Luís Augusto Fischer escreve, em 2025, no prefácio do livro de poesias Em mãos IV, que está por ser lançado e têm como poetas autores César Pereira, Dilan Camargo, Jorge Rein, José Eduardo Degrazia, Selvino Heck, Tarso Genro: “Novamente em mãos. O tempo passa, e isso todo mundo sabe. Mas aqueles jovens que em 1976 lançaram o primeiro volume com esse mesmo nome, Em mãos, sabiam?
Sabiam ao menos de uma face do tempo: a urgência. Era um momento crítico da ditadura militar iniciada em 1964. Crítico porque ali, em 1976, ninguém sabia com clareza o que viria a seguir – era fato que o pior havia já passado? Os sindicatos estavam ainda acuados, os estudantes não haviam retomado vigor como força junto à opinião púbica, os partidos do centro para a esquerda ainda estavam todos proibidos.
Em mãos. Nenhum dos poetas naquele momento imaginava a força surpreendente que o nome de sua coletânea ganharia em nossos dias. Pelo simples fato de que quase nada mais agora se produz em mãos, assim como pelo duro fato de que vivemos talvez a maior parte de nossas vidas em ambiente virtual, sem mãos vivas por perto.
Aqueles poetas, que em 1976 eu lia como adolescente ingressando na Universidade, cá estão, 50 anos depois. Cinquenta anos – escrevo o número e fico em dúvida. Mas a matemática da passagem do tempo é essa mesmo” (Luís Augusto Fischer, no prefácio do Em mãos IV, 2025).
Tarso Genro escreveu na apresentação do primeiro livro de poesias, Em mãos, Lume Editora, em 1976: “Uma mostra da poesia nova do Rio Grande do Sul há muito é uma necessidade. Nestes tempos de desespero, que envolvem curtos salários e insegurança, a lira do poeta não é uma mercadoria de primeira necessidade, peço menos na indicação da experiência diária de cada pessoa do novo povo. Na verdade esse livro não traduz tudo o que de novo vem sendo feito em matéria de poesia no Rio Grande do Sul, mas não resta dúvida que é uma correta colaboração a esta necessidade, não só porque a poesia é necessária para acordar os homens dormidos, mas o é também para motivar os angustiados.
Fui honrado com o convite para apresentá-los e me sinto duplamente incapaz: de um lado porque também nestas artes me arrisco, de outro porque sou partidário em arte, como são por sua vez, os fascistas e os reacionários: estes defendendo a arte alienada e propagandística dos fetiches das classes dominantes. Sou partidário porque entendo a arte também como um instrumento de aproximação entre homens que querem mudar a realidade em que vivem, instrumento de sugestão, síntese e mensagem, embora, é óbvio, saiba que a arte não é só isso e nem esgote aí as suas possibilidades.”
Nas palavras de Tarso Genro, na apresentação, em 1976: “Selvino Heck, cuja poesia escorre num belo tom nerudiano: ´Trabalhador da palavra sou. / Canto o povo,/ sangue nos dedos,/ boca suja,/ miséria no meio´.”
Uma informação é muito importante. Em 1976/1977, os poetas do Em mãos eram todos subversivos, segundo os órgãos de repressão da ditadura militar. Senão vejamos: “Sigla de origem: DCI SSP RS: Data 15.04.77. Sigilo C, Número da ACE: G0072746. Assunto: Livro de poesias denominado Em mãos. Texto: Estão sendo vendidos exemplares do livro de poesias denominado Em mãos,, de vários autores, o qual traz conteúdo ideológico com tendência esquerdista. Antecedentes subversivos de elementos envolvidos na elaboração do citado livro, bem como pessoas ligadas a eles. Constam dados de qualificação” (Selvino Heck, ‘Fomos todos espionados’, Em mãos IV, p. 91).
Mais. “CONFIDENCIAL. Estado do Rio Grande do Sul – Secretaria da Segurança Pública – Administração Superior – Departamento Central de Informações – Porto Alegre, 15 de abril de 1977. Exemplares do livro de poesias denominado Em mãos, de autoria dos escritores Humberto Gaspary Sudbrack, Umberto Gabbi Zanatta, Dilan D´Ornellas Camargo, José Eduardo Degrazia, Selvino Heck, Cesar Pereira, juntamente com outros elementos que se uniram a este grupo, entre o quais Sérgio Conceição Faraco, Horácio Goulart, Paulo Kruel de Almeida, Suzana Kilpp, Aldir Garcia Schlee e Airton Aloísio Michels, estão sendo vendidos na Livraria Miscelânia, sita nos altos do Mercado Público. A apresentação é de Tarso Fernando Herz Genro, elemento pertencente à organização subversiva Ala Vermelha do PCdoB. O seu lançamento oficial seria na sessão de autógrafos, na Praça da Alfândega. O livro em questão traz conteúdo ideológico, com tendência esquerdista, daí se pode presumir tendo a apresentação de Tarso Fernando Herz Genro.”
O primeiro Em mãos teve enorme repercussão na década de 1970, como mostram diferentes e extensas matérias jornalísticas de então, em geral acompanhadas de fotos dos autores. Alguns títulos e manchetes de jornais de então, setembro/outubro de 1976, são marcantes. Na Folha da Manhã: “Cooperativa de Escritores faz o primeiro lançamento”. “Em Mãos, a poesia caprichada.” “Jovens escritores gaúchos abrem caminho para seus trabalhos.” Na Zero Hora: “Na Coletânea, o lançamento de Em mãos.” No Correio do Povo: “Em Mãos, antologia de gente que quer levar a poesia a todos.” Na Folha da Tarde: “Este seis estão fora da torre de marfim.” No jornal Folha do Mate, de Venâncio Aires, matéria com Selvino Heck: “Em mãos – ´Abraço a vida, suas feras e medidas´.”

Meu autógrafo e dedicatória em 15.02.77 a Luís Augusto Fischer vale como se fosse hoje, agosto de 2025: “A ti, Fischer, ainda que num dia trágico, mas que não nos abate, em teus e nossos ideais de liberdade, e por tua amizade, por seres companheiro na luta, ofereço Em mãos a vida de um povo que quer aprender a falar e com o qual estamos comprometidos, na esperança de uma manhã já transparente, de um mundo novo, de um continente verdadeiramente justo e fraterno. Um abraço amigo do Selvino, 15.02.77”.
Em mãos IV tem como autores: César Pereira, Dilan Camargo, Jorge Rein, José Eduardo Degrazia (Organizador), Selvino Heck, Tarso Genro, com prefácio de Luís Augusto Fischer. Terá seu lançamento, com autógrafos dos autores, em 02 de setembro, terça-feira, 18h, no Clube de Cultura, Rua Ramiro Barcelos, 1853, Porto Alegre, com homenagens a Jorge Rein (1948-2025) e Humberto Gabbi Zanatta (1948-2018). Estão todas e todos convidados a conhecer o Em mãos IV.
*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.