Raúl Antonio Capote

Mestre em Relações Internacionais e História Contemporânea, escritor e jornalista do Granma Internacional. Também é professor de História de Cuba da Universidade de Ciências Pedagógicas de Havana, foi durante anos o agente Daniel dos serviços de inteligência cubana. O jornalista é autor de vários artigos e dos livros “El caballero ilustrado” (novela), “Juego de Iluminaciones” (contos), “El adversario” (novela) e “Enemigo” (testemunho), também publicado no Brasil com o título “Inimigo: A guerra da CIA contra a juventude cubana”.

As armas da guerra contra Cuba

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Manifestantes seguram uma enorme bandeira cubana durante um protesto “Anti‑Imperialista” em frente à Embaixada dos EUA, contra a incursão dos EUA na Venezuela, onde 32 soldados cubanos perderam a vida, em Havana, em 16 de janeiro de 2026.
Manifestantes seguram uma enorme bandeira cubana durante um protesto “Anti‑Imperialista” em frente à Embaixada dos EUA, contra a incursão dos EUA na Venezuela, onde 32 soldados cubanos perderam a vida, em Havana, em 16 de janeiro de 2026. | Crédito: (Foto de YAMIL LAGE / AFP)

Nos últimos anos, os cubanos têm sofrido aumentos desproporcionais nos preços

As guerras multifacetadas de caráter não convencional, frequentemente denominadas guerras híbridas, concentram suas ações principalmente em duas frentes estratégicas: a economia e a psique individual e coletiva.

No âmbito econômico, a estratégia busca mergulhar a população em um estado de desespero tal que anule sua capacidade de raciocínio lúcido.

Paralelamente, a frente psicológica utiliza ferramentas como a internet, cuja natureza viral, de acordo com análises atribuídas à CIA, tem o potencial de afetar e até mesmo transformar o caráter de uma pessoa.

As plataformas de redes sociais e os sites, nesse contexto, são projetados para serem viciantes e desencadear explosões emocionais.

Nos últimos anos, os cubanos têm sofrido aumentos desproporcionais nos preços, uma inflação galopante que afeta gravemente o poder aquisitivo da população. O cenário guarda um paralelo notável com o que ocorreu na Venezuela anos atrás.

Recessão e inflação ameaçam economia cubana | Crédito: Yamil Lage / AFP

O Dólar Today, um site operado a partir dos Estados Unidos por opositores financiados pela NED e pela Usaid, desempenhou um papel central na inflação induzida que afetou a Venezuela entre 2012 e 2016. Segundo a pesquisadora venezuelana Pasqualina Curcio, não se tratava de um simples portal da web, mas de uma sofisticada ferramenta de manipulação, projetada para inflar artificialmente o tipo de câmbio, disparar os preços e gerar um ciclo de pânico econômico.

Os dados do BCV/CELAG/FMI revelam que a inflação venezuelana subiu de 56% em 2013 para 180% em 2015 e 720% em 2016, entrando em hiperinflação em 2017.

Durante esse período, o Dólar Today fixou o chamado dólar paralelo em valores que passaram de nove bolívares por cada dólar americano (Bs/USD) em 2012 para mais de 1.000 Bs/USD em 2016, chegando a ser 158 vezes mais alto que a taxa de câmbio oficial (6,3 Bs/USD).

Essa cotação não refletia a oferta e a demanda reais do mercado, mas baseava-se em ligações seletivas para casas de câmbio em Cúcuta (Colômbia) e transações P2P fronteiriças, ignorando o volume total real das operações.

Um táxi triciclo decorado com a bandeira cubana passa próximo ao Capitólio em Havana em 30 de janeiro de 2026. O presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, em 30 de janeiro de 2026, denunciou a tentativa do presidente dos EUA, Donald Trump, de “asfixiar” a economia da ilha comunista sob um “falso pretexto”. | Crédito: (Foto de YAMIL LAGE / AFP)

Curcio estima que esses valores duplicavam ou triplicavam os preços reais, induzindo uma especulação descontrolada. Importadores e revendedores usavam essas taxas artificialmente elevadas para justificar o aumento dos preços dos bens básicos, gerando escassez.

Seus efeitos se estenderam não apenas ao mercado cambial, mas também aos níveis gerais de preços, à drástica perda do poder aquisitivo, à distorção dos mercados e, em última instância, à queda da produção nacional.

Uma análise simples permite perceber que o método utilizado pelo Dólar Today é muito semelhante ao utilizado pelo El Toque, embora este último tenha sido aperfeiçoado e incorpore aplicações com notícias e influenciadores, bem como meios automatizados.

O Toque, descrito por Curcio como uma “versão 2.0 do Dólar Today” adaptada às redes sociais, surge após a pandemia em Cuba, um país que suportou mais de 60 anos de guerra econômica, intensificada ao máximo nos últimos tempos.

Uma mulher segura um cartaz com a imagem do falecido líder cubano Fidel Castro durante a comemoração do Dia do Trabalhador, em 1º de maio de 2025, na Praça da Revolução, em Havana | Crédito: Yamil Lage/AFP

Suas ações causam graves danos a uma população que seus promotores afirmam defender, enquanto obtêm lucros espúrios nascidos da dor e do sofrimento de seus antigos compatriotas.

Atualmente, o debate sobre o tema da inflação induzida tem ocupado os espaços públicos e a mídia. Não há nada de inocente na atuação de meios como El Toque. A manipulação das taxas de câmbio é intencional e faz parte do esquema de guerra econômica contra Cuba.

A inflação induzida é um aumento generalizado e sustentado dos preços, provocado de forma deliberada. Ao contrário da inflação, que surge de forma “orgânica” por um desequilíbrio entre a oferta e a demanda no mercado, a induzida é o resultado de uma decisão consciente.

Quando um país ou bloco – por exemplo, os Estados Unidos e a União Europeia – impõe medidas econômicas coercitivas a outro, limitando seu acesso a mercados, moedas e tecnologias, essas ações causam escassez de produtos importados e bens de capital, o que faz com que os preços disparem.

Por outro lado, o papel desempenhado pela mídia e pelas redes sociais é frequentemente subestimado. Eles atuam como amplificadores e aceleradores poderosos, por meio de um mecanismo fundamental: a formação de expectativas inflacionárias.

Segundo especialistas no assunto, não se trata apenas de um fenômeno econômico, mas também psicológico. Se os consumidores, as micro, pequenas e médias empresas e outros atores esperam que a inflação suba, eles agem de acordo.

Quando uma pessoa em Cuba reclama a um comerciante, formal ou informal, do aumento excessivo do preço de um produto ou outro bem ou serviço da vida cotidiana, é comum ouvir “o problema é que o dólar subiu”.

Quando a mídia destaca constantemente notícias sobre aumentos de preços, com manchetes alarmistas (“A inflação está descontrolada”, “Preços nas alturas”), ela gera uma percepção de crise na mente do público. Ao dar destaque e repetir o assunto, ela instala a ideia de que esse é o principal problema.

As previsões feitas por analistas econômicos influenciam o estado de espírito das pessoas e geram altos níveis de ansiedade. Se a maioria dos especialistas prevê aumentos de preços para o futuro próximo, as empresas começarão a planejar com base nessas projeções, alimentando a espiral inflacionária.

Além disso, se a mídia transmitir uma mensagem de “descontrole” ou “falta de credibilidade” nas autoridades, as expectativas se tornam uma avalanche e o fenômeno se torna mais difícil de controlar.

Nesse contexto, as redes sociais viralizam o medo e a desinformação. Um vídeo curto, um reel ou uma postagem afirmando que “o dólar vai disparar” pode se tornar viral em questão de horas, provocando compras em pânico dessa moeda.

Um homem conserta um carro americano antigo na rua | Crédito: Yamil Lage/AFP

É importante lembrar que os algoritmos mostram aos usuários conteúdo semelhante ao que eles já consumiram. Assim, uma pessoa preocupada com a inflação verá cada vez mais notícias e comentários negativos, reforçando sua percepção de que a situação é catastrófica e ampliando sua ansiedade.

Se um influenciador com muitos seguidores recomendar “comprar dólares agora”, isso pode gerar uma corrida cambial que enfraqueça a moeda local. Experiências como essas não são nada incomuns.

Com essa amplificação, o risco de um aumento de preços se transformar em uma espiral inflacionária descontrolada é muito maior.

Isso não é novidade. Essa estratégia faz parte da guerra multifacetada que se desenvolve contra a Maior das Antilhas, com o objetivo de promover a sedição interna, gerar o caos e provocar condições de ingovernabilidade que permitam pôr fim à Revolução por meio da violência.

*Fontes: BBC, New York Times, Academic Journals.

* Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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