Tudo começou no potreiro ao lado de casa, na Linha Santa Emília, Venâncio Aires, hoje Capital nacional do Chimarrão, interior do interior do Rio Grande do Sul. Instalamos, ao lado de uma grande figueira que resistiu até as tempestades em 2025, duas goleiras, distantes uma da outra uns 30 ou 40 metros. Começamos a jogar futebol com bolas de borracha, não de couro, disputando o espaço com vacas, bois e terneiros.
Aprendemos a jogar e gostar de futebol, nos finais de tarde, depois das aulas de manhã na Escola São Luiz e do trabalho diário de tarde na roça, e antes de tirar leite das vacas. E, claro, acompanhados de primos e filhos de vizinhos, com mais tempo nos finais de semana, depois da devoção ou missa dos domingos na igreja São Luiz e antes, ou depois, de um eventual churrasco, com carne de uma criação da família, vaca, boi ou porco, ou alguma galinha. Dos nove filhos de papai Léo e mamãe Lúcia, só a mana Ivone, hoje religiosa, não jogou futebol.
Ainda não existia o Esporte Clube São Luiz de Santa Emília, nos anos 1950, hoje multicampeão (acabou de ser campeão, com a gurizada, da Copa Serrana de Venâncio Aires), fundado em 1965, e cujo campo era o potreiro do tio e padrinho Antônio Fröhlich, onde joguei a última partida, até ser inaugurado, também eu titular no primeiro jogo, o atual campo do São Luiz de Santa Emília.
Escutamos os jogos da Copa de 1958, Brasil campeão, eu o mais velho da família, então com sete anos de idade, através de um grande rádio pousado na sala da família, ao lado da cozinha e do fogão a lenha, que funcionava quase o inteiro, para fazer a comida, para esquentar as mãos e pés no inverno, para cozinhar pinhões na sua chapa. A gente sentava ao redor do fogão a lenha, onde havia bancos pra gente se acomodar e não passar frio. E comer tudo do bom e do melhor, além de tomar um vinho dos bons feito em casa, nos parreirais da família ao lado de casa.
Ouvimos os jogos de 1958 e de 1962 pela então poderosa rádio Guaíba, único meio de comunicação daqueles tempos, além de eventual leitura do Correio do Povo, e depois e sempre, até hoje, a Folha do Mate de Venâncio Aires. É bom lembrar, que ainda sei de cor o time campeão em 1958, na Suécia, vitória de 5×2, dois gols de Pelé, conhecendo todos os jogadores, ao contrário do que acontece hoje, 2026: Gilmar, Djalma Santos, Bellini, Nilton Santos, Zito, Didi, Garrincha, Pelé, Vavá e Zagalo. Técnico: Vicente Feola.
Era uma beleza torcer, família toda reunida, saber de Pelé, Garrincha e tantos outros craques. A gente, mesmo guris, sabia de cor a escalação da canarinha, quase convivia com os jogadores. Já em 1970, eu então fazendo o noviciado franciscano em Daltro Filho, então município de Garibaldi, grande e boa novidade, foi possível ver os jogos na televisão, pela primeira vez.
Hoje, acompanha-se a Copa com todas as facilidades de comunicação, mas sem conhecer boa parte dos jogadores da seleção, que ou são desconhecidos, até mesmo os poucos gaúchos, ou nem jogam ou jogaram no Brasil, ganhando rios de dinheiro pelo mundo.
Muita gente, ao contrário de outros tempos, não está torcendo, ou está de olho atravessado, para a seleção brasileira. A maioria dos jogadores, além de desconhecidos, não jogam ou nunca jogaram no Brasil. Vão para o mundo inteiro, ganham muito dinheiro, às vezes quase não parecem brasileiros. É a triste realidade de um tempo não movido a paixão, enquanto o futebol brasileiro, seus times e clubes, passa por grandes dificuldades.
Mesmo assim, o futebol está e continua em minha/nossas vidas, como se fosse parte da família, da comunidade, ou sendo extensão e concretização delas. Não é apenas um esporte. É encontrar as famílias, é juntar a comunidade, é torcer lado a lado, é conviver solidariamente, é andar e construir junto, é cultivar valores de convivência e participação, doar parte da vida gratuitamente, e ser feliz em família e comunidade, também com o futebol.
Futebol, portanto, é vida, é ainda, embora mais difícil que em outros tempos, ter esperança e acreditar no Brasil.
* Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

