Ana Júlia Souza Teodoro* e Cecília Maraújos**
O estudo da representação artística das maternidades na arte pode ser atrelado à história dos movimentos sociais organizados em torno da pauta da igualdade de gênero, pois foi também pelas transformações provocadas por meio das ondas do feminismo que o modo de imaginar e retratar as maternidades e suas vivências expandiu suas áreas de alcance.
Antes do século 20, o modelo de representar a maternidade se dava apenas por retratos de mães e filhos, muitas vezes endossando uma narrativa romantizada e idealizada que fugia das subjetividades, diferenças e desigualdades existentes nas formas de maternar. Na maioria das vezes pintadas ou esculpidas por olhares de artistas masculinos, a maternidade era retratada de forma universalizada,em grande escala, sempre reforçando estereótipos como o amor incondicional, o instinto materno, o dom para ser mãe.
Com um salto temporal e o fortalecimento das movimentações pelas lutas pela igualdade de gênero e, consequentemente, uma crescente na ocupação de espaços por mulheres – dentro do mundo das artes também.
Linda Nochlin, em 1971, publica um artigo nomeado “Por que não houve grandes artistas mulheres?” onde ela questiona de forma provocativa o sistema patriarcal que se instaurou na maioria das práticas humanas. O porquê de não termos grandes artistas mulheres foi justamente porque não era desejado que tivessem mulheres em posições de prestígio dentro do ramo artístico, mas, mais profundo que isso, Nochlin questiona o porquê de ser assim e de que formas podemos subverter essa situação já instaurada.
Na mesma época, a segunda onda do feminismo, que já tratava de questões mais amplas dos direitos das mulheres, perdurava. Ao pensar sobre o poder de escolha reprodutivo, sexualidade feminina, aspectos do trabalho, seja a igualdade salarial ou o aumento de oportunidades, esses levantamentos tocavam indiretamente (ou diretamente) a vivência materna.
Inflamada pela situação política do tempo, principalmente nos Estados Unidos, a maternidade estava sendo questionada. Andrea O’Reilly (2016) já no feminismo tardio, aponta para o fato de a maternidade ser o problema não resolvido do movimento, visto que, comparativamente, mães e não mães passam por diferentes processos de subjetivação, ou seja, mães possuem necessidades específicas que passam despercebidas pelo feminismo mais amplo.
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A pesquisadora pontua de forma muito interessante uma diferenciação do ser mãe, contrapondo a maternidade (motherhood) e o maternar/maternalismo (mothering). Assim, levanta a ideia de que maternidade é a forma patriarcal institucional, marcada pelas violências do sistema e o trabalho árduo do cuidado não remunerado. Já o maternar é a vivência feminista do ser mãe, é a valorização e a demarcação desse trabalho como um esforço que deve ser coletivo e compartilhado.
E é na experiência de mothering/maternar que reside o olhar poético das pesquisas decoloniais da arte contemporânea sobre maternidade, focalizando em produções artísticas que questionem esse espaço rígido do motherhood/maternidade e priorizem a desmitificação e não romantização dessa vivência a fim de evitar o isolamento materno e consequentemente a sobrecarga.
Várias artistas durante a época dos anos 1970, atravessadas pelas questões políticas da época e por sua realidade como mães, realizaram obras que são marcos na história da arte, não só pelo seu conteúdo, mas por seu modo de realizar a arte. Por conta da notória falta de tempo hábil que persegue mães, práticas artísticas se tornam intangíveis com uma facilidade imensa, já que se faz necessário uma imersão, um aprofundamento em técnicas, temáticas e na produção por si própria. Essa exigência, além da dificuldade de retorno monetário, faz com que afaste várias pessoas da arte, ainda mais mães, já que tem outras pessoas que dependem delas e infelizmente, até hoje em dia, ser artista que se auto sustenta é um grande luxo. Nesse período, Mother Art, por exemplo, foi um coletivo que surgiu após crianças serem impedidas de entrarem no prédio onde estavam os estúdios das artistas.
Na contemporaneidade, pode-se observar também a grande presença de coletivos artísticos com foco na temática da maternagem. Para além do Mother Art, Polvo de Gallina Negra foi um coletivo mexicano que questionava estereótipos em torno do gênero, da maternidade e da influência da mídia nesses processos.
Toda essa matemática fez com que essas artistas carecessem de novas ideias para produzirem. É nessa conjuntura que Mary Kelly com seu trabalho nomeado Post-Partum Document prosperou. A obra composta por 6 etapas, uma chamada de introdução e outras cinco chamadas de documentação, relata o cotidiano da relação entre Mãe e Filho durante seis anos, tendo em seus primeiros estágios relatórios fecais alterados por desenhos da criança até partes mais próximas do final onde são transcrições de conversas entre ambos, com alguns pensamentos da artista intercalando as falas.
A obra traz de forma muito perspicaz a rotina materna em suas minúcias, questionando sua subjetividade e a criação da mesma para seu filho, trazendo um aspecto da maternidade pouco explorado dentro do mundo da arte, as limitações e linha tênues que existem na relação entre mãe e criança, porém não só como entidade mãe, mas como ser humano. Em uma das peças, a artista comenta sobre como se sentia estranha, até mesmo mal, pois saiu de casa e ficou fora o dia todo e pensou pouquíssimas vezes em seu filho, evidenciando sutilmente como existe uma pressão social e uma censura do que uma mãe deve pensar ou não, impressa nas mulheres pela sociedade.
Partindo para uma linha muito mais próxima de uma denúncia e desafio às métricas da arte, Mierle Ukeles é outra artista que foi para uma direção um pouco diferente, mas ainda assim questionava os espaços e direitos de mães dentro do campo artístico. Ela criou, em 1969, o Manifesto da Manutenção.
Manifesto dentro do campo da arte é uma prática de escrita que defende um aspecto político-social e o relaciona com um ramo artístico, muito utilizado na Arte Moderna pelas vanguardas que eram majoritariamente compostas por homens. Apenas por utilizar essa prática, Ukeles já estaria confrontando muitos aspectos da arte, porém o forte da movimentação não é apenas sua metodologia, mas muito do que ela defendeu em seu texto.
Lá, Mierle fala sobre como ser mãe, artista, mulher e esposa são coisas indissociáveis e que constantemente se mesclam em seu modelo de viver, e que nenhum deveria impedir o outro. Então ela propõe algo inusitado até então, seu trabalho era o trabalho. No momento que ela está varrendo a casa, está fazendo arte, na hora que ela dá banho em seus filhos e os arruma para sair, é arte, quando ela está lavando a calçada de sua casa, é arte. Ao pegar esses momentos que são trabalhos não remunerados e cansativos e diz que aquilo é a arte que ela produz, a artista subverte muitas questões de materialidade da prática artística, do espaço-tempo que se é possível ter para se aprofundar na arte, em quem pode ser artista ou não.
Essas práticas foram ponto de partida para, não só visualizar a arte e enfrentar seus limites, como também abrir novas formulações que permitiriam o lançamento de mães artistas dentro de um sistema dominado majoritariamente por homens cis brancos. Com esse espaço sendo ampliado através dessas manifestações políticas feministas, o maternar representado dentro das artes mudou drasticamente, divulgando amplamente pontos da vivência dentro da maternidade. Representações que antes eram marginalizados com o interesse de manter a visão romantizada da maternidade em vigor, impulsionando as práticas e entrelaçamento de arte e vida que existem na contemporaneidade.
Maternagem na atualidade
Na arte contemporânea, as representações das maternidades assumiram aspectos de uma estética relacional, criação de redes de apoio, relatos de vivência e denúncias. Essa variedade de pontos que o maternar alcança dentro da arte se dá não só pela diversidade de mulheres que produzem sobre, seja econômica, social ou racial, mas também pelos suportes sobre os quais é possível se fazer arte.
Após movimentações do final da arte moderna e início da contemporânea que, como citado anteriormente com Mary Kelly e Mierle Ukeles, buscaram abranger o como fazer arte, a possibilidade de práticas artísticas para mães, com todos os desafios de tempo e espaço, se tornou mais palpável de forma ampla, atingindo países que não apenas Estados Unidos, mas também o Brasil. Aqui após os anos 2000 houve uma crescente na produção artística sobre a temática, lado a lado com as movimentações políticas de retirada da figura da mãe da margem e centralização de direitos das mulheres que maternam.
As questões permanecem de forma ampla, assim como Roberta Barros desenvolve em sua pesquisa de doutorado em que apresenta uma performance nomeada “Dar de Si”, em que ela se ordenha em frente a um público, colocando seu leite dentro de dois copos americanos. Dessa maneira, discute o aspecto da amamentação, a conexão com a criança durante esse processo, sua importância e também a repulsa que costuma ser direcionada à mulher durante esse momento.
É interessante ressaltar que a artista, em sua primeira experiência com a maternidade, teve pré-eclâmpsia e hemorragia interna, acumulando uma grande quantidade de sangue estancado em sua bacia e pernas. Porém, para não sacrificar a amamentação, escolheu deixar que o corpo eliminasse aquele sangue de forma natural, sem ajuda de medicações, sustentando dores pesadas apenas para não deixar de amamentar seu filho
Já a artista Malu Teodoro durante a pandemia, realizou uma série fotográfica com a sua filha, imagens essas que surgiram a partir de uma brincadeira com massinha e cabelo cortado. Ao pegar a meleca criada pelas duas e colocar em seu rosto criando uma máscara, Teodoro assume um papel de monstra naquela situação e ao notar essa questão a mesma atravessa o ser monstra com o ser mãe. A partir dessa fabulação, ambas mãe e filha posam e fazem várias fotos explorando esse novo ser. Após essa sessão, a artista começa a escrever sobre o que é ser essa Mãe-monstra que é cansada, que tenta, mas que se não dá certo não liga e “foda-se”, como diz em um dos parágrafos.
Ao trazer o diálogo com a maternidade na arte por meio da casualidade do dia e abraçando a precariedade como poética artística, Malu fala sobre questões profundas do ser mulher dentro do ser mãe, levantando pensamentos que muitas vezes são silenciados, porém ainda assim emergem sorrateiramente na mente, causando identificação entre público e artista. É nesse espaço artístico que arte e maternidade crescem com potência, pois é falado de situações que são muitas vezes marginalizadas, trazendo a humanidade para a figura materna que muitas vezes tem essa posição deslocada de si.
Para evidenciar também que é possível maternar e reproduzir a prática da pintura, uma das mais tradicionais do fazer arte e que demandam mais tempo, Cecília Maraújos, uma das autoras deste texto, traz em seu trabalho um questionamento e observação de estruturas sistemáticas histórico-sócio-culturais que influenciaram na elaboração da sua autoimagem, utilizando experiências autobiográficas do dia a dia para elaborar um entendimento identitário e comunitário a partir de conceitos como interseccionalidade, maternidade e poética para guiar suas especulações.
Cecília resgata símbolos, arquétipos e memórias que considera fundamentais para a constituição de sua corporeidade, construindo limites, formas e antiformas. Dessa forma a pintura é um mecanismo de relato da vida e espelho para outras mães, trazendo visceralidade e sinceridade do parto e da rotina com uma criança.
A representação das maternidades reais nas artes tem crescido e apresentado uma diversidade de narrativas no conteúdo, na forma e no modo de se apresentar, se mostrando cada dia mais relevante de ser observado, estudado e apreciado.
O apoio a essas narrativas artísticas não apenas alavanca a carreira de mães que produzem arte, mas também amplifica redes de apoio e de identificação. É a partir dessas histórias que estão sendo devidamente contadas em sua pluralidade e diversidade que a maternidade perde estigmas prejudiciais e redireciona a visibilidade para as violências e dificuldades enfrentadas, a fim de uma maior conscientização do que pode ser enfrentado ao ser mãe.
*Ana Júlia Souza Teodoro é graduanda em Artes pela UFF e pesquisadora.
**Cecília Maraújos é graduanda em Pintura na Escola de Belas Artes da UFRJ, mãe e pesquisadora do grupo de pesquisa A representação do corpo feminino como poética na pintura contemporânea.
** Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

