Dimas Antônio de Souza

Dimas Antônio de Souza é professor de ciência política do Instituto de Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) e escreve quinzenalmente para esta coluna.

 

O arrebatamento é real: os riscos sociais da narrativa apocalíptica

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Cena de ‘Apocalipse nos Trópicos’, de Petra Costa | Crédito: João Atala/ Divulgação/ Netflix

Escatologia política desmobiliza a consciência de classe

No campo da disputa ideológica, poucas ferramentas são tão eficazes para a desmobilização da consciência de classe quanto a escatologia política. A crença em um evento definitivo de “fim dos tempos” ou “fim de uma era” atua como uma lente que distorce a realidade material, transmutando contradições sociais concretas em uma alucinação metafísica.

Historicamente, essa técnica foi o alicerce da escatologia nazista. O regime não construiu o “outro” apenas como um opositor político, mas como a encarnação de um mal absoluto e biológico que precisava ser extirpado para a salvação de uma suposta pureza original. Hoje, essa mecânica ressurge com vigor. 

Como observado em análises recentes sobre a ascensão do fundamentalismo no Brasil, a linguagem bíblica do Armagedom foi sequestrada para a mobilização política, transformando o debate público em uma guerra santa.

A sedução da “luta final”

Para o pensamento dialético, a história é o movimento constante das contradições e da luta por direitos. No entanto, a narrativa apocalíptica interrompe essa compreensão ao oferecer a promessa de um rompimento absoluto e catártico.

Ao pregar que vivemos a “luta final” — apropriando-se de termos que outrora pertenceram ao campo popular para esvaziá-los de sentido — a reação convence as massas de que não é preciso reformar o sistema ou ocupar o Estado com projetos de soberania, mas sim aniquilar o “inimigo demoníaco”. 

Nesta lógica, o adversário não é alguém com quem se disputa o orçamento ou a terra, mas uma figura satânica que deve ser varrida da face da terra. 

A nova Sodoma e o pânico moral

A eficácia dessa estratégia reside na fusão da narrativa religiosa com a terrena. Os indícios do “fim dos tempos” passam a ser “evidenciados” por uma pauta de costumes agressiva. A luta por igualdade e o avanço dos direitos civis são lidos como provas da imoralidade de uma nova Sodoma e Gomorra.

Nesse cenário, as forças progressistas e os movimentos sociais são demonizados. Se o oponente é o “Mal Absoluto”, a ética política é suspensa: o indivíduo sente-se autorizado a usar de todos os meios, inclusive a violência e o golpismo, para conter a “escalada do mal”. 

A realidade material da exploração e da mais-valia é eclipsada pelo véu do pânico espiritual, criando uma realidade paralela de caos absoluto.

A Idade de Ouro e a paralisia da ação

A mobilização escatológica oferece uma compensação psicológica poderosa: a promessa de uma “paragem providencial do tempo” e o advento de uma “Idade de Ouro” após a purificação pelo conflito. Acredita-se que, uma vez vencida essa batalha derradeira, as angústias humanas e os conflitos sociais se dissolverão para sempre.

Essa narrativa é o ápice da alienação. 

Ela retira o trabalhador do chão da fábrica e das lutas concretas para lançá-lo em uma espera messiânica. O pensamento apocalíptico, ao pintar o presente como um cenário de terra arrasada e maldade insuperável, cumpre sua função política mais profunda: ele suspende a ação do povo e renova, no imaginário coletivo, a esperança desesperada pela chegada de salvadores. 

No aguardo do herói que trará o fim da história, a classe trabalhadora acaba por entregar o seu destino àqueles que, em nome de Deus ou da Ordem, apenas perpetuam as correntes do presente.

Dimas Antônio de Souza é professor de ciência política do Instituto de Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas)

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Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.

Editado por: Elis Almeida

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