Vicente Rauber

Engenheiro especializado em Planejamento Energético e Ambiental.

Histórias da Era do Petróleo (7)

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Exploração na margem equatorial e bacia de Pelotas
Exploração na margem equatorial e bacia de Pelotas | Crédito: Petrobras

O Brasil tem potencial para ser campeão como país limpo e sustentável

O Brasil continua investindo forte na indústria do petróleo, principalmente através da Petrobras. Não seria completamente incoerente?

A transição energética é imprescindível, o planeta exige, para garantir a nossa própria sobrevivência. E está bem atrasada. As recentes guerras geraram crises de abastecimento e de preços dos derivados de petróleo, tal qual ocorria durante os conflitos no passado. As alternativas energéticas renováveis não foram capazes de evitar a crise. A melhor alternativa aos motores de combustão de combustíveis fósseis são os veículos elétricos, hoje dependentes das baterias, em produção limitada e concentrada na China.

Como já vimos, a era do petróleo está profundamente enraizada na produção e na vida de todos, especialmente na economia. 

Hoje ainda somos completamente dependentes do petróleo, que continua sendo a modalidade energética mais consumida no mundo, sem o mesmo o planeta pararia.

O petróleo continua muito enraizado em nossas vidas, somente será substituído à medida que houver energias renováveis.

A redução do consumo do petróleo não ocorrerá pela redução da sua oferta; será reduzido à medida que os combustíveis fósseis foram substituídos por energias renováveis, em especial a energia elétrica.

E isto ainda demorará um tempo significativo. Lamentavelmente.

A Petrobras deve intensificar suas ações na transição energética e, enquanto for necessário, atuar na indústria do petróleo.

Neste período, incluindo a Petrobras, o Brasil deve intensificar suas ações na transição energética. E exigir que as demais nações, principalmente as do primeiro mundo, as maiores poluidoras e mais ricas, também o façam.

E deve continuar desenvolvendo e ofertando a produção de petróleo e seus derivados. Se não o fizer, outras nações produtoras de petróleo o farão, e o Brasil perderá recursos fundamentais para o seu desenvolvimento, inclusive para a própria transição energética.

Com os devidos cuidados ambientais, a margem equatorial e a bacia de Pelotas são grandes reservas a serem exploradas

Observando todos os requisitos ambientais cabíveis, deve prosseguir a exploração (pesquisa e perfuração para verificar a existência e estimar a quantidade de petróleo) da denominada Margem Equatorial, na costa dos estados Amapá, Pará, Maranhão, Piauí, Ceará e Rio Grande do Norte. Estima-se a maior possibilidade de sucesso a 500 km da Foz do Amazonas. Nos demais estados, estimam-se as possibilidades de produção a uma distância de 160 a 175 km da costa, todos a 7000 m de profundidade. O potencial de produção é de aproximadamente 30 bilhões de barris, quantidade semelhante a do pré-sal.

Também deve intensificar a exploração da Bacia de Pelotas, numa área marítima, entre 95 a 300 km da costa, de mais de 300.000 km², entre Florianópolis e o Uruguai. As perfurações também são profundas, de aproximadamente 7000 m. Quando a Pangéia se dividiu em continentes, a parte que separou-se da Bacia de Pelotas é a Bacia de Orange, na África, junto a África do Sul e Namíbia, onde existem campos gigantes de petróleo. Os geólogos apontam forte semelhança geológica entre as duas bacias, o que é mais um indício da possibilidade de petróleo na Bacia de Pelotas, além dos estudos sísmicos realizados.

Ainda há, nesta Bacia, outra área terrestre entre RS e SC, de em torno de 41.000 km². A possibilidade de produção de petróleo e gás natural chega a 15 bilhões de barris. Se confirmada também a existência de gás natural, será excelente, porque poderá suprir a demanda reprimida no RS e na região sul, além de ser um combustível que, se bem usado, é muito eficiente e gera muito pouca poluição.

Nos dois casos, mais uma vez a tecnologia de águas profundas, especialidade da Petrobras, está sendo fundamental. Neste caso, ultrapassando a lâmina de água e camada de terras e rochas, sem camada de sal.

Querosene de aviação – Crédito: Petrobras

A Petrobras vai bem e pode melhorar na exploração e produção de petróleo, porém ainda deve ao Brasil a autonomia nos derivados de óleo diesel, gasolina e querosene de aviação, em parte necessários de importação, o que faz com que o preço do total destes derivados dependa dos preços internacionais, impedindo o país em definir seus próprios preços.

A inclusão de biocombustíveis; etanol na gasolina, biodiesel no diesel, e saf (combustível sustentável de aviação), feito com biomassa e resíduos, no querosene de aviação, são muito importantes, pois reduzem a necessidade de importação e são bem menos poluentes.

O querosene de aviação é um derivado relevante tanto para os aviões nacionais, como para os internacionais que se abastecem em aeroportos nacionais. O preço do querosene de aviação chega a representar até 45% do valor da passagem aérea.

A partir de 2016 a Petrobras sofreu um forte processo de desmonte

A partir de 2016 a Petrobras, durante as gestões Temer e Bolsonaro, a Petrobras sofreu um duro processo de desmonte, de forma deliberada, como política anunciada.

Os brasileiros sofreram. A política de preços passou a ser o “PPI – Preço Paridade de Importação -”, que muda constantemente com a mudança dos preços internacionais, o que incentiva fortemente a inflação, diferente de somente mudar os preços quando se consolida um novo patamar de preços, hoje novamente praticado.

Além disto foi privatizada a BR Distribuidora, o que hoje impede um melhor controle dos preços nos postos de abastecimento. Foi vendida também a Liquigás, empresa do GLP – gás liquefeito de petróleo -, o gás de cozinha, igualmente impedindo um maior controle de seu preço.

Ao todo, foram vendidas mais de 60 propriedades da Estatal, ainda destacando:

– As transportadoras de gás TAG, rede de gasodutos do Norte e Nordeste e NTS, rede de gasodutos do Sudeste;

– As históricas refinarias Landulpho Alves (Rlam), da Bahia; Isaac Sabbá, de Manaus; Clara Maranhão, do Rio Grande do Norte e a Unidade de Industrialização de Xisto, de São Mateus – Pr;

– Dezenas de campos de petróleo terrestres e em águas rasas;

– Termelétricas e usina eólicas;

– Empresas do exterior.

A partir de 2023, a Petrobras retomou seu processo de crescimento. Precisa consolidar-se como empresa de energia.

A partir de 2023, a Petrobras voltou a atuar no seu crescimento e consolidação, com participação forte na exploração e produção de petróleo. Retomou o conteúdo nacional na fabricação de plataformas e navios, reativando os polos navais de Rio Grande (RS), Itajaí (SC) e Rio de Janeiro.

Quanto ao desmonte praticado nos anos anteriores, realizou: 

– Retomou dois campos de petróleo na Bacia de Santos;

– Cancelou a venda de 4 refinarias e retomou a Refinaria de Lubrificantes e Derivados do NE (Lubnor), do Ceará. Está em negociação a retomada da Refinaria Landulpho Alves, da Bahia;

– Suspendeu a venda da TBG – Transportadora de Gás Bolívia-Brasil;

– Reativou as fábricas de fertilizantes Araucária Nitrogenados, Pr, e Fafen na Ba. Retomou as obras da UFN – III de Sete Lagoas, MG.

Seria fundamental a retomada ou novas distribuidoras de combustíveis e GLP, visando um melhor controle de preços.

Para consolidar-se como empresa de energia e participar mais ativamente da transição energética, necessita retomar mais incisivamente investimentos em energias renováveis e geração de energia elétrica.

Produção de DIESEL R – Crédito: Petrobras

A Petrobras também realiza uma descarbonização e redução dos GEEs em seus processos de produção.

Destaca-se a captura e armazenamento com reinjeção nos poços de CO2 (dióxido de carbono) nas plataformas de produção de petróleo. O uso de gás natural ao invés de óleo combustível na produção de calor. Também realiza a capacitação de trabalhadores para atuar em energias renováveis.

Realiza a produção de novos produtos com destaque para o Diesel R, que inclui em sua composição uma parcela de diesel mineral, produzido com óleos vegetais e gorduras. A letra R representa o percentual de diesel renovável. Realiza também, entre outros, a produção do SAF (combustível sustentável de aviação).

A Refinaria de Petróleo Riograndense está sendo convertida para uma biorrefinaria, cuja matéria prima serão óleos vegetais e gorduras e os produtos o Diesel Verde, Bio-GLP (Gás Renovável de Cozinha), SAF e Bioaromáticos, insumos verdes para a indústria.

Ressaltamos também o Convênio estabelecido entre BNDES e Petrobras para pesquisar e mapear terras raras e matais estratégicos, essenciais para o Brasil avançar na transição energética e inovação tecnológica.

O Brasil tem potencial para ser campeão como país limpo e sustentável.

A nível federal o Brasil deve valorizar a produção de veículos elétricos nacionais – carros, utilitários, caminhões e ônibus – 

Somos a segunda reserva de terras raras e metais estratégicos. O país deve realizar parcerias internacionais capazes de realizar a mineração e o seu beneficiamento. Igualmente valorizar a indústria de baterias a lítio ou sódio. Igualmente incentivar a produção de Hidrogênio Verde, útil em vários usos sustentáveis, inclusive podendo substituir as baterias nos veículos elétricos com equipamentos chamados de células de hidrogênio.

O Brasil também poderá ser campeão como país limpo e sustentável. Os(as) brasileiros(as) e a natureza do planeta agradecerão!

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.


Editado por: Vivian Virissimo

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