Saneamento é básico

Saneamento, política, economia e sindicalismo pela perspectiva do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Purificação e Distribuição de Água e em Serviços de Esgotos do Estado de Minas Gerais (Sindágua-MG) e de colaboradores.

Populismo sanitário: quando um senador confunde esgoto tratado com água potável

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Senador Cleitinho confundiu esgoto tratado com água potável | Crédito: reprodução redes sociais

Saneamento público não se resolve no grito, nem com ignorância

A audiência pública realizada na Câmara Municipal de Ipatinga sobre os serviços da Copasa produziu uma das cenas mais simbólicas da degradação do debate público brasileiro.

O senador Cleitinho, diante de representantes da Copasa, ergueu uma garrafa contendo esgoto tratado e passou a gritar: “se é tratado, então toma a água”. A cena teatral poderia ser um gesto de compromisso com o povo. Na verdade, foi apenas uma demonstração alarmante de desconhecimento técnico travestido de indignação popular.  

Existe uma diferença elementar — conhecida por qualquer estudante introdutório de saneamento — entre “esgoto tratado” e “água potável”. O tratamento de esgoto não transforma automaticamente efluente em água para consumo humano. O objetivo do tratamento é remover carga orgânica, reduzir a contaminação e permitir o descarte ambiental dentro dos parâmetros legais definidos pelas normas sanitárias e ambientais.

Ou seja: esgoto tratado continua sendo efluente tratado. Não é água mineral. Não é água de torneira. Não é refrigerante e nem cerveja.

A provocação do senador parte de uma falsa equivalência, construída para gerar impacto emocional e vídeo para redes sociais. Seria como exigir que alguém bebesse água de piscina porque ela recebeu cloro, ou óleo lubrificante reciclado porque passou por filtragem industrial.

O mais preocupante não é apenas a desinformação técnica. É a substituição do debate sério sobre saneamento básico por performances de internet.

Minas Gerais possui enormes desafios no abastecimento, coleta e tratamento de esgoto. Há problemas reais na prestação de serviços da Copasa, há reclamações legítimas da população e há discussões importantes sobre tarifas, investimentos e universalização do saneamento. Tudo isso merece fiscalização rigorosa. Mas fiscalização não é teatro.

Quando um senador reduz um tema complexo a gritos de “então toma!” o resultado não é esclarecimento público. É apenas simplificação grosseira para alimentar revolta instantânea, e conseguir alguns votos a mais na eleição de outubro. Lastimável.

A ironia política torna a cena ainda mais reveladora. O próprio senador é aliado do grupo político que controla o governo estadual — governo este responsável direto pela condução da política da Copasa. Zema foi o pior governador que Minas já teve. Ainda assim, age como se estivesse descobrindo subitamente a existência dos problemas estruturais do saneamento mineiro.

Mais contraditório ainda foi ouvi-lo afirmar que “quando for governador isso vai acabar”. Vai acabar como? Com decreto contra as leis da química? Com discurso substituindo engenharia sanitária? Com vídeos de rede social resolvendo décadas de déficit na infraestrutura hídrica?

Saneamento exige investimento, planejamento, regulação, engenharia, fiscalização ambiental e gestão pública competente. Não existe solução mágica baseada em bravatas.

O Brasil já sofre demais com políticos que transformam temas técnicos em espetáculos emocionais para consumo digital. Quando isso acontece na área de saúde pública e saneamento, o dano é ainda maior, porque a população passa a acreditar em versões simplificadas e falsas sobre processos essenciais para a vida urbana.

Um senador da República não é obrigado a ser engenheiro sanitarista. Mas deveria, no mínimo, ter a responsabilidade de compreender a diferença entre esgoto tratado e água potável antes de transformar ignorância técnica em performance política. Minas já teve os melhores senadores do Brasil. Hoje estamos neste nível. Ainda bem que em outubro vamos alterar esta qualidade.

E saneamento público não se resolve no grito. E muito menos com uma garrafa levantada diante das câmeras.

Wagner Xavier é pedagogo e assessor do Sindágua/ MG.

Leia outros artigos sobre saneamento na coluna Saneamento é Básico no Brasil de Fato

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.

Editado por: Elis Almeida

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