Thais Ferreira

Thais é doutoranda em Ciências Sociais pela Universidade Federal da Bahia e pós-graduada em Gastronomia e Cozinha Autoral pela Pontifícia Universidade Católica do Grande do Sul.

Todo mundo gosta de Acará, mas finge não saber o trabalho que dá

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“No tabuleiro tem acarajé, abará, cocada, bolinho de estudante, passarinha, tem outras que botam bolo”, exemplifica Rita Ventura, presidenta da Associação Nacional das Baianas de Acarajé | Crédito: Associação Nacional das Baianas de Acarajé

Se o sol de Salvador se põe em cores de dendê, é porque, através das mãos Baianas, Oyá se faz em nós

Sábado passado, dia 25 de novembro, nós, aqui de Salvador, comemoramos o Dia Nacional da Baiana do Acarajé. Registrado desde 2005 como patrimônio cultural do Brasil, no Livro dos Saberes do Iphan, o ofício da Baiana de Acarajé nos faz lembrar, diariamente, que modos de fazer importam.  É na imaterialidade que a materialidade, ou vice-versa, se revelam imbricados. Na procura de uma compreensão dos modos-de-fazer tradicionais, acabamos por esquecer que o local do valor dos saberes e dos instrumentos, das técnicas e das matérias primas, do produto e seus frutos, abarcam uma singularidade complexa.

Tal singularidade foi, pelas Baianas de Acarajé, popularizada em uma comida que explica o Brasil. Entre os séculos XV e XIX os modos-de-fazer Acará [bola de fogo] jé [comer] foram trazidos, na memória e no corpo dos escravizados, da África Ocidental para cá. Em solos brasileiros, o acará da memória materializou-se em comida, símbolo e ritual. Ponte de ligação entre humanos e mais que humanos, oferecer e comer acará transcendeu as necessidades do estômago, denotando respeito, culto, coração. Oferecido para Iansã, Oyá, o Acará ganhou significado comum nas Nações Angola, Jeje e Ketu. Devemos o Ofício das Baianas do Acarajé aos ditos e os feitos dos Candomblés.

Acarajé é caro

Foi no Século XIX, graças à energia vital e laboral das mulheres, que o Acará atravessou os Terreiros e começou a circular nas ruas da Cidade da Bahia. Levados pelas Filhas de Oyá, fazer Acará traduziu-se em uma prática, acima de tudo, feminina. Os processos da feitura do Acará realizados por mulheres não nos deixam esquecer da dificuldade posta nessa prática: o feijão fradinho deve ser seco, demolhado, descascado [com auxílio da água], moído, aerado/batido [em um movimento aparentando uma remada], moldado em uma forma específica [garantindo a cocção por inteiro] e frito no azeite de dendê que deve estar em temperatura ideal para tal.

Toda essa técnica [fora as que estão relacionadas ao caruru, vatapá… Que eu nem coloquei aqui] posta na comida e no corpo parece desaparecer quando alguém afirma: "Acarajé é caro". Protagonista do tabuleiro guiado por Iansã, foi a venda do Acará, aprendido nos Terreiros que possibilitou a compra da liberdade daquelas que o vendia e de outros escravizados. Sim, o Acará não pode mesmo ser barato.

Donas de seus próprios narizes, as Baianas transmitem o sabor de serem donas de si.  Os modos-de-fazer acarajé, ensinados pela religião, história, tradição, corpo, luta, liberdade fazem as Baianas traduzirem em comida a impossibilidade de releituras. Únicas são elas e as Bolas de fogo, devemos respeitar tamanha unicidade de técnicas e apresentação. Se o sol de Salvador se põe em cores de dendê, é porque, através das mãos Baianas, Oyá se faz em nós. Em cada rua desta cidade, Baianas de Acarajé estão para nos lembrar que todo dia é dia santo e que todos os dias serão delas.

Editado por: Gabriela Amorim

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