Rafael Villas Bôas

Professor da Educação do Campo e do programa de pós-graduação em Artes Cênicas da Universidade de Brasília (UnB).

O Almirante Negro rasga os mares do racismo brasileiro

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Peça o Almirante Negro - Brasília
O espetáculo propõe uma reflexão sobre racismo, memória e resistência no Brasil. | Crédito: Ogãn Luiz Alves

O passado está em disputa e a Marinha Brasileira contestou o título de herói da pátria para João Candido

A Revolta da Chibata, episódio que ocorreu no Rio de Janeiro em 1910, é um dos atos insurgentes populares mais famosos da história brasileira. A rebelião iniciou quando marinheiros se apoderaram do navio militar Minas Gerais e outras três embarcações de guerra da Marinha para ameaçar com os canhões a ordem racista herdade do período escravocrata.

O movimento denunciou os maus tratos aos marinheiros negros de baixa patente, submetidos a chibatadas como prática disciplinar, péssimas condições de alimentação, de alojamento nos navios e batalhões, os soldos baixos, além de outras humilhações. João Cândido é o nome do líder da revolta e tramita no Congresso Nacional um projeto para que o nome dele conste no Panteão dos Heróis e Heroínas Nacionais.

A história foi contada em Brasília no dia 23 de maio, no teatro do Sesc Newton Rossi, em Ceilândia, região administrativa do Distrito Federal. No início da sessão, o produtor Martin Filho sobe em um caixote no hall de entrada do teatro e faz um discurso. Não era só para pedir que os espectadores desligassem os celulares, evitassem os flashs, etc, era o início da peça. Como narrador do que estava por vir, ele explicou que o tema não é apenas uma história do passado, e que sequer seria abordada cronologicamente.

O passado está em disputa e a Marinha Brasileira contestou o título de Herói da Pátria para João Candido: “Aponto, por conseguinte, que incluir no livro de Heróis da Pátria, João Candido Felisberto ou qualquer outro participante daquela deplorável página da história nacional, quando o patrimônio público foi destruído e o sangue de brasileiros inocentes derramado seria o mesmo que transmitir à sociedade, e em particular, aos militares de hoje, a mensagem de que é lícito recorrer às armas, que lhe foram confiadas para reivindicar suposto direito individual ou de classe”. O trecho citado pertence a carta do então comandante da Marinha, Almirante Marcos Sampaio Olsen, encaminhada ao presidente da comissão de Cultura da Câmara dos deputados, no dia 22 de abril de 2024.

Dias atrás a Justiça Federal do Rio de Janeiro condenou a Marinha por racismo institucional a pagar R$ 200 mil em resposta ao caráter difamatório à memória de João Candido. O recurso deverá ser revertido em projetos destinados à preservação da memória do Almirante Negro.

João Candido faleceu em 1969, em condições de miséria. Ele e demais marinheiros que participaram da Revolta da Chibata foram anistiados post mortem, em 2008, por projeto de lei da então senadora Marina Silva (PT) e sancionado pelo presidente Lula. Todavia, o reconhecimento como herói nacional não deixou de ser contestado em termos ofensivos pela mesma Marinha que teve o comandante anterior preso e condenado por ter participado da tentativa de golpe no 8 de janeiro de 2023.

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Produtor da peça Martin Filho indaga aos espectadores: quantas vezes matam nossos símbolos negros? | Crédito: Rafael Villas Bôas

Retornando à peça, o produtor-narrador indaga aos espectadores no hall: quantas vezes matam nossos símbolos negros? Lembra de Marielle, de Amarildo. Não basta ser vítima de violência, de torturas ou assassinatos, a condição de vítimas de insurgentes negros é contestada, combatida, relativizada sistematicamente. É com essa energia e aviso prévio que somos instigados a entrar na sala onde nos espera o ator Otto Caetano representando o personagem João Candido.

O que vemos em cena é um intérprete experiente, em um cenário minimalista, com uma grande pedra, cordas delimitando o espaço cênico de forma circular, traje de marinheiro.

Com estrutura de monólogo em parte subjetivo e em parte narrativo, o personagem se apresenta ao público por fragmentos, contando passagens de sua vida, desde a cidade de origem, Encruzilhada (RS) até o período em que insurgiu como líder da Revolta da Chibata. A cena em que dá as ordens de tomada do navio Minas Gerais expõe a força e coragem do personagem, capaz de se apossar de um dos mais modernos navios de guerra do mundo na época, apontá-lo para a capital do país, e cobrar o fim dos maus tratos aos marinheiros pelos oficiais da Marinha.

História de injustiça

Conhecemos, por meio das cenas seguintes, a história da injustiça da Marinha que descumpriu o acordo de anistia e aprisionou os insurgentes. A maioria dos revoltosos foi morta por maus tratos na prisão, cal foi jogado sobre os prisioneiros. Temos notícia da violência, mas ela não é representada em cena. A dramaturgia de Bruno Estrela e a direção de Ricardo César foge do clichê da representação do povo negro em sofrimento.

O lugar da dor está sob o domínio da memória, está na narração, não é vivido no tempo presente, em forma dramática, em cena, em chave realista piegas. A violência não é naturalizada, como em telenovelas da época em que vigorava o regime escravocrata. Mas o impacto da violência sobre àqueles que se insurgem contra ela é um dos principais focos da obra.

O diálogo que existe é da ordem fantástica, entre João Candido e Zumbi, dois heróis de tempos históricos diferentes. Não é um diálogo intersubjetivo mediando a ação de dois personagens no tempo presente. A forma da cena e da dramaturgia remete aos terreiros e a evocação não é circunstancial, é parte de um projeto estético compartilhado por dois homens de teatro do Distrito Federal, os diretores e professores Ricardo César e Valdeci Moreira dos Santos, que na peça O almirante negro participou como iluminador. Valdeci discorre sobre o assunto na tese Estética de terreiro: a ancestralidade do teatro periférico no Espaço Semente.

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A peça é inspirada na trajetória de João Cândido | Crédito: Ogãn Luiz Alves

Na plateia, formada por maioria de pessoas negras, estava um grupo de teatro formado por jovens de Águas Lindas de Goiás e um grupo de capoeira de Ceilândia, bom sinal de que o trabalho desperta interesse coletivo, para além da curiosidade individual de espectadores.

A memória da luta negra vem sendo representada cada vez mais por coletivos de teatro do Distrito Federal, e o Almirante Negro – Mestra Sala dos Mares tem promissora trajetória a cursar rasgando os mares revoltos do racismo brasileiro.

*Rafael Villas Bôas é professor da Universidade de Brasília (UnB).

**Este é um artigo de opinião e não representa necessariamente a linha editorial do Brasil do Fato DF.


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Editado por: Flavia Quirino

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