Algumas reflexões sobre o São João de Campina Grande, que poderiam se estender também a várias festas das grandes cidades do Nordeste. Muito tem se falado sobre o atual momento desses festejos: estariam eles comprometidos com a cultura junina ou apenas seguindo as demandas do mercado e de seus patrocinadores? Mas vamos focar na festa que carrega o título de Maior São João do Mundo.
O mês de junho, especialmente para o Nordeste, é a melhor época do ano. É o tempo dos encontros, da música, da colheita, da visita dos familiares, das lembranças e da memória dos santos juninos. São 30 noites que mais parecem dias, em que as casas se tornam extensões das ruas. Por mais que mudanças tenham acontecido ao longo dos últimos tempos, é inegável o clima e o ambiente que a região vive nesse período. O São João é o Natal do Nordeste, um Natal ampliado pelas praças, pelos parques de festa e pelos encontros e reencontros.
Campina e seus ciclos
Em sua história, Campina Grande viveu importantes ciclos econômicos que projetaram a cidade como um dos principais polos do Nordeste. Campina foi uma cidade vocacionada para o desenvolvimento regional. Passamos pelo auge do algodão, do comércio, da industrialização, da consolidação como cidade universitária e de inovação. Nas últimas décadas, porém, Campina foi se consolidando em torno de um ciclo da “economia dos grandes eventos”, tendo o São João como seu principal carro-chefe.
Os números mostram como a economia local é aquecida, como a arrecadação própria do município cresce, como a renda de muitas famílias melhora e como negócios e empreendimentos são fortalecidos. Por tudo isso, o São João tornou-se o principal ativo econômico e cultural do município.
No entanto, nas redes sociais, blogs e em parte da imprensa, têm surgido diversos questionamentos, entrevistas e publicações lamentando o atual formato da festa e o espaço ocupado pelo São João, desde a programação dos palcos até o próprio layout do evento. Os grandes polos de Campina Grande, Caruaru, Mossoró, Petrolina, entre outros, parecem reproduzir o mesmo formato, com pequenas alterações, os palcos são exemplo de um mesmo formato. Essas festas se assemelham cada vez mais a um festival de música realizado em diferentes cidades, mas seguindo um mesmo modelo.
Será que modernizar é negar aquilo que fez a festa se tornar grande? Será que modernizar não seria justamente encontrar um caminho de equilíbrio, em vez de seguir os extremos? Não seria a modernização o encontro entre os artistas da terra, o forró pé de serra, outros gêneros musicais e as novas linguagens da cultura popular nordestina?
É importante lembrar que o São João de Campina Grande não começou com o Parque do Povo, nem antes com o Palhoção. O município, desde sua zona rural até sua área urbana, já possuía uma rica tradição junina e uma vigorosa produção artística local. Essa tradição foi potencializada quando os primeiros anos do Parque do Povo o projetaram como grande palco do São João nordestino para todo o Brasil.
Mas o Parque do Povo, em seus 40 anos sob a simbologia da pirâmide, continua sendo um espaço da diversidade e da pluralidade do seu povo? Os altos preços praticados atraem ou afastam essa pluralidade? Queremos cada vez mais um parque de acesso gratuito, mas cuja experiência plena seja reservada apenas a quem possui maior poder aquisitivo?
As ilhas de forró pé de serra, que preservavam a memória dessa tradição da cidade, hoje estão praticamente escondidas e têm seus espaços reduzidos ano após ano, a ponto de desaparecerem. Soma-se a isso o agravamento dos baixos cachês pagos aos trios de forró e aos demais artistas da terra.
Tradição que renova ou rompimento?
Claro que o tempo mudou e continua mudando. Novos gostos musicais surgem e atraem multidões. Uma festa dessa magnitude deveria se fechar para essas grandes atrações? Penso que não. Sem dúvida, para muitas pessoas, é a única oportunidade de ver seu artista favorito de perto e acompanhar seu show.
A questão é outra: é necessária uma descaracterização tão profunda? Volto a insistir: o caminho não seria o da valorização simultânea do forró, dos artistas da terra, das quadrilhas juninas e também de artistas de outros gêneros musicais?
O que a prefeitura de Campina Grande quer oferecer, de fato, ao seu povo e aos turistas? Um festival repaginado como tantos outros espalhados pelo país ou uma festa da cultura nordestina que, mesmo precisando se renovar, preserve sua essência?
Seria possível uma renovação na tradição? Afinal, para onde vamos?
Hoje, será que ícones como Marinês, Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga, Genival Lacerda e tantos outros que ajudaram a levar o nome de Campina Grande para o mundo seriam prioridade no palco principal e em horários nobres? Alguns vídeos que circulam nas redes sociais questionam exatamente isso. Qual seria o lugar do Rei do Baião na nossa festa hoje?
Compartilho essas breves reflexões, semelhantes às que tantas outras pessoas vêm fazendo, para questionar os rumos do São João de Campina Grande. Como modernizar, atrair turistas, movimentar a economia e, ao mesmo tempo, valorizar a tradição que nos trouxe até aqui? Como manter o compromisso com a cultura nordestina, que sempre se renova, como demonstram artistas das mais diversas expressões culturais – da literatura à música – ao conectar a tradição com o presente?
Renovar, mudar o que for necessário e abrir espaço para o novo não significa romper com a tradição, com os valores e com esse clima único que o Brasil encontra plenamente no São João de alma e identidade nordestinas.
O São João e a cidade
Outro desafio dessa grande festa é a forma como ela se conecta e potencializa o calendário de eventos da cidade. Logo após o São João, temos um belíssimo Festival Internacional de Música; em seguida, o Festival de Inverno, que poderia dialogar mais intensamente com o potencial turístico da Rota Cultural Caminhos do Frio. Sem falar no período carnavalesco, com seus eventos religiosos e a retomada do carnaval de rua.
A impressão é de que esses eventos não dialogam entre si. Enquanto vemos um grande investimento destinado ao São João, outros festivais enfrentam dificuldades para obter recursos suficientes. Nesse aspecto, a prefeitura deveria atuar como grande articuladora, mesmo quando parte desses eventos é promovida por organizações independentes. Afinal, é o município e sua economia local que se beneficiam do conjunto dessas iniciativas.
Outro ponto seria consolidar uma política estadual para os festejos juninos. Se antes Campina Grande se destacava praticamente sozinha, hoje existem grandes festas espalhadas por todo o território paraibano. Como construir uma política articulada para o São João da Paraíba? Mas esse já é tema para outro texto.
Ao observar o espaço do Parque do Povo e a importância da requalificação do Parque do Açude Novo, viabilizada por financiamentos facilitados pelo governo Lula, surge outra pergunta: por que não integrar equipamentos culturais como o Cine São José e o Teatro Municipal à programação do São João, com sessões de cinema, oficinas, exposições e apresentações artísticas?
Uma questão igualmente importante, e que merece total transparência, diz respeito ao modelo de gestão da festa. Como a empresa responsável pela cessão organiza e define prioridades? O que entra e o que sai da programação? Como se dá sua relação com a prefeitura e com os patrocinadores? Qual é, afinal, o papel do poder público na condução do evento?
Esse modelo, iniciado ainda na gestão de Romero Rodrigues e renovado por Bruno Cunha Lima, praticamente não contou com a participação efetiva do movimento cultural nem da pluralidade da sociedade campinense na definição de seus rumos, contrapartidas e mecanismos de renovação.
Por isso, uma gestão mais democrática se faz urgente para discutir os rumos das próximas edições, bem como o novo edital que definirá a próxima cessão da gestão da festa.
Uma Campina Grande rica e diversa culturalmente, do cinema aos festivais, da literatura à música, das artes em geral, reconhecida como Cidade Criativa pela Unesco, deveria colocar a cultura como elemento central de seu dinamismo econômico e de sua capacidade de gerar oportunidades para todos.
Que o Parque do Povo seja, de fato, do povo. E que esse povo possa expressar sua pluralidade, seus talentos, suas alegrias e toda a força da vida que se renova no arrasta-pé desse grande arraiá que acolhe todo mundo.
Para quem ama São João! Um Viva!
Que os santos juninos nos ajudem!
*Roberto Jefferson Normando integra a coordenação do Fórum Pró-Campina e a coordenação da Frente pelo Direito à Cidade
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

