A abertura de um campus da UnDF em Ceilândia é, em princípio, uma boa notícia. Ceilândia merece universidade pública, e isso já não é de hoje. O ponto não é esse. O ponto é o modo da coisa. Porque a vida pública tem dessas coisas bem penteadas: o absurdo, quando resolve aparecer, não vem de chinelo e camiseta; vem de salto, gravata, fala difícil e ainda exige aplauso, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
A UnDF vai funcionar em Ceilândia num prédio alugado de instituição privada, em contrato milionário. Não sou especialista em finanças públicas, nem perito em engenharia patrimonial, nem criatura íntima dos labirintos orçamentários. Sou apenas professor. E talvez justamente por isso me ache no dever de fazer a pergunta mais singela — e, por isso mesmo, mais incômoda — que um cidadão comum faria diante de uma cena dessas: por que a universidade pública do Distrito Federal deve crescer como inquilina do setor privado?
A pergunta fica ainda mais espinhosa quando o olhar esbarra no velho prédio da Faculdade Dulcina de Moraes. Ele está ali, em área central, estratégica, com cara, corpo e vocação de equipamento público — e ainda traz no peito um teatro de Niemeyer, o que não é exatamente um detalhe de rodapé. Não é um prédio qualquer, desses que a cidade engole sem mastigar.
Não é um caixote órfão, um esqueleto de concreto, uma quinquilharia urbana. É um bem cultural e educacional de tal peso simbólico e material que seu abandono já começa a parecer menos descuido do que alegoria.
Mas é aí que começa uma espécie de teatro de explicações solenes, que já não se sabe se vem do desconhecimento ou da conveniência. Repete-se, com ar de parecer definitivo, um argumento que mais confunde do que esclarece: o de que a compra do imóvel seria impossível porque “o prédio é cheio de dívidas”.
Ora, desde quando prédio contrai dívida? Prédio tem CPF? Tem CNPJ? Assina contrato, emite boleto, sonega tributo, responde a reclamação trabalhista? Não. Quem faz dívidas são pessoas e instituições; o prédio, quando muito, sofre as consequências delas. Se chegou a leilão, foi justamente por isso. A distinção é elementar. E talvez seja justamente por isso que tanta gente prefira embaralhá-la: o elementar, quando dito em voz alta, atrapalha certos discursos.
Não faço aqui acusação alguma. Faço uma pergunta — e, modestamente, creio que seja legítima. Se havia, e ainda há, um bem estratégico, central, historicamente ligado à educação e à cultura, por que essa possibilidade nunca se afirmou, de modo claro e robusto, como prioridade política?
Por que a forma mais visível de expandir a universidade pública é pagar aluguel ao setor privado, enquanto um patrimônio dessa natureza segue, há anos, entre o abandono, o impasse e a decadência?
Ninguém ignora que a situação da Fundação Brasileira de Teatro é complexa. Há passivos, entraves, disputas, embaraços. Justamente por isso se exigiria alguma grandeza política. Porque governar, em tese, não é apenas administrar o expediente: é enxergar onde uma dificuldade pode ser convertida em solução. E, francamente, até do ponto de vista da propaganda oficial, o caminho parecia tentador.

Recuperar o Dulcina, preservar patrimônio cultural, dar uso público a um espaço emblemático e, de quebra, impulsionar a universidade pública. Era uma jogada vistosa. Quase um golaço. Em vez disso, escolhe-se o aluguel privado — essa solução algo pálida, algo provisória, algo sem imaginação.
Ceilândia merece campus. Ninguém sério discute isso. O que causa estranheza é o modelo de expansão. Universidade pública não deveria viver de mala pronta, à mercê de contrato de locação, como quem ocupa de empréstimo aquilo que jamais se decide constituir como bem comum. E, convenhamos, se Ceilândia merece campus, outras regiões periféricas do DF também.
Nesse quadro, consolidar um patrimônio em área central e estratégica não pareceria uma solução mais inteligente — e talvez até mais econômica — para uma universidade que ainda precisa existir como instituição, e não apenas como endereço? Universidade pública existe também para consolidar patrimônio público, infraestrutura pública, presença pública.
Por isso, a pergunta continua de pé, teimosa e, creio eu, civilizada: por que alugar o que é privado, enquanto um patrimônio estratégico, histórico e vocacionado para o uso público segue tratado como questão lateral?
Talvez haja uma excelente explicação. Talvez existam razões técnicas, jurídicas e financeiras tão complexas que escapem à compreensão de um simples professor — profissão, aliás, de prestígio cada vez mais acanhado em nosso tempo. Pode ser. Mas, se essas razões existem, merecem ser apresentadas com a clareza que o caso exige e que, até agora, não se viu.
Até lá, a dúvida permanece. E, vista de fora, a cena ainda parece guardar algo de estranho: sobra aluguel, falta prioridade pública.
*Leonardo Pereira da Costa é professor da Universidade do Distrito Federal (UnDF).
**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha do editorial do jornal Brasil de Fato – DF.
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