos negros na reivindicação por mais acesso e representação.

Mas aumentar a produção não resolve sozinho o problema. É preciso que esses filmes tenham onde ser exibidos e que o público tenha condições de conhecê-los. Nesse sentido, os festivais ocupam uma posição importante dentro da cadeia do audiovisual.

O que aconteceu com a Semana também chama atenção para outro movimento. A dificuldade de encontrar patrocínio não aparece apenas entre os festivais de cinema negro. Depois do anúncio do cancelamento, diversos realizadores de outros eventos também relataram dificuldades semelhantes. O problema, portanto, é maior.

Há também uma retração mais ampla dos investimentos corporativos em iniciativas relacionadas à diversidade. Essa mudança já é percebida em diferentes áreas e países e merece atenção no audiovisual, especialmente em um momento em que a produção negra ganhou espaço e passou a ocupar lugares que historicamente não estavam abertos a ela.

Por isso, a mobilização em torno da Semana foi importante. Depois do anúncio do cancelamento, realizadores, profissionais do audiovisual e público se manifestaram pela continuidade do evento. E chegamos a esta sexta-feira com uma notícia que permite respirar aliviados: a Semana conseguiu um patrocínio e poderá ser realizada.

A notícia é boa, mas o episódio deixa uma questão que não deveria ser ignorada. Foi preciso que o festival anunciasse que não aconteceria para que uma mobilização tão grande se formasse em torno dele. A mobilização da sociedade é importante e sempre será. Mas festivais que já demonstraram sua relevância e construíram público não deveriam depender apenas desse tipo de movimento para conseguir realizar suas edições.

O investimento em festivais precisa ser compreendido como parte do investimento no próprio audiovisual. São esses eventos que ajudam filmes a encontrar público, conectam realizadores e colocam produções em circulação. Para os cinemas negros, esse papel é ainda mais importante porque amplia o acesso a obras que muitas vezes não chegam às salas comerciais.

A Semana vai acontecer. É uma notícia que celebramos. Mas o que aconteceu neste mês também serve para lembrar que o compromisso com a diversidade precisa aparecer de forma concreta nos investimentos. Não apenas quando o tema está em evidência, mas como parte de uma estratégia contínua de apoio ao audiovisual brasileiro.

*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Lucas Estanislau

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