“O padre Arnildo Fritzen, figura central na organização da ocupação, ressalta que a mística política, inspirada pela mística bíblica (a caminhada do povo escravo em busca da Terra Prometida), foi fundamental para animar os sem-terra. Diz o padre Arnildo: ‘Os símbolos religiosos sempre foram muito importantes nesta caminhada. A cruz com os panos brancos das crianças que morreram no acampamento de Encruzilhada Natalino, as bandeira as músicas com letras feitas pelos trabalhadores, o sofrimento, a esperança da chegada em nosso chão, na pátria livre, fraterna e justiça. Animar a mística foi a principal missão que assumi nesta luta’.”
“Quatro décadas depois de cortarem os cinco fios de arame da fazenda Annoni, um grande latifúndio do norte gaúcho, os antigos sem-terra transformaram a região. Assentados, criaram cooperativas através das quais produzem e vendem soja, trigo, frutas, hortaliças, leite, ovos e carne de porco. E abastecem 52 municípios com merenda escolar. Criaram escolas e, inclusive, um curso superior de Agronomia com ênfase na Agroecologia. Como se fosse pouco, como resultado da atividade econômica intensa, criaram até uma cidade, Pontão”.
“Olhando para o Futuro. Nascido nas lutas de resistência como a de Encruzilhada Natalino, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) passou por um grande aprendizado de 40 anos, ajustando seu programa para o que denomina Reforma Agrária Popular. A nova proposta foca na produção de alimentos saudáveis, na agroecologia, na defesa da natureza e no desenvolvimento da educação e da agroindústria cooperativada.”
Os textos acima foram retirados do jornal Brasil de Fato RS, Edição especial, distribuído em mãos aos presentes na celebração dos 40 anos de ocupação da fazenda Annoni, com o título: ’40 anos depois. Annoni: uma História de Solidariedade, Fé, Coragem, Esperança e muita Colheita’.
Os dias 24 e 25 de outubro foram de muita história, emoção, luta, mística e esperança, na fazenda Annoni, em Pontão, Rio Grande do Sul. Não teve quem não chorou mais de uma vez, como eu, chorão assumido. Foram dias de reencontro, de abraços, de muita música e mística, especialmente por conta dos jovens do MST. Foram dias de confirmar a boa luta. Foram dias de reacender o esperançar de Paulo Freire.
Os tempos estão difíceis? Sim, estão, no Brasil e no mundo. Mas não dá para esquecer como eram os tempos em 1979, na ocupação das fazendas Macali e Brilhante. E em 1981, no Acampamento da Encruzilhada Natalino, em tempos de ditadura militar, com intervenção direta das forças militares e com o major do Exército Sebastião Curió presente. E mesmo ainda eram difíceis em 1985, mesmo em tempos de mobilização pelas Diretas-Já, que só aconteceram em 1989.
O MST e a boa luta estão vivos, muito vivos em 2025, como viveu quem esteve na celebração dos 40 anos da fazenda Annoni. A luta valeu a pena, mas continua muito urgente e necessária, para construir um Brasil com paz, com soberania, com justiça, com igualdade, com direitos, especialmente para os mais pobres entre os pobres, as-os trabalhadoras-es, com democracia. A luta continua por uma Reforma Agrária Popular.
PS. Depois da emoção vivida e da esperança abastecida nos dias 24 e 25 de outubro na Fazenda Annoni, é preciso fazer um registro, depois dos tristes acontecimentos da semana no Rio de Janeiro, com centenas de mortes e a paz em convulsão. Dois artigos escritos tempos atrás podem dar algum sentido e servir de referência nesta hora e nestes tempos: Urgência urgentíssima : segurança ‘pública com cidadania (Selvino Heck, Brasil de Fato RS, 18.08.23). Segurança com cidadania: prioridade número um (Selvino Heck, Brasil de Fato RS, 31.01.25). Lutar por paz, com participação popular e democracia. Lutar por uma Reforma Urbana Popular e por uma Reforma Agrária Popular.
*Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha do editorial do jornal Brasil de Fato.

