“Família” virou a palavra mais útil do repertório político atual por um motivo simples: quem ousa discordar de família? A eficácia dessa palavra está justamente aí. Ela se apresenta como consenso, mas funciona como senha.
E, quando uma senha é acionada, o debate deixa de ser racional e vira campo de batalha. O cidadão comum, que só quer cuidar dos seus, pagar as contas e sobreviver, é empurrado para um emaranhado de histórias, vídeos, fotos e postagens que o deixam perdido. Perdido, ele abandona as perguntas que realmente importam, aquelas que poderiam mudar alguma coisa de verdade: que tipo de família se reconhece como legítima, e o que esse político faz, na prática, para que famílias reais sobrevivam?
O desfile da Acadêmicos de Niterói, com a ala que apresentou famílias em latas de conserva, provocou uma reação imediata, barulhenta e previsível. Em poucas horas, lideranças políticas e religiosas e influenciadores digitais voltaram a gritar que “querem destruir a família” e que existe uma perseguição à fé cristã. E, de novo, o debate fugiu do essencial.
Num país em que mães passam anos tentando vaga em creche, em que famílias gastam horas em transporte público, em que o cuidado infantil e o cuidado dos mais velhos recai quase todo sobre mulheres, em que a violência doméstica é rotina invisível e o feminicídio ronda em todas as classes sociais, não é sério afirmar que o que destrói a família seja a arte ou a cultura. O que destrói família é o abandono, é o descaso, é a falta de política pública.
Se estivéssemos numa discussão honesta, falaríamos do óbvio: o Brasil real é composto por famílias diversas.
O país está cheio de mães solo criando filhos sem pensão, sem rede de apoio, sem descanso, sustentando casa e educando criança com uma mistura de exaustão e coragem que, de tão comum, virou “normal”.
Há avós criando netos porque os pais foram mortos, estão presos ou simplesmente desapareceram. Há famílias com dois pais ou com duas mães. Há famílias reconstituídas. Há arranjos de cuidado entre mulheres. Há pais presentes e pais ausentes. Há famílias com crianças atípicas que precisam de atendimento e inclusão e não recebem. E há também famílias no modelo tradicional, claro. O problema não é existir um modelo; o problema é transformar esse modelo em régua moral, em padrão de dignidade, em instrumento para deslegitimar os demais.
Família do Salmo 128
Eu cresci dentro de igreja e conheço por dentro o peso simbólico da palavra “família” quando ela é usada como discurso de autoridade. Por isso, quando vejo um modelo que se intitula conservador tentando apagar todos os outros, e vejo essa tentativa sendo reproduzida como trend, seja de humor ou de orgulho, eu não enxergo apenas uma disputa político-ideológica. Eu enxergo um projeto de controle. E o que mais me incomoda é que esse projeto não combina com o texto bíblico que ele diz defender.
Eu cresci lendo o Salmo 128 e imaginando uma família que não é a do comercial de margarina, mas a que é descrita numa das cenas mais simples e bonitas do cotidiano: a mesa. O homem come do fruto do seu trabalho. A esposa é comparada a uma videira frutífera; a videira é uma planta livre, que se espalha, que cresce, que encontra caminho. Os filhos são comparados a oliveiras, planta de raízes profundas, que vive muitos anos, que resiste à seca, que atravessa o tempo.
Não há espaço para conserva nessa descrição. Há espaço para vida que não se conserva em lata. Vida se cultiva. Cada oliveira é de um jeito, única, abençoada como é. Cada videira segue seu caminho. A imagem central do Salmo 128 é a mesa, não um palco sombrio. Mesa pressupõe convivência real: atrito, acordo, cuidado, responsabilidade. Mesa não combina com espetáculo. Mesa não combina com mentira. Mesa não combina com terror doméstico. A família do Salmo 128 não cabe numa conserva.
Quando a gente leva essa imagem a sério, precisa aceitar uma consequência teológica e política: não existe “defesa da família” sem política de cuidado. Defender família sem vaga na creche é propaganda. Defender família sem escola de tempo integral é propaganda. Defender família com SUS precarizado é propaganda. Defender família ignorando a saúde mental materna é propaganda.
Defender família com tolerância à violência doméstica é cumplicidade.
É por isso que debater família a partir de uma política de cuidado é desconfortável. Porque saímos do moralismo e entramos no terreno material, onde quem faz e quem não faz aparece. Por isso é mais fácil gritar contra uma escola de samba do que explicar por que votou contra a redução da jornada 6×1, que daria tempo real para as famílias se reunirem, descansarem, conviverem.
É mais fácil acusar professores do que admitir que a falta de creches e de educação em tempo integral amplia vulnerabilidades e desmonta redes comunitárias. É mais fácil esbravejar que “família é sagrada” do que defender, com voto e política pública, a sobrevivência cotidiana das famílias.
Menos pânico moral e mais política de cuidado
O uso político da palavra “família” também cria um tipo de família de fachada, que serve para acusar e punir, não para proteger. Quando a família vira apenas peça de campanha, a prioridade deixa de ser segurança e passa a ser aparência. E isso é perigoso, porque o lar idealizado nem sempre é um lugar seguro. Quem trabalha com mães, com escola, com saúde e com assistência sabe que existe violência dentro de casa, existe abuso, existe controle, existe medo. A sociedade que trata família como intocável dá cobertura para o agressor e cobra silêncio da vítima. Isso não é defesa de família; isso é defesa do poder dentro de casa.
Diante de tudo isso, eu, que sou mulher negra, mãe, cristã protestante pentecostal, preciso dizer que a minha fé adulta é capaz de suportar a crítica da arte sem medo das metáforas de um enredo de Carnaval. Na verdade, a minha fé e a minha família nem estavam na avenida, não foram questionadas, pois eu não faço parte da religiosidade que foi questionada. A fé que eu pratico é cheia de vida e, por isso, a minha família não irá estampar nenhuma latinha de marketing político. O Deus que me guarda é presença que sustenta a vida, e não compactua com desigualdade, machismo e abandono social.
Por fim, é preciso parar de amedrontar as pessoas com a falácia de que “querem destruir a família”. O que destrói famílias é a política que abandona mães, que precariza trabalho, que não garante creche, que não garante escola, que não garante saúde, que não garante proteção. Precisamos de menos pânico moral e mais política de cuidado; menos guerra cultural e mais política de primeira infância.
O valor de uma família se mede pela vida que produz, pela segurança que oferece e pela dignidade que sustenta – não pelo barulho que faz quando se sente questionada.
Diante de tudo isso, eu, mulher negra, mãe e cristã protestante pentecostal, afirmo com tranquilidade que a minha fé adulta não se assusta com metáforas de Carnaval. A fé que eu pratico não é frágil nem precisa de blindagem cultural. Ela é vida pulsando, é mesa compartilhada, é responsabilidade concreta com quem está ao nosso lado. Minha família não cabe em latinha de marketing político nem em slogan de guerra cultural. O Deus que me guarda não compactua com desigualdade, machismo ou abandono social; Ele se revela no cuidado, na justiça e na dignidade que sustenta o cotidiano.
Por isso, é urgente parar de amedrontar as pessoas com a falácia de que “querem destruir a família”. O que destrói famílias é a política que abandona mães, precariza trabalho, nega creche, falha na escola, sucateia o SUS e silencia a violência doméstica. Precisamos de menos pânico moral e mais política de cuidado; menos espetáculo e mais compromisso com a primeira infância. Família não é peça de campanha, é vida real em volta da mesa. O valor de uma família não se mede pelo barulho que faz quando se sente ameaçada, mas pela segurança, pela dignidade e pelo cuidado que sustenta a vida que produz.
*Rosilene Costa é professora, doutora em Literatura, ativista do Movimento Autônomo de Mães (MAMA-DF).
**Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato DF.
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