Dimas Antônio de Souza

Dimas Antônio de Souza é professor de ciência política do Instituto de Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) e escreve quinzenalmente para esta coluna.

 

Entre heróis e mártires: a mística da vitória e o futuro da democracia

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Presidente Lula e militantes
Presidente Lula e militantes | Crédito: ricardo stuckert

A trajetória de Luiz Inácio é uma epopeia

A história humana é escrita por dois tipos de figuras extraordinárias: os heróis e os mártires. Embora ambos habitem o nosso imaginário, eles oferecem lições opostas. O mártir nos convoca pela dor; sua queda é a prova da crueldade do inimigo. Seguir um mártir é, muitas vezes, aceitar o sacrifício final. Já o herói faz o que parece impossível aos mortais comuns e, ao final da jornada, vence.

No panteão da história brasileira, sobram mártires. Figuras que foram esmagadas pelo sistema, servindo de alerta sobre o poder das elites. Mas Lula quebrou esse ciclo. Ele é, talvez, o único herói do povo brasileiro que sobreviveu para contar a vitória.

A jornada do herói

A trajetória de Luiz Inácio não é apenas uma carreira política; é uma epopeia. Do pau-de-arara ao Planalto; das greves que desafiaram generais à fundação do maior partido popular do Ocidente; do cárcere político ao retorno triunfal nos braços do povo.

O ódio visceral que as elites nutrem por Lula não nasce de seus erros, mas de seu maior acerto: ele se tornou um exemplo de vitória. Enquanto o povo se contentar com mártires, ele se sentirá derrotado. Quando o povo se enxerga em um herói vencedor, ele se torna perigoso para o status quo.

O risco da queda e a estratégia do amanhã

Lula já atingiu a imortalidade política. Seu nome será estudado daqui a cem anos como o homem que dobrou o destino. No entanto, heróis, ao contrário dos deuses, são feitos de carne e osso. E é aqui que a militância e o campo progressista precisam de lucidez: não podemos submeter o herói à possibilidade da derrota.

Preservar Lula não é apenas uma questão de gratidão, é uma estratégia de sobrevivência democrática. Ele não precisa provar mais nada. Sua missão agora transita do campo da disputa direta para o de mentor e fiador da estabilidade.

O legado como escudo

A manutenção da democracia em 2026 e a construção de 2030 passam por entender que o capital político de Lula é sagrado. Ao posicionar-se como o grande articulador — ao lado de nomes como Haddad e Simone Tebet — Lula deixa de ser o alvo na trincheira para se tornar a montanha que protege o campo.

A união do centro com a esquerda: uma chapa que simbolize a frente ampla sob as bênçãos de Lula blinda o país contra o autoritarismo. A preservação do mito: ao não se desgastar em uma nova corrida de vida ou morte, Lula permanece invicto.

O maior medo de seus opositores é que o exemplo de vitória de Lula se perpetue. Para que a democracia brasileira respire, precisamos que o herói continue sendo aquele que venceu. E, para vencer sempre, é preciso saber a hora de transformar a liderança em legado.

Dimas Antônio de Souza é professor de ciência política do Instituto de Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas)

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Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.

Editado por: Elis Almeida

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