CHARGE POLÍTICA

Olívio Dutra alerta que democracia não pode andar por um fio ao falar de livro de Schröder e Ssó

Obra está em pré-venda na Loja Brasa, em Porto Alegre, e reúne charges produzidas entre 2018 e 2022

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Livro 'Democracia por um Fio', de Celso Schröder, com textos de Ernani Ssó e prefácio de Olívio Dutra
Livro ‘Democracia por um Fio’, de Celso Schröder, com textos de Ernani Ssó e prefácio de Olívio Dutra | Crédito: Divulgação

“Tem gente que fingiu que não aconteceu, tem gente que tentou esquecer e tem o Celso Schröder, que desenhou tudo enquanto o absurdo acontecia em tempo real.” As palavras são do ex-governador do Rio Grande do Sul e ex-prefeito de Porto Alegre Olívio Dutra, ao recomendar o livro Democracia por um Fio – uma vacina contra vermes e vírus, de Celso Schröder e Ernani Ssó.

A obra está em pré-venda na Loja Brasa, na rua José do Patrocínio, 607, esquina com a rua Luiz Afonso, no bairro Cidade Baixa, em Porto Alegre. O espaço funciona como livraria, gibiteria e bar e reúne intelectuais, escritores, jornalistas e leitores.

Olívio Dutra, em depoimento publicado no Instagram, recomenda a leitura e afirma que quem está dando a dica é alguém que conhece bem a luta pela democracia e sabe da importância de não deixá-la andar por um fio.

Mais do que uma coletânea de charges, Democracia por um Fio é um retrato crítico de um dos períodos mais turbulentos da história recente do Brasil. Com 106 páginas, a obra reúne uma seleção de charges produzidas por Schröder entre 2018 e 2022, anos em que o Brasil mergulhou em um redemoinho autoritário, com o absurdo deixando de parecer exceção na vida política nacional.

Ao lado dos desenhos, o livro apresenta textos de Ernani Ssó, que ajudam a reorganizar a memória coletiva de um período marcado pela violência política, pela desinformação e pela destruição sistemática das mediações democráticas. “Esta obra não é movida apenas pela indignação. É também uma prova de sobrevivência cultural”, diz Schröder.

“Enquanto o país flertava com o autoritarismo, a charge sempre realizou aquilo que sempre fez de melhor: apontar o ridículo do poder. Com humor, ironia e inteligência, Democracia por um Fio transforma perplexidade em memória e memória em resistência”, enfatiza.

Os textos de Ssó costuram e contextualizam as charges. O prefácio é do próprio ex-governador. Em tempos de disputa de narrativas e de memória curta, o livro se apresenta como contribuição para compreender o país no período recente e os caminhos em disputa durante o atual contexto eleitoral.

Livro reúne trabalhos produzidos entre 2018 e 2022, período do governo Bolsonaro
Livro reúne trabalhos produzidos entre 2018 e 2022, período do governo Bolsonaro | Crédito: Divulgação

Trajetória ligada ao jornalismo

Celso Augusto Schröder é cartunista, jornalista, professor e trabalhou no Correio do Povo como chargista. Foi professor da PUCRS por 40 anos, estudou Sociologia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) e presidiu entidades como o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RS (Sindjors) e a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), além de ter participação em organizações internacionais de jornalistas.

Atualmente, Schröder está no Jornal O Grifo, da Associação dos Grafistas do RS, publicação de linha editorial crítica e irônica que reúne colaboradores de diversas regiões do Brasil e também do exterior, combinando jornalismo e humor gráfico. “Fazer Jornalismo e cartum não é uma opção, é uma condição”, diz.

O cartunista nasceu em Porto Alegre há 73 anos, mas diz que é de Santo Ângelo, pois foi na cidade missioneira que passou os primeiros 18 anos de vida. Tem dois irmãos mais novos, Marco Aurélio e Isabel Cristina. É filho do técnico em Contabilidade Augusto Schröder e da professora Ivete.

Da infância, ainda recorda os medos: da morte, das coisas não compreendidas, da infinitude. De família muito católica, define a primeira comunhão como um dos momentos mais felizes daquela época. “Minha primeira comunhão não resistiu à primeira aula de ciências e comecei a ser ateu porque minha decisão não afetava em nada a minha vida”, justifica.

Schröder sempre teve gosto pela leitura desde a infância. Aos 9 anos, ganhou a coleção inteira de Monteiro Lobato. Era da classe média baixa e, por isso mesmo, começou a ver a sociedade como um todo e a perceber as diferenças sociais e o enorme abismo existente no Brasil entre pobres e ricos.

Aos 13 anos, enquanto o rock’n roll surgia com ímpeto na sua vida, foi trilhando o caminho da busca de ações para movimentar o seu mundo. Acabou em um internato em Ijuí e, por lá, despertou para a política, mesmo o colégio sendo conservador. Voltou para casa e adotou uma postura agressiva diante da sociedade local. Questionava tudo e, aos 18 anos, descobriu o trotskismo, teoria ideológica de Leon Trótski que prega que a revolução deve ser internacional e contínua para sobreviver.

Schröder se mudou para Porto Alegre e tentou fazer Arquitetura na Ufrgs porque gostava de matemática e tinha talento para desenhar. Rodou. “Até foi bom. Muitos dos meus colegas seguiram na Arquitetura, mas a maioria saiu de lá cartunista, como o Santiago e Edgar Vasques”. Casou aos 21 anos com uma namorada de Santo Ângelo e fez Arquitetura na Unisinos, mas acabou desistindo.

Uma das charges do livro aborda memória política e episódios controversos do governo Bolsonaro
Uma das charges do livro aborda memória política e episódios controversos do governo Bolsonaro | Crédito: Divulgação

Militância no grupo Libelu

Schröder descobriu que não era seu negócio fazer projetos elétricos e hidráulicos. O trabalho para o sustento da família era aliado à paixão pelo desenho. Teve a primeira filha em 1974, Karina. Logo em seguida, publicou na extinta Folha da Manhã o primeiro cartum. Depois, participou do livro 14 Bis, obra que reunia desenhos de 14 cartunistas e recebeu elogios até de Luis Fernando Veríssimo.

Nasceu aí a paixão pelo jornalismo. Schröder fez o curso na PUCRS e os agitos da época, entre os anos 1970 e 1980, o levaram para o grupo Liberdade e Luta (Libelu), onde participou dos primeiros movimentos de rua de Porto Alegre. Também se filiou ao PT assim que o partido foi fundado.

Passou pelo Correio do Povo como diagramador e entrou na carreira de professor na universidade onde havia estudado. Também começou uma longeva trajetória no sindicalismo e teve mais dois filhos, Paula e Gabriel, não com a namorada das Missões, mas com a jornalista Dica Sitoni, de quem já se separou.

“Tenho a convicção, desde cedo, de que as virtudes são construídas e exigem dedicação”, afirmou em entrevista para o site Coletiva em uma de suas tantas participações na imprensa. “Sou um materialista no sentido de não ver nada além da manifestação da matéria. Minha posição em relação ao mistério é de que não é dado ao ser humano a capacidade de compreensão”.

Sendo assim, procura fazer tudo da melhor maneira possível. “O que vai ficar é a lembrança das coisas que fiz, e sei que essa lembrança também é efêmera”, define.

Ernani Ssó, um caso raro de viver só da literatura

Ernani Ssó é uma figura da região dos Campos de Cima da Serra. Nasceu em Bom Jesus, passou por Vacaria, onde o conheci, no seu jeito intelectual, solitário. O seu gênio logo se expandiu. Se tornou escritor, tradutor e um mestre do humor literário. Desde os anos 1970, vive exclusivamente da literatura, transitando com naturalidade entre o romance, o conto e a literatura infantojuvenil. É autor de dezenas de livros e também traduziu Miguel de Cervantes em edições brasileiras de Dom Quixote. O nome de registro é Ernani Ferreira da Fonseca Rosa.

Ssó mora em Porto Alegre e está com 72 anos. Trabalhou como repórter em 1975, fez pesquisas para o IBGE e, em 1984 e 1985, foi editor em uma pequena editora. Foi colunista da revista eletrônica Coletiva.net e do jornal eletrônico Sul21.

O escritor traduz exclusivamente do espanhol, língua que aprendeu de forma autodidata. Começou a traduzir em 1987, para a editora L&PM, Seis problemas para Isidro Parodi, de Jorge Luis Borges. O escritor argentino morreu nesse meio tempo e o contrato não foi assinado. Em seguida, traduziu Borges por Borges (Borges por él mismo), também para a L&PM, de Emir Rodríguez Monegal.

Traduzir Dom Quixote, livro de dois volumes e 1.328 páginas, foi escolha do próprio escritor e tradutor. Ssó iniciou a primeira leitura da obra original aos 17 anos, mas não conseguiu finalizá-la, optando por estudar autores contemporâneos, como Borges e Cortázar.

Posteriormente, com a publicação da tradução portuguesa pela editora Civilização Brasileira, realizada pelos viscondes de Castilho e Azevedo, do século XIX, leu a obra novamente e avaliou que o humor encontrado no original de Cervantes havia se perdido na tradução. Nos anos 1990, 30 anos depois da primeira tentativa, decidiu traduzir a obra em um português mais ágil e compreensível aos leitores.

Ssó ofereceu a tradução a várias editoras até que, depois de mais de dez anos, a Penguin-Companhia aceitou publicar. Laura Janina Hosiasson, professora de literatura hispano-americana na USP, comentou a tradução em reportagem da Folha de S.Paulo publicada em 27 de abril de 2013, intitulada “Nova tradução aproxima clássico Dom Quixote de leitor atual”. Segundo a professora, “de fato, a leitura flui num português acessível, sem necessidade quase de notas de rodapé, e a tradução consegue seguir o ritmo de Cervantes com fidelidade e leveza, o que não é pouco”.

Além de traduzir, Ssó já deu palestras sobre tradução na Ufrgs, na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), no Salão do Livro de Belo Horizonte, na Feira do Livro de Porto Alegre e no Instituto Cervantes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro e de São Paulo. Também ministrou oficinas de tradução na Feira do Livro de Porto Alegre e no Instituto Cervantes de Porto Alegre. Ganhou 14 prêmios, conforme biografia do autor, pelos mais de 20 livros publicados.

Editado por: Marcelo Ferreira

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