No alto do Cerrado goiano, onde nascem rios que abastecem algumas das principais bacias hidrográficas do país, uma disputa cada vez mais intensa redefine o futuro da Chapada dos Veadeiros. O debate vai além da dicotomia entre conservação ambiental e desenvolvimento econômico. O que está em jogo é a definição de qual modelo de território o Estado de Goiás pretende construir para as próximas décadas.
A revisão do Plano de Manejo da Área de Proteção Ambiental (APA) de Pouso Alto transformou-se no centro dessa discussão. Conduzido pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) e acompanhado pelo Conselho Consultivo da APA (Conapa), o processo trouxe para o debate pesquisadores, ambientalistas, representantes do setor mineral, gestores municipais, empresários do turismo, agricultores familiares e comunidades quilombolas.
Mais do que um debate técnico, a revisão expôs um conflito sobre água, uso do território, desenvolvimento regional e segurança climática em uma das áreas mais importantes do Cerrado brasileiro. A APA de Pouso Alto abrange os municípios de Alto Paraíso de Goiás, Cavalcante, Colinas do Sul, Nova Roma, São João d’Aliança e Teresina de Goiás. A região reúne veredas, campos úmidos, áreas de recarga hídrica e fragmentos de vegetação nativa responsáveis pela manutenção de importantes nascentes do Brasil.
É justamente nessa paisagem sensível que cresce a pressão da mineração.
Dados apresentados pelo Conapa mostram que existem atualmente 496 processos minerários registrados na Agência Nacional de Mineração (ANM) dentro da APA de Pouso Alto. Cerca de 76% deles ainda estão em fase de requerimento ou autorização de pesquisa mineral. Entre os pedidos predominam projetos ligados à exploração de ouro e terras raras, minerais necessários na indústria tecnológica e para a transição energética global.
O avanço do interesse minerário acompanha uma tendência internacional em que minerais são utilizados em baterias, equipamentos eletrônicos, carros elétricos e tecnologias de energia limpa. Goiás, historicamente associado à mineração, volta a ocupar posição estratégica nesse cenário. Mas a possibilidade de expansão da atividade sobre áreas ambientalmente frágeis acendeu um alerta na Chapada dos Veadeiros.
Repercussão
Em audiência pública realizada na Assembleia Legislativa de Goiás (Alego), no último dia 20 de maio, pesquisadores e representantes da sociedade civil argumentaram que a mineração apresenta riscos incompatíveis com a função ecológica da APA. A principal preocupação envolve os impactos sobre aquíferos, nascentes, cursos d’água e áreas úmidas do Cerrado.
Técnicos alertam que intervenções minerárias podem provocar contaminação da água, alteração de drenagens naturais, compactação do solo e perda de conectividade ecológica. Os estudos apresentados durante o debate também reforçaram a importância do Cerrado para a regulação climática e hídrica do país destacando que, em algumas situações, veredas e campos de murundus chegam a armazenar mais carbono por hectare do que áreas da própria Amazônia.
Diante da repercussão do tema, a Semad esclareceu publicamente que a revisão do Plano de Manejo não prevê autorização irrestrita para mineração dentro da APA. Segundo o governo estadual, houve entendimento preliminar no Conapa sobre a incompatibilidade da mineração metálica, incluindo ouro, manganês e terras raras, com os objetivos ambientais da unidade de conservação.
Ao mesmo tempo, a revisão do plano discute a possibilidade de manutenção controlada de atividades ligadas à extração de areia, cascalho e materiais utilizados na construção civil, especialmente para manutenção de estradas e demandas locais. O ponto, porém, também gerou controvérsia.

Impactos
Organizações ambientais e movimentos civis questionam o risco de flexibilizações graduais abrirem precedentes para futuras expansões minerárias em áreas sensíveis da APA.
O conflito também evidencia desigualdades regionais dentro da própria Chapada. Enquanto municípios como Alto Paraíso de Goiás e Cavalcante consolidaram o turismo ecológico como importante motor econômico, outras localidades convivem com baixos índices de desenvolvimento social e poucas alternativas de geração de renda.
Nas últimas décadas, a Chapada dos Veadeiros tornou-se um dos principais destinos de ecoturismo do país. Cachoeiras, trilhas e experiências ligadas à cultura tradicional movimentam a economia regional e fortalecem atividades ligadas ao turismo de natureza.
Para comunidades quilombolas e moradores tradicionais, no entanto, o debate vai além da economia. Lideranças locais alertam que mudanças no uso do território podem comprometer modos de vida ligados à água, ao Cerrado e aos conhecimentos tradicionais.
Futuro do Cerrado
A tensão em torno da Chapada dos Veadeiros reflete um debate cada vez mais amplo no Brasil, afinal qual será o papel do Cerrado em um cenário marcado pelas mudanças climáticas, pela insegurança hídrica e pela pressão crescente por commodities minerais.
Por décadas, o bioma foi tratado sobretudo como fronteira agrícola. Hoje, no Cerrado cresce o entendimento de que além da produção econômica, o bioma possui valor pela sua capacidade de garantir água, estabilidade climática e biodiversidade.
No fundo, a pergunta que emerge da Chapada dos Veadeiros é simples e profundamente complexa, pois quanto vale a água em um mundo cada vez mais seco?
Talvez seja justamente essa a principal disputa: decidir se o Cerrado continuará sendo tratado apenas como território de extração ou reconhecido como uma infraestrutura viva, essencial para a segurança hídrica, climática e social do país. Em um cenário de crise climática crescente, proteger o bioma deixa de ser apenas uma pauta ambiental e passa a ser uma escolha sobre o futuro que o Brasil pretende construir.
*Thaís Souza é jornalista com trajetória em comunicação institucional e assessoria de imprensa. Atua em órgãos públicos e organizações socioambientais, com expertise em articulação política, gestão de narrativas e fortalecimento de agendas ligadas à sustentabilidade e às políticas públicas.
**Maria Antônia Perdigão é jornalista, mestre em Comunicação Social e consultora em comunicação socioambiental. Atualmente, atua como gestora de comunicação da Rede de Sementes do Cerrado (RSC).
***Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha do editorial do jornal Brasil de Fato – DF.
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