SinDUnDF-SS

Sindicato dos Docentes da Universidade do Distrito Federal (SinDUnDF-SS), seção do Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes-SN)

Por que a Universidade do Distrito Federal remunera tão mal seus professores?

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Estudantes da UnDF denunciam falta de diálogo e risco de evasão após decisão de transferir cursos
Estudantes da UnDF denunciam falta de diálogo e risco de evasão após decisão de transferir cursos | Crédito: Agência Brasília

Mesmo diante desse quadro, a comunidade acadêmica tem desfrutado de projetos de muita qualidade em diversas áreas do conhecimento

A Universidade do Distrito Federal (UnDF) é a mais recente universidade pública estadual (leia-se: distrital) do Brasil. Seu primeiro concurso para docentes ocorreu entre o segundo semestre de 2022 e o primeiro de 2023. Os primeiros docentes tomaram posse em junho daquele ano.

Em termos, é a universidade pública que pior remunera seu quadro docente, quando comparada às estaduais da região Centro-Oeste e também a diversas outras estaduais espalhadas pelo país. Como a pergunta colocada não se trata de mera retórica, fui tentar compreender o porquê desta problemática, longe de ser isolada, constituindo-se, inclusive, em problemática nacional, como é de conhecimento de nossa sociedade.

A carreira docente na UnDF

A Carreira Magistério Superior do DF foi criada pela lei 6.969/2021. É nessa legislação que se define a remuneração dos professores da universidade, suas atribuições, regime de trabalho, entre outros aspectos. A carreira docente na UnDF não possui Dedicação Exclusiva nem Retribuição por Titulação como em outras instituições de ensino superior públicas, apenas uma Gratificação de Magistério Superior de 30% do salário-base no mesmo molde do GDF para com professores da Educação Básica.

Assim, a lei definiu, em 2021, o salário base de um professor com doutorado ingressante na instituição, no regime de 40h semanais, em R$ 5.200,00. Com a gratificação, o valor era de R$ 6.760,00, na capital do país. Com o reajuste linear concedido pelo GDF no ano de 2023, tem-se atualmente o valor de R$ 8.051,26. Ressalta-se que são 25 níveis para se chegar ao topo da carreira, isto é, 25 anos para alcançar o salário mais alto. Esse tempo pode ser bem menor em outras instituições. 

Comparativo com as universidades estaduais do Centro-Oeste

As universidades estaduais da região Centro-Oeste são: UEG, UNEMAT, UEMS e, mais recentemente, a UNDF. A UEG,  Estadual de Goiás, remunera um professor (classe adjunto) ingressante na instituição com um salário base de R$ 13.118,63, em Regime de Tempo Integral de dedicação à Docência e Pesquisa (RTIDP). A UNEMAT, Estadual de Mato Grosso, há mais de 13 anos não realiza concurso público docente e cerca de 50% de seu quadro é de professores temporários. Um professor ingressa nesta instituição com a remuneração de R$ 12.020,78 (Classe C1 em regime de 40H com DE).

Por sua vez, a Estadual do Mato Grosso do Sul, UEMS, oferece R$ 11.539,54, de acordo com último edital de concurso realizado este ano pela instituição. Trata-se da menor remuneração dentre as três outras instituições da região, no entanto, ela é quase 44%% maior do que a remuneração da UnDF para um professor com doutorado que ingressar em regime de 40h, parâmetro utilizado em todos os cenários acima descritos.

Por que na capital do país, que recebe Fundo Constitucional e foi uma referência salarial para docentes no Brasil em outros tempos (tomando como base a Educação Básica, pois não existia universidade distrital), remunera tão mal os professores de sua universidade distrital?

A Universidade Estadual de Goiás passou por reestruturação em seu Plano de Carreiras recentemente (2024), o que explica, em certo sentido, a sua remuneração ser a mais alta entre as estaduais da região Centro-Oeste, fruto da luta árdua e intensa de seus professores. Nessa reestruturação, vale ressaltar, os níveis foram alterados para 15. Assim, um professor alcançará o topo da carreira ao completar 15 anos de trabalho. 

A título de comparação com a carreira do magistério federal, a remuneração inicial nesta carreira para professor doutor 40H/DE é de R$ 13.753,96. Em todos os cenários, a UnDF continua pagando mal.

Importante salientar ainda que coordenadores de curso da UnDF não recebem nenhuma gratificação e o projeto de lei para instituí-la, não foi incluído na LDO. Outro ponto incide sobre a evasão docente, que está em torno de 35%, quando consideradas as nomeações até o momento, de modo que o baixo salário também tem impactado na pouca atratividade e retenção de professores. 

A luta pela valorização salarial

A luta pela valorização salarial é também uma luta por respeito, construída nas assembleias da categoria, em reuniões e na atenção aos nossos direitos e pautas. Em março de 2025, foi instituído um Grupo de Trabalho pela Reestruturação da Carreira, na permanente campanha salarial promovida pelo sindicato e professores. Ao final do GT, composto por membros da Reitoria e do Sindicato, uma proposta foi encaminhada à Reitoria. Passou-se um ano e bulhufas! Greve deflagrada no dia 20 de março de 2026. Ao final do movimento grevista, algumas mudanças, mas, neste assunto, praticamente as mesmas respostas e zero reajuste. 

Nós, professores e professoras, nunca paramos de lutar, tampouco jamais “dormimos no ponto” e muito menos, “perdemos o timing” da reestruturação de nossa carreira. Quem perdeu esse tempo foi a gestão anterior da universidade e o próprio governo do DF. Mesmo antes do GT mencionado, no ano passado, a pesquisa de dados sobre a questão salarial, a evasão docente, os impactos orçamentários, entre outros assuntos atinentes à pauta financeira, sempre estiveram presentes desde a criação do sindicato, pois obviamente esse é um assunto de extrema urgência e relevância. 

Entre a burocracia da maquinaria estatal, flutuações políticas (para não dizer má vontade em alguns casos) e uma gestão da universidade conturbada em diversos momentos, com mudanças repentinas em seu funcionamento, como no caso do aluguel do Iesb (com contrato de aluguel de 112 milhões de reais!) a UnDF segue sendo uma promessa para o ensino superior público do DF. Muitas vezes, um ativo político utilizado em nome da Educação. 

Por outro lado, mesmo diante desse quadro, a comunidade acadêmica tem desfrutado de projetos de muita qualidade em diversas áreas do conhecimento, com um corpo docente altamente qualificado em 19 cursos de graduação e 1 pós-graduação oferecida em Metodologias Ativas para professores das escolas públicas.

Já estamos construindo a Universidade! Ela é fundamental para o DF e é realidade para muitos estudantes, todavia, nossa reestruturação é crucial e urgente, pois a pergunta que nós docentes fazemos e que toda a sociedade precisa tomar conhecimento, permanece: por que a Universidade do Distrito Federal remunera tão mal seus professores? 

Os dados salariais mencionados neste artigo são referentes a valores atualizados, disponibilizados pelas instituições e sindicatos da categoria, assim como, pela legislação vigente.

*Guilherme Bruno é professor e diretor do Sindicato dos Docentes da Universidade do Distrito Federal (SindUnDF). 

**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato DF.


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Editado por: Clivia Mesquita

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