Imagine o seguinte cenário: uma empresa de tecnologia de capital aberto contratou diversos trabalhadores em um período em que a demanda por serviços de TI estava alta. Alguns anos se passam e essa empresa se observa com uma quantidade anormal de trabalhadores sem função após o fim do período de alta demanda. Ela precisa demitir, pois seu quadro de funcionários e alguns salários estão muito acima do que a demanda atual requisita, mas tem um receio de que essas demissões sejam observadas de maneira errada e isso faça com que suas ações caiam. Eis que surge uma tecnologia que promete aumento de produtividade. Mesmo sem conseguir construir projetos eficientes com essa tecnologia, ela pode ser uma ótima desculpa para demitir trabalhadores, colocando a culpa em um positivo aumento de produtividade e não em sua falta de organização interna.
Tal cenário pode se repetir com empresas que estão em crises financeiras e não desejam alardear demais tal crise ao utilizá-la como motivação para um processo de demissões. Uma tecnologia inovadora vira a culpada, mesmo não sendo empregada de verdade em seu processo de obtenção de lucro.
Imaginaram?
Pois é isso que parece estar acontecendo no mercado de trabalho como um todo. De um lado, temos um relatório demonstrando que projetos de Inteligência Artificial não estão sendo bem-sucedidos em gerar redução de custos ou aumento de lucro. De outro lado, todas as semanas surgem algumas notícias de alguma empresa que fez demissão em massa (conhecida como layoff) e, no comunicado de imprensa, coloca a culpa no ganho de produtividade das inteligências artificiais. Uma das últimas foi a empresa israelense Wix, que anunciou cortes de 20% dos funcionários nesta semana.
O mercado de trabalho capitalista, centrado em empresas de capital aberto, gera diversas tensões estranhas que, em última medida, acabam atingindo a classe trabalhadora. A Microsoft é um exemplo. Após bater lucro recorde no último ano fiscal, anunciou a demissão de mais de 5 mil trabalhadores de uma vez, colocando o foco em aumentar ainda mais o seu lucro com redução de custo em recursos humanos e desenvolvimento de ferramentas de inteligência artificial. Mas, assim como em outros casos, essa justificativa parece ser apenas um mascaramento da realidade. A Microsoft, por exemplo, precisa agradar a seus acionistas, mesmo que, com isso, perca força de trabalho importante.
São diversos os pontos críticos da atual organização das empresas no capitalismo atual. A Inteligência Artificial, de certa maneira até ironicamente, aparece como um bode expiatório perfeito para justificar o injustificável.
A consultoria Adecco realizou um relatório estudando a realidade dos milhares de demitidos no último período ). Enquanto mais de 80% dos comunicados sobre demissões em massa citam a Inteligência Artificial como causadora das demissões, apenas 1,4% dessas pessoas foram substituídas por IA. É uma conta que simplesmente não fecha e escancara uma mentira.
Esse tipo de comunicação gera pânico e análises tortas sobre o cenário atual, incluindo teorias, como a defendida por Peter Thiel, CEO da Palantir Technology, de que a IA irá ocasionar o fim do trabalho humano. Quem trabalha nessa área sabe que isso está muito distante da realidade concreta.
Inteligências artificiais são, sim, algo que pode modificar as bases da cadeia de produção humana, mas ainda estão longe disso. Essa distância pode ser explicada tanto pela ainda imaturidade da tecnologia, da qual podemos falar que está apenas no seu início de desenvolvimento, quanto pela incompreensão das organizações em entenderem a sua aplicabilidade. Mesmo que elas atinjam patamares que realmente modifiquem o sistema produtivo do nosso mundo, ainda estão longe de serem as causadoras do fim do trabalho, pois, entre tantos outros motivos políticos e sociais, a própria tecnologia não está e não estará nos próximos períodos desenvolvida o bastante para isso.
Utilizar a IA como causadora do fim do trabalho ou como motivo para demissões em massa é uma estratégia comunicacional. Essas ideias atacam diretamente a organização da classe trabalhadora, criando um monstro invisível que causa medo e, com isso, pode gerar ainda mais prejuízo aos direitos desses trabalhadores.
Se pensarmos em setores da classe trabalhadora em que não existe um exército de reserva amplo, por exemplo, utilizar-se do medo para redução de salários e direitos é a única estratégia do capital para aumentar a sua lucratividade (ou a mais-valia).
É estranho pensar em inteligências artificiais como um bode expiatório para uma reorganização do capital, buscando reduzir salários e número de cargos, mas não é algo novo. O medo sempre é utilizado pelos setores liberais para reduzir ou evitar o ganho de direitos. Podemos ver o mesmo acontecendo, por exemplo, nas ameaças de crises econômicas, inflações e quebras de empresas que setores capitalistas da sociedade utilizam para tentar enfrentar o avanço do debate sobre o fim da escala 6×1 neste momento.
Muito mais do que um avanço na tecnologia de produção, as IAs podem e serão utilizadas como ferramentas para garantir interesses da classe dominante.
Não por menos, temos notícias de países, como a China, proibindo as demissões de trabalhadores sob a justificativa de automação do trabalho com inteligências artificiais, e a última encíclica papal colocando esse tema em evidência.
Estamos em meio a uma disputa envolvendo essa tecnologia, mas não é apenas uma disputa tecnológica, também é uma disputa de ideias sobre qual modelo produtivo teremos em um mundo em que seja possível o nível de automação de trabalhos prometido por essas ferramentas. Isso não deve ocorrer nos próximos anos e nem sabemos se ocorrerá, mas a disputa de hegemonia para definir o que será esse mundo já vem sendo travada.
Em meio a isso, a verdade que podemos tirar é que justificar as demissões atuais como causadas pelo avanço de inteligências artificiais é apenas mais uma mentira da classe dominante.
Parece apenas tecnologia, mas é luta de classes mesmo.
*Rafa da Guia é cientista de dados especialista em modelos de Inteligência Artificial, com mais de 18 anos de experiência. Atualmente é consultor de tecnologia no Brasil de Fato, com passagens pela Gol Linhas Aéreas e Minsait. Graduado em Desenvolvimento e Marketing (U. Illinois), com especializações em Ciência de Dados (John Hopkins e Fiap).
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

