O debate político contemporâneo foi sequestrado por uma palavra que, de tanto usada, corre o risco de nada mais dizer: narrativa. Da extrema-direita aos setores mais progressistas, o termo tornou-se o “abre-te sésamo” da estratégia eleitoral. No entanto, há um equívoco perigoso nessa onipresença. Trata-se a narrativa como um acessório de moda, algo que se inventa em um escritório de marketing e se impõe à realidade por decreto.
Essa banalização ignora que, em seu sentido forte, a narrativa não é uma peça de ficção descartável, mas a manifestação do mito. E o mito, como bem ensinou Raoul Girardet em sua obra fundamental Mitos e Mitologias Políticas, possui uma força gravitacional que dobra a percepção do real.
A armadilha do enredo
Quando uma narrativa mítica ocupa o cenário — seja ela a do “Salvador”, a da “Conspiração” ou a da “Idade de Ouro” — o tempo político deixa de ser linear e racional. Entramos em períodos de efervescência do mito onde o cidadão deixa de ser um observador crítico para se tornar um personagem da narrativa.
Como Girardet explicitou, o mito oferece um roteiro pronto. Uma vez dentro dele, as ações dos indivíduos não são mais escolhas livres, mas confirmações do enredo. Se a narrativa é a do “domínio do mal”, qualquer gesto do adversário é lido como agressão; qualquer derrota é lida como traição.
O indivíduo não analisa o fato; ele o encaixa na moldura mítica que já carrega na mente. É por isso que o diálogo morre: não se argumenta contra um mito, pois ele não pertence à ordem da razão, mas à ordem da crença e da identidade.
A banalização como cegueira
A esquerda progressista e os democratas liberais, ao adotarem o termo “narrativa” como sinônimo de “versão dos fatos”, cometem um erro crasso. Acreditam que basta “contar uma história melhor” para vencer o jogo. Mas a extrema-direita não está apenas contando histórias; ela está acessando arquétipos profundos e antigos.
Enquanto a tecnocracia democrática oferece planilhas, a extrema-direita oferece o mito da unidade e da conspiração. Enquanto os progressistas falam em “narrativas de inclusão”, seus opositores operam no terreno do sagrado e da restauração de uma ordem mítica perdida. A banalização do conceito impede que se perceba a profundidade do abismo: não estamos em uma disputa de assessores de imprensa, mas em um choque de cosmologias.
Decifrar a esfinge
Compreender a narrativa da extrema-direita exige o esforço de buscar suas origens no mito. É preciso identificar onde ressoam os temas da conspiração internacional, do líder carismático e da regeneração nacional. Somente ao mapear as raízes dessas estruturas míticas poderemos oferecer algo que não seja apenas uma “contra-narrativa” artificial, mas uma realidade que faça sentido para além do transe mitológico.
Se não decifrarmos a esfinge, seremos por ela devorados. O momento exige menos marquetólogos e mais analistas da alma coletiva. Afinal, uma democracia que se sustenta apenas em “narrativas” de curto prazo é uma democracia sem solo, pronta para ser levada pela próxima tempestade mítica que soprar mais forte.
Dimas Antônio de Souza é professor de ciência política do Instituto de Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas)
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