Nesta semana, a Câmara Municipal de Curitiba realizou duas homenagens a cidadãos honorários que, a meu ver, carecem de sentido para a cidade. A primeira visava agraciar a ex-primeira-dama, Michelle Bolsonaro. Tratou-se de uma homenagem com um claro viés ideológico, para a qual, posteriormente, alguns parlamentares tentaram encontrar justificativas ligadas a atuações sociais e ações de inclusão. É fundamental ressaltar que essas atuações ocorreram em âmbito federal, o que, aparentemente, contraria o próprio regimento da Casa Legislativa. A segunda homenagem, ainda mais questionável, foi destinada ao príncipe Bertrand de Orleans e Bragança, membro da antiga família real brasileira, conhecido por defender abertamente a restauração do regime monárquico no país.
É crucial destacar que os movimentos da Monarquia e do Bolsonarismo parecem caminhar juntos, unidos por um movimento conservador e retrógrado. Segundo a professora e socióloga da USP, Angela Alonso, “Parte do fascínio bolsonarista com a monarquia deve a esse seu lado, o do atraso. Outra deve à sua face violenta. O Império nada teve de pacífico, atravessado por assassinatos políticos e revoltas reprimidas à bala. Até pena de morte a lei previa, mas nem precisava, a iniciativa privada a exercia com capangas, antepassados dos
milicianos.”
Em 2019, o jornal Gazeta do Povo, notório por seu viés ideológico direitista, noticiou o encontro entre a família Bolsonaro e Dom Bertrand. O texto afirmava: “Era dia de manifestar apoio à pauta conservadora do governo de Jair Bolsonaro. Entre eles estava um senhor de 78 anos, a grande referência do grupo. Trata-se de Dom Bertrand Maria José Pio Januário Miguel Gabriel Rafael Gonzaga de Orléans e Bragança, segundo na linha sucessória real e um dos líderes do movimento de restauração da monarquia.” O jornal também apontou que ambos compartilham visões consideradas retrógradas e preconceituosas, ao exporem que “Como Bolsonaro, os dois criticam a política indigenista dos governos anteriores. Defendem que a fé cristã seja ensinada às tribos como forma de levar a civilização a esses povos. Tanto um quanto o outro também compartilham das ressalvas do presidente ao ‘movimento negro’, a quem acusam de fomentar o racismo.”
Fica evidente o caráter ideológico e eleitoreiro dessas honrarias, que desvirtuam o propósito do título de cidadão honorário. Mais uma vez, percebemos que a influência do bolsonarismo persiste nesta cidade e, sobretudo, na Câmara, visto que as duas proposições foram aprovadas com facilidade. É preocupante constatar que uma sessão legislativa foi dedicada a homenagens tão desconectadas dos reais interesses da população, enquanto urgentes pautas urbanas aguardam discussão. É nítido que muitos vereadores priorizam pautas particulares e não estão preocupados com o interesse coletivo, reforçando a ideia de que o político não faz nada ao dar reconhecimento a quem também não contribuiu em nada.
Para mim, é um ultraje defender a Monarquia, um modelo sustentado pela escravidão. Além disso, o homenageado não realizou nenhum ato pela cidade que justifique a concessão deste título, a maior honraria desta Casa. Diante da clara banalização desta honraria, que deveria ser reservada a quem presta relevantes
serviços à cidade, sugiro que a Câmara crie um título alternativo, algo como “Amigo(a) do Vereador(a)”, a ser concedido a figuras apadrinhadas por vereadores, mas sem o peso simbólico do título de cidadão honorário. Dessa forma, se preservaria o caráter distintivo da maior honraria da Casa, garantindo que ela continue a reconhecer aqueles que, de fato, contribuem de verdade para Curitiba.


