A história se repete, quase como uma farsa previsível. Sempre que a classe trabalhadora avança um passo em direção à dignidade, os profetas do apocalipse econômico acionam seus megafones. Diante da iminente aprovação da PEC que reorganiza a jornada de trabalho no Brasil — abrindo caminho para o modelo 5×2 ou 4×3 —, setores da direita conservadora e do liberalismo anacrônico correm para prever o fim do mundo: demissões em massa, inflação galopante e uma suposta “quebradeira geral”.
Esquecem-se, deliberadamente, de que a própria história do capitalismo desmente esse alarmismo. Para entender que a redução da jornada não é uma ameaça ao desenvolvimento, mas o motor dele, precisamos resgatar a memória de um pioneiro do século XIX: Robert Owen.
O experimento de New Lanark: menos horas, mais riqueza
Muito antes de Karl Marx teorizar sobre o capital, Owen, um industrial gales, assumiu o controle das fiações de algodão de New Lanark, na Escócia, em 1800. Em uma época em que a norma eram jornadas desumanas de 14 a 16 horas diárias, inclusive para crianças, Owen fez o impensável para os seus pares: reduziu a jornada para 10 horas e meia, baniu o trabalho infantil, investiu em habitação e criou a primeira escola maternal para os filhos dos operários.
Os liberais da época previram a falência imediata de Owen. O resultado? New Lanark tornou-se um sucesso estrondoso.
Owen demonstrou empiricamente o que a ciência do trabalho hoje assume como verdade absoluta: trabalhadores saudáveis, descansados e motivados produzem mais e melhor. A produtividade saltou, o desperdício despencou e os lucros da fábrica aumentaram. Foi Owen quem cunhou o lema que moldaria o século XX: “Oito horas de trabalho, oito horas de recreação, oito horas de descanso”.
O “ganho para o capital” que a Faria Lima se recusa a enxergar
Trazer Owen para o Brasil de hoje é escancarar o óbvio: a atual jornada brasileira está obsoleta e sufoca a própria economia. O argumento de que a redução gerará demissões em massa ignora a dinâmica moderna de consumo e produtividade. Há um ganho real para o próprio capital nessa transição, dividido em três pilares:
• Aumento real da produtividade: o trabalhador estressado (o Brasil vive uma epidemia de burnout) comete mais erros, gera mais custos de saúde para as empresas e opera em ritmo lento. Menos horas em um regime exaustivo significam horas mais eficientes e focadas.
• Estímulo ao consumo interno: quem trabalha seis dias por semana consome quando? O trabalhador precisa de tempo livre para gastar o seu salário — seja no comércio local, no turismo, no lazer ou na cultura. A redução da jornada injeta dinamismo direto no setor de serviços, o que mais emprega no país.
Um pacto de futuro: estímulo, não medo
Não se trata apenas de uma defesa do bem-estar da classe trabalhadora — embora a dignidade humana seja o nosso norte inegociável. É um chamado à racionalidade econômica.
Países que testaram a redução da jornada recentemente, como Islândia, Reino Unido e Espanha, registraram manutenção ou aumento de produtividade, além de uma queda drástica no absenteísmo (faltas por doença).
Aprovar a redução da jornada no Senado não é decretar a quebradeira do Brasil; é atualizar as engrenagens de um país que precisa crescer pelo consumo e pela inovação, e não pela superexploração. Empresários inteligentes deveriam abraçar a mudança, assim como Owen fez há dois séculos. Afinal, uma economia forte não se constrói com corpos exaustos, mas com mentes descansadas e cidadãos emancipados.
A jornada menor é um ganho de todos. É hora de avançar.
Dimas Antônio de Souza é professor de ciência política do Instituto de Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas)
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