Rosa Amorim

Rosa Amorim é deputada estadual pelo PT em Pernambuco. Crescida nas fileiras do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra (MST), foi diretora da União Nacional dos Estudantes (UNE) e militante do Levante Popular da Juventude.

A vida das mulheres e as ferramentas de luta por um mundo mais igualitário

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Dados de 2024, da 19ª Edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, mostram que foram registrados 1.492 feminicídios no país
Dados de 2024, da 19ª Edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, mostram que foram registrados 1.492 feminicídios no país | Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil

A mudança dessa realidade não virá apenas por decretos. A transformação real exige a mobilização de toda a sociedade.

Não há quem acompanhe os noticiários atualmente e não sinta aflição com o cenário de violência contras as mulheres. Vivemos uma ofensiva contra as nossas vidas, sintoma de um sistema que não consegue conceber nossos corpos para além de objetos.

Em São Paulo, o caso de Tainara Souza Santos, arrastada pelo ex-companheiro na Marginal Tietê, chocou o país pela brutalidade e mobilizou atos em diversas capitais. Mas aquele, infelizmente, não foi um episódio isolado. Na semana passada, em Pernambuco, uma mulher foi morta pelo companheiro com um cabo de celular. O criminoso tentou dizer a polícia que se tratava de um suicídio.

Duas mortes que simbolizam uma realidade inaceitável. Os dados recentes sobre o aumento dos casos de feminicídio no Brasil e especificamente em nosso estado não são apenas estatísticas frias. São cicatrizes abertas no corpo da democracia. Cada mulher vítima de violência é o resultado de uma falha sistêmica, intensificada por um projeto político de extrema-direita, que elegeu a misoginia como ferramenta de controle social.

O feminicídio não é um evento isolado. O feminicídio é a expressão última de um poder que deseja disciplinar o corpo feminino. Na periferia, essa violência se agrava pelo racismo ambiental e institucional que desumaniza a mulher negra.

O aumento desses índices no último período revela que a estrutura de proteção ainda é insuficiente para conter uma mentalidade que se sente autorizada a matar. A desigualdade econômica é o combustível. Quando uma mulher não possui autonomia financeira, quando lhe falta o acesso à terra ou ao trabalho digno, ela se torna mais vulnerável aos ciclos de violência doméstica. Portanto, combater o feminicídio é, indissociavelmente, combater a concentração de renda e o machismo estrutural.

A mudança dessa realidade não virá apenas por decretos, embora o poder institucional seja uma trincheira necessária. A transformação real exige a mobilização de toda a sociedade. Um mundo que tolera a morte de suas mulheres é uma sociedade que faliu em sua capacidade de solidariedade. Precisamos de uma vigilância coletiva.

Precisamos que o “em briga de marido e mulher” se transforme em “nós metemos a colher”, porque o espaço privado não pode ser um território de exceção aos direitos humanos. A organização popular é o que garante que a política pública chegue à ponta, que a rede de proteção funcione e que o agressor saiba que aquela mulher não está sozinha.

Desde que assumimos a responsabilidade de ocupar uma cadeira na Assembleia Legislativa de Pernambuco, nosso mandato tem pautado a vida das mulheres. Entendemos que a lei deve ser um instrumento de reparação e de garantia de futuro.

Entre os projetos que protocolamos, buscamos enfrentar a raiz do problema e tem algumas iniciativas que têm destaque.

O Estatuto da Igualdade Racial de Pernambuco (Lei 18.202/2023) é uma lei central para as mulheres negras, que são as principais vítimas de feminicídio e da violência obstétrica. Sem justiça racial, não há segurança para as mulheres.

Projetos de incentivo à autonomia econômica: temos defendido leis que garantam, nos contratos de prestação de serviço com o estado, cotas para mulheres vítimas de violência, assegurando que o emprego seja a porta de saída do ciclo de abuso.

Fortalecimento da Patrulha Maria da Penha e dos centros de referência: temos atuado na fiscalização e na destinação de emendas que fortalecem os equipamentos públicos no interior, garantindo que a mulher do campo tenha o mesmo suporte que a da capital.

Educação para a Igualdade: o combate ao machismo deve começar na base. Por isso, propomos diretrizes que levem o debate sobre gênero e respeito para dentro das escolas estaduais, enfrentando o obscurantismo que tenta proibir o pensamento crítico.

A política institucional é importante, mas o nosso combustível vem da coletividade e das ruas. Desde o dia 8 de março, diversas cidades de Pernambuco foram tomadas pelo nosso grito de resistência. É um dia de celebração da nossa luta, mas também de memória de todas as vidas que nos foram tiradas.

Convido toda a militância a se somar nas agendas de março. Vamos marchar pela vida das mulheres, pelo fim do feminicídio, contra a fome e pela construção de um projeto onde o direito de viver seja pleno para todas.

Editado por: Vinicius Sobreira

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