Rafael da Guia

Cientista de Dados especialista em modelos de Inteligência Artificial, com mais de 18 anos de experiência. Atualmente é Consultor de Tecnologia no jornal Brasil de Fato, com passagens pela Gol Linhas Aéreas e Minsait. Graduado em Desenvolvimento e Marketing (U. Illinois), com especializações em Ciência de Dados (John Hopkins e FIAP). É militante do Movimento Brasil Popular.

Propaganda de guerra: o mito da invencibilidade cibernética dos EUA

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Tela com cyber ataques em tempo real.
Tela com cyber ataques em tempo real. | Crédito: Bill Smith / CC BY 2.0

A formação de pessoas assume um caráter central no desenvolvimento social e econômico do país, não podemos ignorar o caráter bélico e de soberania desta decisão

Após o sequestro do presidente da Venzuela, Nicolás Maduro, durante invasão militar dos Estados Unidos no país, percebi uma proliferação de analistas colocando os EUA na hegemonia bélico-militar do mundo. A propaganda estadunidense funcionou bem para nos deixar alertas e preocupados com o poderio bélico do imperialismo, deixando evidente a necessidade de cautela na análise.

Um dos pontos principais de observação foi o uso da cibernética durante o ataque. Uma parte das análises sugeriu que não existiria nenhum país no mundo capaz de enfrentar os EUA em uma guerra cibernética, além de outros modelos bélicos. Esse tipo de perspectiva nos deixa atônitos com a sensação de que não existe forma de resistir militarmente ao imperialismo.

Mas será que isso é real?

Um primeiro ponto necessário é admitir que a Venezuela, ao menos no território cibernético, não oferece resistência aos EUA. Não tenho uma compreensão profunda sobre outras variáveis militares, então me atenho apenas ao ponto de vista cibernético.

Nossos vizinhos sofrem há anos com diversos ataques do imperialismo, inclusive um bloqueio econômico e crises criadas externamente. Isso fez com que a Venezuela perdesse, ao longo dos anos, o maior ativo em poderio cibernético: os cérebros.

A evasão de profissionais de diversas áreas que compõem o que entendemos como cibernética foi enorme nos últimos anos, numa mistura entre as crises internas e oportunidades econômicas externas, o que enfraquece o país. É algo parecido com o que o Brasil também sofre, mesmo enfrentando crises e ataques mais brandos do que os sofridos pelo povo venezuelano.

Mas essa vantagem dos EUA contra a Venezuela não os coloca automaticamente no ápice do poderio cibernético mundial. Uma avaliação mais apurada pode provar o contrário dessa premissa.

Logicamente, é uma análise bastante complexa de ser feita, pois apenas sabemos o real poderio bélico de qualquer organização quando olhamos em retrospectiva. Ou seja, quando ela entra em uma guerra. Seria muito fácil para muitos, por exemplo, nos anos 1960, presumir que os EUA dizimariam o Vietnã durante o conflito. Mas, olhando em retrospecto, é possível avaliar os motivos pelos quais eles não tinham chances de vencer.

A atualidade da Guerra e do Estado

Boa parte do mundo concentrou suas estruturas de funcionamento em ferramentas digitais durante as últimas décadas. Do nosso fornecimento de água até o acesso básico a direitos constitucionais, hoje diversos aspectos do funcionamento de qualquer povo são dependentes de computadores.

Essa nova realidade também modifica a guerra e a agressão de um povo contra outro. É possível afirmarmos atualmente que toda guerra é cibernética, pois mesmo os dispositivos físicos dependem de computadores e redes virtuais para seu funcionamento, assim como o Estado moderno também tem essas dependências intrínsecas à sua existência.

Nessa área, é possível afirmarmos que os EUA continuam sendo uma potência bélica, mas seria possível fazer a afirmação de que eles são a única potência ou mesmo que estão na dianteira?

As potências cibernéticas

Se simplificarmos a cibernética, podemos conceituá-la como uma mistura entre hardware, software e pessoas profissionalizadas.

No quesito hardware, atualmente, não existem dúvidas de que a China é a maior produtora mundial, tendo avançado a passos largos nos últimos tempos para garantir sua soberania na produção de componentes com tecnologia de ponta.

O Ocidente como um todo, inclusive os EUA, tem uma dependência enorme de apenas um lugar: Taiwan — que, em última análise, também é um território chinês. Bem abaixo deles, podemos observar também a Índia se tornando um ator importante na produção de chips e componentes eletrônicos.

Se pensarmos na dependência desses hardwares das estruturas logísticas e elétricas, também colocamos a China muito à frente de outros países.

Já no quesito software, os EUA têm uma hegemonia no Ocidente em relação a ferramentas comunicacionais, sendo quase onipresentes em diversos países em desenvolvimento, como o Brasil e a Índia. Porém, os EUA apresentam uma dependência enorme de softwares de caráter bélico de países como Israel e Itália, não tendo uma produção interna relevante, além do potencial de prejudicar a comunicação de outros países.

Já a China e outros países, como a Rússia, nunca demonstraram o que têm produzido internamente, focando apenas em softwares e estratégias de defesa, o que inclui um forte bloqueio da entrada de softwares comunicacionais dos EUA e de seus aliados como forma de garantir sua independência nesses setores.

Mas e quanto a pessoas profissionalizadas?

O Foco da defesa cibernética chinesa: seu povo

Não é segredo para ninguém que a China tem colocado como foco do seu desenvolvimento socioeconômico a educação. Há poucos dias, o relatório da CWTS Leiden colocou as universidades chinesas muito à frente das universidades estadunidenses em produção científica.

Esse foco na formação de pessoas assume um caráter central no desenvolvimento social e econômico do país, mas não podemos ignorar o caráter bélico e de soberania que existe nessa decisão.

O principal elemento de uma guerra cibernética são as pessoas profissionalizadas para lidar com hardware, software e, principalmente, analisar os potenciais e fraquezas de um adversário. De nada adiantam o hardware mais poderoso e o software mais avançado do mundo sem uma pessoa preparada para lidar com eles.

Analisando apenas o desenvolvimento científico de cibersegurança no mundo, atualmente as universidades e empresas chinesas apresentam três vezes mais patentes anualmente do que EUA, Coreia do Sul e Israel juntos, detendo 54,4% do total global de patentes.

China como a maior potência de Guerra Cibernética do planeta

Com isso, podemos observar que os chineses assumem a dianteira na produção de hardwares avançados, softwares de defesa e na formação de profissionais. Mesmo não conhecendo a fundo os softwares de ataque da China, já podemos inferir que ela tem a liderança no que tange à guerra cibernética globalmente.

Além desses dados mais concretos, também é possível corroborar essa afirmação com outros dados mais difusos.

Um deles é um relatório lançado em maio de 2025, em que o FBI (Federal Bureau of Investigation) coloca a China como um risco iminente para a infraestrutura dos Estados Unidos na esfera militar e cibernética (https://www.cartacapital.com.br/mundo/o-que-diz-o-relatorio-de-inteligencia-que-coloca-a-china-como-a-maior-ameaca-militar-aos-eua/ ). Tal relatório pode tanto apontar para um receio real quanto para um pedido por aumento de verbas e mudanças no desenvolvimento do país.

Além disso, em anos anteriores, os Estados Unidos desenvolveram seu poderio cibernético absorvendo grupos de hackers que praticavam crimes localmente, sendo que boa parte dos especialistas na área atualmente vem desses grupos.

Não sabemos até que ponto o governo chinês mantém uma política semelhante, mas, sabendo que hoje cerca de 45% a 60% dos ataques cibernéticos do mundo são provenientes da China e que, entre os 10 grupos de hackers mais famosos do mundo, 8 provavelmente são chineses, isso fornece um potencial adicional para a China se reforçar em uma eventual guerra cibernética.

Como em toda guerra, essa análise é interessante, mas não é uma afirmação de vitória, já que existem diversas outras variáveis que se desenrolam durante um conflito. Porém, aponta para uma realidade bastante diferente da que a propaganda estadunidense dos últimos meses apresentou, ao menos no que tange ao poderio cibernético ao redor do planeta.

Editado por: Maria Teresa Cruz
Sindicalizadas/os no SISMUC

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