Roberto Jefferson Normando

Roberto Jefferson Normando tem formação em filosofia e integra a coordenação do Fórum Pró Campina.

Não é hora de comemoração: desafios do campo democrático na reconstrução do Brasil

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‘Somente em um Estado democrático de direito a vida do povo pode prosperar com liberdade, segurança e direitos’, reforça Robert Jefferson Normando | Crédito: Fernando Frazão/Agência Brasil

O crescimento político não se dará no embate direto com o bolsonarismo. Ele se dará na resposta às necessidades concretas da população

Por Roberto Jefferson Normando*

Nos últimos dez anos, a luta para defender e fortalecer o Estado democrático de direito ganhou renovada intensidade no Brasil e no mundo. Esse movimento, que no país se intensificou com a mobilização contra o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, espalhou-se globalmente diante da ascensão de uma extrema direita negacionista e do neofascismo.

A cultura do ódio como arma política

Uma das principais estratégias da extrema direita é o cultivo do ódio. Trata-se de um projeto político que nega a legitimidade do adversário e deseja o seu aniquilamento. A consolidação dessa postura autoritária se choca frontalmente com a cultura democrática, que só se sustenta com pluralidade, diversidade e convivência de diferenças. Sem esse alicerce, nenhum Estado de direito permanece de pé.

No Brasil, a expressão mais evidente desse fenômeno é o bolsonarismo. Sua essência é golpista, autoritária e antidemocrática – algo amplamente conhecido. A disseminação de notícias falsas e o uso sistemático do medo alimentam setores da sociedade que jamais abraçaram plenamente a ideia de um país democrático e socialmente justo.

O 8 de janeiro e suas raízes profundas

Os episódios que culminaram na tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 não surgiram de forma repentina, tampouco foram consequência imediata das eleições de 2022. Eles representam o resultado de uma década de extremismo promovida pelo bolsonarismo e por seu líder, Jair Bolsonaro, por meio de falas, gestos e ações que corroeram o debate público e a confiança nas instituições. Basta observar a sequência de declarações ao longo dos últimos anos.

Diante disso, a responsabilização dos envolvidos é um imperativo democrático. É preciso avançar no julgamento de todos os atores e apoiadores da tentativa de golpe, garantindo o devido processo legal, a ampla defesa e o contraditório, exatamente o que a extrema direita nega aos outros ao desprezar direitos e a pluralidade.

A prisão de um ex-presidente: justiça não é vingança

A prisão de um ex-presidente da República, ainda que justa, não deveria ser motivo de festa. Ela evidencia que a República ainda não conseguiu se enraizar plenamente na sociedade brasileira. No entanto, é compreensível a reação inicial de satisfação diante da responsabilização de um governante cujo mandato representou um desastre na condução da pandemia de Covid-19, contribuindo para a morte de mais de 700 mil pessoas e dificultando ações estatais fundamentais para salvar vidas.

Mas é preciso questionar: celebrar a prisão de alguém nos torna melhores do que aqueles que desumanizam e transformam o ódio em eixo central de sua política?

A luta política deve nos encaminhar para o aprofundamento de nossa humanidade e da convivência democrática. A prisão, mesmo necessária, é sempre um lamento, não um motivo de júbilo. Justiça não se confunde – nem pode se confundir – com o prazer da vingança.

Para onde deve avançar o campo democrático

Os desafios para o campo progressista e democrático, especialmente na construção da reeleição de Lula, são imensos. Mas é preciso clareza: o crescimento político não se dará no embate direto com o bolsonarismo. Ele se dará na resposta às necessidades concretas da população.

O governo Lula começou a virar o jogo com medidas como a revisão do IOF, a taxação das bets, a isenção do Imposto de Renda, a queda de preços e a reforma tributária. Essa é a agenda que precisa ser amplificada: a agenda econômica, o combate às desigualdades. É nela que o diálogo com o povo se sustenta.

Essa construção exige ação coordenada: nas redes, nas mídias, nas ruas, na pressão sobre o governo e na articulação para as eleições de 2026. Ampliar as bancadas no Legislativo federal e estaduais deve ser prioridade tão importante quanto a própria reeleição presidencial. E nada disso será alcançado com partidos e movimentos isolados ou candidaturas individualizadas. É preciso unidade dentro da diversidade, construindo consensos e caminhando coletivamente.

O centro da disputa: desigualdade, democracia e futuro

É hora de apostar no debate sobre as desigualdades, na perspectiva de uma política de segurança pública integrada e no combate ao crime organizado, além das soluções para enfrentá-las. Somente em um Estado democrático de direito a vida do povo pode prosperar com liberdade, segurança e direitos.

Para isso, é fundamental não perder de vista o ponto de partida e preservar a autocrítica como ferramenta de avaliação e de construção de novos rumos.

Caminhamos, e ainda há muito por caminhar.

*Roberto Jefferson Normando integra a coordenação do Fórum Pró Campina e é membro do Conselho do Br Cidades.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

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Editado por: Cida Alves

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