Por Rhudá*
A provocação pode parecer banal, inclusive porque estamos falando da virtualidade, mas não há como separar nos tempos de hoje a correlação do que mais se unifica dos dois universos, o campo “real” x virtual, qual ainda estamos no preceito que revela sua unificação mais ativa ainda para com esse meio e que no futuro, provavelmente, desembocará em uma unificação das realidades , “separadas ainda”, enfim. A provocação não há de ser apenas mero devaneio, revela muito sobre como a linguagem molda percepções, cria figuras simbólicas e reforça estereótipos no e do imaginário coletivo, especialmente nas redes virtuais-sociais.
A partida básica desta reflexão é justamente esta: a forma como as linguagens se adentram e se encaixam no modo em que percebemos a parte do outro, muitas vezes transformando nomes e expressões em caricaturas, quais já foram e estão circulando no mundo hostil desde muito tempo e que retratam a reprodução do reduto, do olho colonizante.
Nesse universo digital, onde a ironia e o deboche se misturam à crítica social, certas figuras ganham força simbólica. “Jurandir”, por exemplo, surge como representação de um homem comum geralmente retratado como simples, limitado ou socialmente deslocado, sem capital social e de beleza abaixo da média, de cor, não branco, majoritariamente, quer dizer, esmagadoramente uma pessoa abaixo da média do que se espera de alguém que seja a salvação de outro alguém e que inclusive não reforça apenas o sentido do papel do homem no relativo “cis”, mas que também reforça o calo da heteronormatividade, porém não adentrarei nesses pontos aqui.
O problema não está na piada em si, mas sim no que está tangendo o que desperta por trás, no reforço de uma estrutura de inferiorização, pois quem está nesse apêndice é um termo difundido por uma série na televisão e este texto está longe de falar sobre isso ou conduta moral de alguém de atuação ou de personagens, no além mar de ser um manifesto pró-personagem etc., estou aqui para refletir sobre o termo em propagação nessa dissidência do que enerva a desconstrução da imagem e a figuração do arquétipo.
Não é do feitio aqui falarmos sobre papéis, sobre construções dessa natureza importada do que é de fato o masculino e suas controvérsias e de suas estruturas, muito menos do que pela palavra se atribui a moralidade das vivências quais são atribuídas a tal ideação do que é ser Jurandir, relações ou questões problemáticas voltadas ao papel do homem qual coexistem e que estou imerso na minha passabilidade. Não estou aqui para dizer também que precise existir piedade ou pena para com determinados tipos de figuras-grupos. E, sim, existem coisas mais importantes a serem ditas também em outros textos, por isso resumo aqui essa fala divergente, mas isso me chamou atenção esses dias, pois não encontrei alguém que soasse sobre de forma tal e como gosto de controvérsias tratei de uma bibliografia estritamente relacionada à legitimação mais fácil de entender ou ser passível de validação, especialmente para as pessoas que lerão isso e entenderão o que quero dizer.
Voltando
Rir do termo “Jurandir” nos faz rir de uma construção social que atribui valor e beleza a partir de marcadores de classe-parâmetro e também de capital social, raça e comportamento. É aqui que entra o conceito de viralatismo novamente, termo que posso me achegar por falar dessa disparidade, por mais que esse termo tenha sido fincado por uma figura branca, por Nelson Rodrigues em 1958, para definir o sentimento de inferioridade do brasileiro (palavra em desuso também por mim) diante do mundo, o viralatismo ainda se manifesta nas formas como o país-reduto enxerga a si mesmo – no corpo, na estética, na fala e, principalmente, na cor da pele.
Ser “Jurandir”, dentro dessa lógica, é carregar o peso simbólico de não corresponder ao ideal de beleza eurocentrado que ainda domina a sociedade do lado de cá, por hora, mas que anseio que caia, estou aqui para cutucar sobre isso também.
Antes da aparência, existe uma estrutura simbólica que associa valor a um padrão branco, purista e distante da mistura que caracteriza o “Brasil” real e na hierarquia da beleza ecoa a mentalidade colonizada que faço questão de citá-la neste texto para termos uma dinâmica maior de uma abrangência tal, texto que li quando estava na linha de frente da sobrevivência em uma comunidade terapêutica que transfigurou o eixo racional de entendimento de como via o mundo daqui por alguém dita de fora, suas nuances qual me ajudou na redução de danos e me jogou na perspectiva do autocultivo a mim mesmo ao me achar digno do autoamor e autocuidado: Rita Laura Segato chama de “Édipo brasileiro” uma estrutura psíquica e social marcada pela dupla negação de gênero e raça.
Segundo Segato, a sociedade brasileira construiu-se sobre a negação da mulher negra como figura materna e da pessoa racializada como sujeito pleno. Essa dupla negação sustenta a fantasia de uma “branquitude civilizadora”, na qual o que é mestiço, popular ou periférico precisa ser constantemente corrigido, apagado ou ridicularizado.
Faço o paralelismo passional pelo texto, pelo que representou ao estalo de lembrança de consciência: é dentro dessa lógica segunda que surge também o uso contemporâneo e pejorativo de “Jurandir”.
Transformar esse nome em símbolo de feiura, ignorância ou fracasso é repetir, ainda que inconscientemente, uma forma de apagamento cultural, “Jurandir” vem do tronco Tupi, com significados fantásticos abrangentes. É inevitável, não posso deixar de falar disso.
Ou seja, há beleza, doçura, luz, etc. em ancestralidade na sua etimologia, no processo de formação dessa “palavra”, um contraste profundo-gritante com o modo como a sociedade passou a utilizá-lo.
Ao ridicularizar o nome, ridiculariza-se também a herança indígena e o valor simbólico da linguagem, convertendo o que é originário e poético em motivo de escárnio, novamente e novamente…
Esse movimento não é isolado. Ele faz parte de um processo de racialização estética, no qual o belo é separado da mistura, e o popular é tratado como o oposto da elegância.
A linguagem, nesse sentido, se torna um espelho do racismo estrutural refletindo a incapacidade da sociedade de reconhecer valor fora dos parâmetros brancos e hegemônicos.
Assim, cada vez que se usa “Jurandir” como sinônimo de mediocridade, o que se repete é a lógica do viralatismo: a de que o “belo” só existe se for espelho de um outro europeu, branco, idealizado, como as características de quem difunde o termo intento e como a reprodução de quem insiste em fazê-lo intensamente sabendo, mas aos que não entendem, deixo meu papel de pensar.
Mas há resistência nesse debate.
Revisitar o significado de nomes como Jurandir, repensar expressões e seu aspecto de difundir isso tudo não é apenas um exercício linguístico, mas é um ato político.
É reivindicar o direito de existir com beleza própria, de afirmar que a palavra pode ser doce sem precisar ser limpa em tal qual sua origem, que o nome ainda assim sinônimo de dignidade e beleza.
Afinal, se não podemos ser belos fora dos padrões, então o que é, afinal, belo?
Novamente lembrando que isso não é sobre condutas atribuídas, mas sim uma lembrança de não se borrar com essas coisas que são vastas e gigantes dentro de um racismo linguístico, espero que isso seja apenas um estalo para entender coisas que são atribuídas a nós, poderia citar várias, mas não agora.
Talvez a resposta esteja menos na superfície e mais na capacidade de reconhecer valor na diversidade, na mistura em suas grandiosas diferenças, não só físicas, não só psicológicas, atípicas, divergentes, etc.
“Jurandir” não é a conduta, nesse caso, é a sobrevivência linguística e fervorosa do belo de cá, pode significar, no fim das contas, escapar de alguns moldes na suficiência para resistir à amargura das linguagens que tentam reduzir, na verdade.
Afinal, quem é George Clooney?
Pinceladas bibliográficas
Nelson Rodrigues, Complexo de Vira-Lata (1958)
Rita Laura Segato, Édipo Brasileiro (2006)
*Rhudá tem 29 anos, nasceu em Corumbá (MS), radicado em Parahyba aos quatro anos de idade é um escritor-poeta, performer, cantautor, instrumentista e artista visual.
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