O veranico de maio, infelizmente, terminou. Era o tempo, em priscas eras, de colher a soja na roça da família em Santa Emília, Venâncio Aires, interior do interior do Rio Grande do Sul. Nas duas ou três semanas de sol em maio, não se podia perder tempo. Caso fosse necessário, por ameaça de chuva mais cedo que o normal no veranico, reuniam-se famílias de parentes e vizinhos e às vezes até se trabalhava em sábados e domingos, para que a soja pronta para a colheita não fosse perdida, uma das principais rendas e sustento da família de nove filhos. E era tudo feito à mão, com a ajuda de carroças e juntas de bois. Nada de trator naqueles tempos. E sobrevivemos todas e todos. Os nove filhos de papai Léo e mamãe Lúcia continuam vivos.
Terminado o mês de maio, vinha o frio com toda força. E chegava o tempo de ficar rodeando o fogão a lenha, que funcionava o dia inteiro. Cozinhava-se pinhão na chapa, sem deixar de ir para a escola São Luiz no meio do frio, pés e mãos gelados, com nada de aquecimento na sala de aula de mais de 50 alunos.
O trabalho na roça, anos 1960/1970, não era fácil. Mais difícil ainda era suportar o frio todos os dias, as manhãs e os potreiros brancos de geada. O inverno é a mais difícil das estações. Pouco sol, muito frio, muita chuva, ainda mais para crianças que só tinham o fogão a lenha para aquecer os pés e as mãos, ou, quando desse em final de tarde, correr e jogar futebol no potreiro da família, reunindo os bons jogadores da família, mais os muitos filhos dos parentes próximos e de alguns vizinhos.
Mas assim a vida corria e se sobrevivia. Sem esquecer que nos primeiros anos de vida sequer havia luz elétrica, apenas a luz das velas ou dos lampiões para iluminar a noite, as idas na vizinhança para rezar o terço e participar das atividades da comunidade São Luiz de Santa Emília.
Estamos em 2026 e enfrentamos o frio do inverno, com todas as facilidades dos tempos atuais, com aquecedores, ar condicionado, etc. Não se precisa mais pensar em fogão a lenha, embora ele ainda esteja disponível na casa da família. Melhor ainda hoje, no inverno, tendo pinhões, e podendo estar ao lado do fogão a lenha. É o melhor momento e oportunidade de esquentar pés, mãos e o coração. Enquanto isso, família reunida, tomar um bom chima no final da tarde/noite, e um bom copo de vinho (naqueles tempos idos, o vinho era produzido a partir dos parreirais ao lado de casa). Hora de colocar a conversa em dia sobre os velhos tempos e os tempos atuais tormentosos, cheios do frio do inverno, cheios dos frios da vida e do clima, da realidade turbulenta e do mundo com falta de paz.
Felizmente, o lançamento do livro Fé e Política, Ensaios de uma Vida peregrina (Selvino Heck, Ed. Usideias, 2026), acontecido estes dias no Maria Maria Espaço Cultural em Porto Alegre, foi regado com bons reencontros, boas risadas, boas músicas latino-americanas, boas histórias de vida e bons tragos. O frio de cerca de dez graus não atrapalhou as conversas, os causos contados e os autógrafos dados com toda alegria e gratidão pela presença de amigas, amigos, companheiras, companheiros de muitas jornadas.
Os tempos estão difíceis? Sim, estão. Mas como o inverno, não são eternos nem duram para sempre. A primavera vai chegar, com muito sol, as flores aparecendo. A vida é para ser vivida, com e sem frio.
Está no livro Fé e Política um poema escrito no final dos anos 1970 (p. 70), então publicado no jornal Cajado, do Movimento Peregrinos, e que hoje, 2026, permanece mais que atual.
A manhã vai chegar
A manhã há de chegar, eu sei./ Com ventos e tempestades, mas vai chegar./ E vai habitar nas curvas do homem, da mulher,/ nas esquinas do mundo,/nas circunstâncias da história./ E vai resplandecer/ o povo/ com seu frescor,/ sua claridade/ e ternura./ E vai armar o povo/ de palavras./ Vai proclamar a liberdade/ e expulsar o medo.
A manhã vai chegar/ sem fantasmas,/ sem fomes,/ sem mordaças./ O povo sairá nas ruas, unirá as mãos/ e a bandeira da liberdade, finalmente,/ vai drapejar no continente./
A manhã há de chegar,/ eu sei.
* Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

