Vozes da Capital

Vozes da Capital é uma coluna colaborativa onde você vai encontrar todo tipo de assunto apresentado por escritores de diferentes raças, gêneros, credos, gerações, profissões e interesses, com textos sempre voltados para o cotidiano da capital federal. Organização de Naiara Lira e Antônio Tegethoff.

O Samba pede passagem

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O grupo Sambadeiras de Roda se apresenta no Complexo Cultural de Planaltina | Crédito: Foto: Davi Mello/ Divulgação

Rodas de samba são espaços sagrados

Maíra de Deus Brito*

Quando fui convidada para escrever na coluna Vozes da Capital fiquei muito feliz e ansiosa para colocar no mundo algumas ideias que fervilham há algum tempo por aqui. Feliz pois é um espaço plural em que poderemos escrever e ler sobre Brasília (minha cidade amada tão maltratada por gente careta e covarde) e ansiosa para compartilhar meus incômodos sobre o cenário do samba na cidade. 

Sou jornalista e há 20 anos estudo música, sobretudo, Samba – aqui em maiúsculo para colocá-lo em outro patamar de importância. Nessas duas décadas vi e vivi muita coisa. Vi, por exemplo, o projeto Plano B apresentar para gente músicos incríveis que, inclusive, ganharam o mundo e levaram sua arte para além do quadradinho. Várias pessoas que batiam ponto toda sexta-feira no Arena também iam no Samba da Comunidade, na Ceilândia, ou no saudoso Calaf acompanhar as terças-feiras do Adora-Roda (hoje, 7 na Roda). Ali, nos ensinaram a ouvir Cartola, Nelson Cavaquinho, Dona Ivone Lara, Beth Carvalho. 

Outro dia, ao conversar com meu irmão de santo Khalil Santarém, integrante do grupo (de Samba) Filhos de Dona Maria, ele me chamou atenção para as rodas de samba: como as rodas têm a função de nos alegrar, óbvio, mas também de nos ensinar novas músicas e apresentar novas cantoras/es e compositoras/es. A roda de samba é uma escola. 

Observando com cuidado, faz sentido pensar que as rodas de samba nunca são apenas uma roda de samba. São espaços sagrados, com fundamento, de ensino-aprendizagem. Locais para celebrar a ancestralidade, porque se você não sabe de onde veio, não é possível saber para onde vai. 

As rodas de samba da cidade se multiplicaram e descentralizaram ainda mais. Bom e ruim. Bom porque hoje eu vejo nos quatro cantos Samba da máxima qualidade. Ruim porque tem muita gente achando que dá para fazer Samba de qualquer jeito. 

Quando a roda não se impõe, o público não compreende o tamanho daquilo que está acontecendo. Existe sim uma magia na roda. Ao longo do tempo, o público de Brasília (e não brasiliense, veja bem) se desacostumou a viver a roda de samba com o devido cuidado. É uma avalanche de problemas: repertório ruim (privilegiando outros gêneros que não o samba, esquecendo os clássicos, ignorando as boas novas); público acomodado com o mais do mesmo (rejeitando preciosidades do Samba só porque “não sabem cantar”); espaços que desvalorizam músicos e musicistas (o pessoal também tem boleto para pagar e a pouca transparência em relação ao couvert dificulta a adesão); e a falta de noção e educação da branquitude em um espaço que é negro. O Samba é negro e ponto final

Antes que argumentos frágeis surjam, explico que os gêneros musicais podem conversar entre si e que pessoas não-negras podem frequentar/tocar em rodas de sambas. Essa conversa não é sobre exclusão, mas sobre respeito. Muito me preocupa a falta de interesse das pessoas em pesquisarem o Samba. Existe tanta obra bonita do passado e do presente e ainda assim insistem no pop mais sem tempero que existe. Tanta coisa boa deixada de lado só para fazer o hype. 

Uma das características da branquitude é seu pacto narcísico que dificulta a aceitação dos seus privilégios na sociedade. Com o tempo e com dinheiro, a branquitude se sentiu à vontade em insistir em cansativos repertórios formados apenas pelo Lado A dos artistas; impulsionar rodas de samba pouco democráticas (lugar de mulher também é no Samba); alimentar espaços onde pessoas negras se sentem pouco ou nada à vontade. É inacreditável pensar que existem locais ditos de samba onde pessoas negras são hostilizadas física e emocionalmente.  

A branquitude não sabe pedir passagem: chegou nas rodas de samba sem pedir licença às mais velhas e mais velhos, impôs sua cultura, tem dificuldade com o diálogo. Ela é a mesma que sai esbarrando na gente nas rodas, não pede licença nem obrigado, zomba da dança, não para de conversar, atrapalhando o andamento da música. 

Ao apontar para a branquitude, não falo de uma pessoa específica. Como explica a psicóloga Maria Aparecida Bento, branquitude é o conjunto de “traços da identidade racial do branco brasileiro”. Mas se a carapuça serviu, fica a lembrança que essa não é a primeira vez que o Samba é tratado como mercadoria qualquer. O Samba agoniza, mas não morre e nós, devotas do Samba, sempre daremos um jeito para que fique bom outra vez o nosso cantar. 

Licença. O Samba, com S maiúsculo, pede passagem. 

*Maíra de Deus Brito é mulher preta de axé, jornalista, professora e pesquisadora. 

**Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha do editorial do jornal Brasil de Fato – DF.

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Editado por: Clivia Mesquita

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