Rede Transnacional de pesquisas sobre Maternidades (REMA)

A Rede Transnacional de pesquisas sobre Maternidades destituídas, violadas e violentadas (REMA) é uma rede nacional e internacional de pesquisa, acolhimento e transmissão de saberes frente às violências e violações praticadas contra mulheres em suas diversas experiências de maternidades. As pesquisadoras da REMA estão vinculadas à diversas universidades do Brasil – UFF, UERJ, Unicamp, Unb, UFSC, UFRGS, UFPE e UFAL, e do exterior – Universidad de Buenos Aires (Argentina) e a Kennesaw State University (Estados Unidos). No espaço desta coluna, pretendemos discutir a problemática central do projeto que se refere aos direitos sexuais e reprodutivos, atentando para as desigualdades de classe, raça, cultura e religião, enfocando situações que refletem sobre violências praticadas contra mulheres em suas diversas experiências de maternidades.

Podcast ‘Maternidades Ameaçadas’ trata da luta de mulheres para exercer suas maternidades

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Na foto, três mulheres estão sentadas em volta de uma mesa branca redonda para a gravação do podcast
Primeira série do programa já está disponível e conta com 13 episódios | Crédito: Rema/Divulgação

“Transformando casos em causas” é a primeira série do programa e busca compartilhar a luta de mulheres que têm transformado casos em causas políticas


Irene do Planalto Chemin*

Como promover a escuta de histórias de luta e sofrimento de mulheres, especialmente de mulheres negras? No podcast “Maternidades Ameaçadas” compartilhamos essas histórias das próprias mulheres que tiveram suas maternidades destituídas, violadas e violentadas de diversas maneiras. Os relatos tratam sobre casos de retirada de crianças de mulheres quilombolas, indígenas, em situação de rua, em estado de vulnerabilidade psicossocial, ciganas e de comunidades de terreiro. Também das facetas do racismo obstétrico que recaem sobretudo sobre essas mulheres, assim como a morte e encarceramento de seus filhos, em sua ampla maioria jovens negros e marginalizados.

O podcast é produzido pela Rede Transnacional de pesquisas sobre Maternidades destituídas, violadas e violentadas (Rema), uma rede nacional e internacional de pesquisa, acolhimento e transmissão de saberes frente às violências e violações praticadas contra mulheres em suas diversas experiências.

“Transformando casos em causas” é a primeira série do programa e busca compartilhar a luta de mulheres que, através de suas falas e de suas experiências, têm transformado casos em causas políticas. O primeiro episódio “As muitas lutas da Ivanir”, evidencia como a violência do Estado contra jovens negros; as visitas de familiares no cárcere; e o racismo obstétrico, que podem parecer assuntos desconectados entre si, mas se articulam precisamente na trajetória de Ivanir Mendes de Sousa, uma mulher negra, nordestina, que, como ela diz, saiu do Rio Grande do Norte e veio “parar no Rio de Janeiro” quando tinha 18 anos. Foi no Rio onde Ivanir se formou em Gastronomia e onde iniciou suas lutas em várias frentes: contra a violência de Estado; pelo desencarceramento; pelos direitos das mulheres; pela moradia popular; pelo antiproibicionismo.

Eu luto contra o encarceramento, porque, o que eu já vi de pessoas morrer. O que eu já vi. Se eu contar pra vocês. Aí, a antropóloga fazia um estudo: “não, porque na comunidade tal aconteceu isso, tal tal tal”. Eu falei: “senhora, a senhora sabe dos dados, eu vivo. Já parou pra analisar quantas vezes eu já fui lá no alto do morro tirar as pessoas pra morrer?” Então, nós favelados, nós vivemos a história. Por que que eu luto pelas políticas de drogas? Por que? Porque nós que somos favelados, a polícia entra nas comunidades já detonando, já matando, já massacrando (Ivanir Mendes de Sousa, episódio #1 do podcast Maternidades Ameaçadas).

No primeiro episódio, reconstruímos, junto com Ivanir, a sua trajetória de ativismos a partir de um evento marcante: o assassinato do seu filho, Moisés Mendes de Santana, por policiais militares em 2016. Com suas falas animadas e precisas, Ivanir nos ensina sobre a vivência da dor e sobre as estratégias que construiu para tecer redes de cuidado e acolhimento, a partir da luta coletiva, da alimentação e da doulagem.

Junto a outras atividades de comunicação e impacto social promovidas pela REMA, como cursos online e oficinas, o objetivo do podcast é abordar casos singulares que têm sido acompanhados por pesquisadoras da rede do ponto de vista de quem os vivencia e evidenciá-los como um problema social e uma causa política.

No quarto episódio da série, “Direito ao luto”, Renata Aguiar, mulher negra, compartilha sua saga dolorosa após o desaparecimento de seu filho mais velho, morto por traficantes em Queimados, na Baixada Fluminense e, alguns anos depois, ampliada com a notícia de que seu filho caçula também havia sido morto, desta vez por policiais.

Aí você vive pensando, é… você engravida, você passa nove meses, com a criança mexendo dentro da sua barriga. Meu filho era forte, alto… bonito. E, de repente, você chegar num cemitério clandestino e você recolher os ossos deles. E aí, quando você precisa de um suporte do Estado, o que que o Estado faz por você? Te mata, te adoece. E acaba que você vive isso todo dia, toda hora. Um copo d’água que você bebe. Você lembra que se ele tivesse aqui, ele não bebia água. Eu duvido. Ele pegava um copo d’água para mim e ele levava “aqui, toma, bebe água”. Se ele bebesse um gole de café, ele vinha me dar um copo de café. Ele não fazia nada, ele não comia nada, se ele tivesse perto de mim, sem ele me dar (Renata Aguiar, episódio #4 do podcast Maternidades Ameaçadas).

Após ter sido perpassada por essas violências, que não se esgotam, ao contrário, se multiplicam com os assassinatos, Renata passou a integrar a Rede de mães e familiares vítimas de violência da Baixada Fluminense, onde encontrou apoio, acolhimento e histórias semelhantes compartilhadas por outras mulheres. A partir da história de Renata, o episódio “Direito ao luto”, narra as dificuldades de acesso à Justiça, os impactos das violências estatais em suas diversas faces, na saúde mental e física das mulheres e familiares, e o papel crucial da formação de redes de apoio e acolhimento.

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Histórias como as de Renata Aguiar, de Ivanir Mendes de Sousa, de Alessandra de Oliveira Alvez, de Priscila Serra, entre outras, são histórias de muita resistência e sofrimento. A produção dos episódios de podcast envolvem ética, calma e sensibilidade para trabalhar com os materiais disponíveis. Além de realizar entrevistas originais, também utilizamos entrevistas de fonte externa, compreendendo que nem sempre estas mulheres precisam recontar e rememorar suas histórias. As entrevistas realizadas pelas pesquisadoras envolvem muito cuidado e parceria com as convidadas, envolvem tempo e respeito para ouvir as histórias, lembranças, traumas, saudades, lutas. A voz carrega muito sentimento e o ritmo de cada entrevista precisa ser respeitado a cada episódio, desde os roteiros até a edição.

A trilha sonora também integra o episódio, destacando as histórias, sentimentos e reflexões geradas pelo conteúdo. Eu, que assino esse texto e sou também uma das produtoras do podcast, compus a trilha principal para integrar os episódios com instrumentos sintetizados como piano e kalimba, inspirada na música “Solidão Vira Revolta”, do Obirin Trio, porém com ritmo próprio e variações para utilizar em diferentes momentos dos episódios. A música traz um clima sério e tenso, com guitarra em looping, com um eco profundo, acompanhada de kalimba que faz a batida constante e leve. Além das músicas produzidas originalmente para a série, também solicitamos a utilização das músicas “Quilombo, Favela, Rua”, de Mano Teko part. Nelson Maca, “Mulher no Mundo”, de Maria Tavares e “A Justiça é uma mulher negra”, de Blera Alves, todas cedidas pelos artistas. Nos episódios também utilizamos trechos de reportagens de televisão ou rádio, de vídeos encontrados nas redes sociais ou documentários que exemplificam ou abordam a temática ou o caso específico contado no episódio, trazendo dinamicidade.

No quinto episódio da série “Abrir a mente e cobrar direitos”, trechos de vídeos publicados na rede social de Daiane Cristina Piccoli compõem o conteúdo com as entrevistas, apresentando a trajetória de uma mulher branca que transformou a própria experiência em potência coletiva dentro da comunidade da Serrinha, em Florianópolis. Entre memórias e reflexões, Daiane narra como construiu ações de cuidado e resistência por meio da Horta Comunitária, criada com o apoio de outras mulheres, e como esse espaço se tornou um ponto de encontro, aprendizado e conscientização política.

Sabe, é muita coisa que acontece e a polícia… Tipo assim, aqui no morro eles não me incomodaram mais. Porque eu não tô mais ativa ali, né? Na rua e coisa… eles não me incomodaram mais, mas eles me incomodavam muito quando eu tinha a horta. Eles me incomodavam muito, eles jogavam lixo na horta pra me incomodar, eles me chamavam de gorda e encrenqueira. Aí, eles iam embora quando eu chegava, que dizia que: “a gorda encrenqueira tava chegando”. Teve uma vez que um deles ameaçou pegar meu celular, aí eu tive que botar meu celular dentro das calças e falei: então vem pegar, tu não pode encostar em mim, hum, entendeu? (Daiane Cristina Piccoli, episódio #11 do podcast Maternidades Ameaçadas).

O podcast “Maternidades Ameaçadas” vêm conquistando públicos interessados em apoiar as lutas de mulheres e defender o direito de ter e ser mãe, na diversidade de formas de maternar. Nosso público é majoritariamente formado por mulheres, sendo que 13,5% da audiência é composta por homens e 1,1% por pessoas não binárias. Tratando-se de um podcast de divulgação científica, é possível observar a procura do podcast quando acontecem eventos promovidos pela REMA ou congressos científicos. As faixas etárias de maior consumo são pessoas de 35 a 44 anos (31%), 23 a 27 anos (25%) e 28 a 34 anos (23%). Enquanto a faixa de 45 a 59 anos, equivalente a 11% do total de ouvintes, é composta quase exclusivamente por mulheres, o grupo de 23 a 27 anos, segundo maior grupo de ouvintes, é um terço composto por homens, a única faixa etária expressiva deste público de ouvintes em nosso podcast. Talvez a pergunta do início deste texto seja também: como promover a escuta de homens para histórias de luta e sofrimento de mulheres, especialmente de mulheres negras?

Essa luta não deve ser apenas das mães que perdem seus filhos, pois a solidão e o “terror nosso de cada dia”, como diria Lélia Gonzalez (2020) já são, infelizmente, a realidade na maioria dos relatos, que envolvem peregrinações institucionais, processos de medicalização, resistências passivas e ativas. Comprometidas com o combate interseccional das violências, estas mulheres participam do processo de transformação social de suas comunidades a partir de mobilizações crescentes, representando hoje algumas das vozes mais atuantes na crítica ao Estado de direito contemporâneo. Através da colaboração de múltiplos conhecimentos e práticas de pesquisa, os episódios se tornaram registros importantes, propagados nas mídias digitais em um movimento de ocupação da arena pública que vai em confluência com os movimentos sociais que ocupam as ruas.

Os episódios e os materiais extras indicados no site podem ser utilizados como ferramentas didáticas em cursos de graduação e pós-graduação, em oficinas e cursos para agentes públicos como trabalhadores da assistência social e da saúde. A transcrição completa, artigos científicos, documentários e reportagens podem ser acessados no site oficial e nos principais tocadores de podcast. Para além das métricas, interessa o impacto social, a construção e disseminação de espaços de troca, que mais pessoas conheçam as pautas levantadas por mulheres, mães, atividades e pesquisadoras em torno dos direitos das maternidades.


*Pesquisadora da REMA, antropóloga e mestre em Divulgação Científica e Cultural.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Editado por: Mariana Pitasse

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