Rafael da Guia

Cientista de Dados especialista em modelos de Inteligência Artificial, com mais de 18 anos de experiência. Atualmente é Consultor de Tecnologia no jornal Brasil de Fato, com passagens pela Gol Linhas Aéreas e Minsait. Graduado em Desenvolvimento e Marketing (U. Illinois), com especializações em Ciência de Dados (John Hopkins e FIAP). É militante do Movimento Brasil Popular.

O medo da inteligência artificial é o medo do capitalismo?

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Quando o Ocidente teme a inteligência artificial, do que ele tem medo: da máquina ou seu próprio sistema de produção e de acumulação do capital?
Quando o Ocidente teme a inteligência artificial, do que ele tem medo: da máquina ou seu próprio sistema de produção e de acumulação do capital? | Crédito: Commons

Quando o Ocidente teme a inteligência artificial, do que ele tem medo: da máquina ou seu próprio sistema de produção e de acumulação do capital?

Há um fenômeno raro na política estadunidense: um tema em que republicanos e democratas concordam. Pesquisa do Pew Research Center de 2025 mostrou que a preocupação com a IA no cotidiano já atinge igualmente os dois campos partidários. Dados do Gallup, em parceria com o Special Competitive Studies Project, vão além: 97% dos adultos estadunidenses concordam que a segurança da IA deveria estar sujeita a regras, e 80% preferem regulação mesmo que isso freie o desenvolvimento da tecnologia, posição compartilhada por 88% dos democratas e 79% dos republicanos. Um estudo da Universidade de Maryland de agosto de 2025 confirmou o quadro: maiorias bipartidárias apoiaram cinco propostas de regulação da IA em tramitação no Congresso.

Mas, antes de se animar com esse consenso, peço que você respire: as coisas não são assim tão simples. É sintomático que ele nasça do medo, e não da esperança. E é um medo sem endereço certo: raramente aponta para uma causa estrutural: a concentração de poder computacional em meia dúzia de empresas e a lógica de acumulação que empurra a tecnologia goela abaixo da sociedade. É antes um medo difuso, quase órfão de explicação, mais próximo da ficção científica do que da economia política.

Ernest Mandel, economista belga, já havia dado nome ao mecanismo: cada fase do capitalismo (mercantil, industrial, monopolista, keynesiana, financeirizada, etc.) reorganiza a técnica em torno da sua própria forma de acumular. O que se teme na IA, portanto, não é a máquina, mas sim a fase. A financeirizada, que precisa transformar qualquer invenção em ativo antes de transformá-la em uso. E, quando o problema é político, mas a resposta oferecida é sempre um produto, estamos diante do que Evgeny Morozov chamou de solucionismo tecnológico.

Em Pequim, o relógio não é trimestral

O contraste chinês é instrutivo e vale ouvi-lo em suas próprias fontes, não só nas leituras ocidentais sobre ele. 

Em vez de uma lei geral e definitiva, Pequim optou por avançar por pilotos e normas setoriais. Em agosto de 2025, o Conselho de Estado lançou o plano “IA Plus”, que a agência estatal Xinhua descreve como parte de uma iniciativa gestada desde o relatório de trabalho do governo de 2024 e incorporada às diretrizes do Partido Comunista da China para o 15º Plano Quinquenal (2026–2030), que pode ser lido aqui. A meta oficial, segundo o texto do próprio governo, é alcançar mais de 70% de penetração da IA em seis setores-chave até 2027, e fazer da tecnologia motor pleno do “desenvolvimento de alta qualidade” até 2030.

A Qiushi é ainda mais explícita quanto ao caráter estratégico, não emergencial, dessa condução: trata a IA Plus como parte de um planejamento de longo prazo para reformular a estrutura produtiva do país diante de uma força de trabalho em encolhimento e de tensões geopolíticas crescentes. E o jornal Global Times, em editorial de agosto de 2026, virou o espelho para o Ocidente: observou que, ao pesquisar “China AI” em buscadores ocidentais, a palavra mais recorrente é “corrida” (race) — mas o sentimento dominante por trás das manchetes é a ansiedade, não a competição serena. Isso não significa que o modelo chinês seja isento de contradições, mas ali a IA é tratada como política industrial de Estado, e não como aposta trimestral de mercado.

Um medo que atravessa o Atlântico

Esse pânico difuso não ficou circunscrito aos Estados Unidos: espalhou-se para outros países ocidentais, o Brasil entre eles, que tende a importar a gramática do medo estadunidense sem investigar suas próprias condições materiais, como a concentração de renda, informalidade e fragilidade das políticas de requalificação profissional.

E aqui a diferença importa. Nos Estados Unidos, o medo é de perder valor de carteira; já no Brasil, é de perder o posto de trabalho sem rede de proteção que o substitua. Importar o pânico estadunidense sem fazer essa tradução é aceitar que a conversa sobre IA no país seja pautada por quem tem ações na bolsa de Nova York, e não por quem opera o caixa, o call center ou a linha de montagem. Discutir soberania tecnológica aqui é discutir de quem é o data center, de quem é o modelo e de quem é o emprego que ele automatiza, três perguntas que o medo difuso, importado pronto, ajuda justamente a não fazer.

A bolha, enfim

Há um dado que aproxima esse medo da sua origem mais provável. O Banco de Compensações Internacionais, em relatório de 2026, comparou o atual ciclo de investimento em infraestrutura de IA a episódios históricos de euforia especulativa, do boom ferroviário do século XIX às pontocom, estimando gastos de mais de um trilhão de dólares só em 2026 pelas cinco maiores empresas de computação em nuvem. O Banco Central Europeu alertou que os lares da União Europeia têm hoje 440 bilhões de euros expostos a ações de tecnologia estadunidense ligadas à IA. E a Fundação Roscongress calcula em mais de 50% a chance de estouro da bolha até 2026, notando que a maior parte da valorização recente do S&P 500 se concentrou em pouco mais de uma dezena de empresas.

O medo tem nome, e não é máquina

Esses medos difusos, sem endereço, não nascem do nada. São, isso sim, o resíduo psíquico acumulado de um século de crises do próprio modo de produção capitalista, como a crise de 1929, os choques do petróleo nas décadas de 70 e 80, a crise imobiliária de 2008 e a bolha das pontocom do início dos anos 2000, e outras crises que a atual corrida da IA tanto relembra. Cada uma dessas crises ensinou ao público ocidental que toda promessa de progresso ilimitado pode, da noite para o dia, virar desemprego em massa e colapso patrimonial. O que se chama de “medo da inteligência artificial” é, portanto, menos o temor de uma tecnologia específica do que a repetição de um trauma estrutural: a desconfiança, plenamente justificada pela experiência histórica, de que o capitalismo financeiro tende a transformar toda inovação em especulação, e toda especulação, mais cedo ou mais tarde, em crise.

A China, ao tratar a IA como projeto de Estado planejado a médio prazo, não elimina suas próprias contradições, mas ao menos não terceiriza para o mercado financeiro a tarefa de decidir o destino da tecnologia. Talvez seja essa, afinal, a pergunta que caiba fazer: quando o Ocidente teme a inteligência artificial, do que ele tem medo: da máquina, ou do seu próprio sistema de produção e de acumulação do capital?

*Rafa da Guia é cientista de dados especialista em modelos de Inteligência Artificial, com mais de 18 anos de experiência. Atualmente é consultor de tecnologia no Brasil de Fato, com passagens pela Gol Linhas Aéreas e Minsait. Graduado em Desenvolvimento e Marketing (U. Illinois), com especializações em Ciência de Dados (John Hopkins e Fiap).

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Rafaella Coury

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