Mudanças de rumo

Aproximação da Rússia com o Sul Global por causa da guerra na Ucrânia é irreversível, diz analista

Marco Fernandes analisa a virada da Rússia em direção ao Sul Global e os quatro anos de guerra na Ucrânia

O presidente russo, Vladmir Putin
O presidente russo, Vladmir Putin | Crédito: Maxim Shipenkov/POOL/AFP

“O Ocidente tentou asfixiar financeiramente a Rússia com um caminhão de sanções em 2022. Não deu muito certo. Até hoje já foram 19 rodadas, mas não conseguiram essa asfixia. O resultado foi que a Rússia encontrou formas e maneiras de driblar essas sanções se aproximando do Sul Global.” A análise é de Marco Fernandes, analista geopolítico, no podcast O Estrangeiro da Rádio Brasil de Fato.

Fernandes aprofundou o tema da reorientação geopolítica russa. “O comércio entre Rússia e China já está em mais de US$ 240 bilhões por ano. A China compra hoje cerca de metade do petróleo russo que deixou de ir pra Europa. A Índia compra quase 40% do petróleo russo, arriscando sanções dos Estados Unidos.”

Do ponto de vista da desdolarização, as mudanças são profundas, visto que o comércio entre Moscou e Pequim já é praticamente 100% feito em rublos e renminbi e, entre Rússia e Índia já está em 60% ou mais em rúpias e rublos. “Essas tendências não voltam mais atrás. A Rússia sabe que não tem como confiar nos Estados Unidos e muito menos na Europa.”

O correspondente do BdF na Rússia, Serguei Monin, complementou com um conceito interessante. “Na Rússia, fala-se em ‘maioria global’. É uma forma de dizer que a maior parte do mundo não está contra a Rússia. Quem está isolado é a Europa e os Estados Unidos.”

Ele citou o acadêmico Sergei Karaganov, membro do Conselho de Segurança Nacional da Rússia. “Karaganov diz: se Pedro, o Grande, fosse vivo hoje, ele fundaria uma capital na Ásia, porque o nosso futuro está na Ásia, não está mais na Europa.”

Os interesses que mantêm a guerra na Ucrânia viva

Serguei Monin atualizou o cenário das negociações que voltaram à tona nos últimos meses. “No final do ano passado, tivemos um plano de paz apresentado por Trump, que foi encaminhado à Rússia. Nos bastidores, houve pontos acordados e outros discordantes. Pela primeira vez em muito tempo, a gente está falando de termos concretos.”

Ele destacou, no entanto, que a terceira rodada de negociações envolvendo Ucrânia, Rússia e Estados Unidos não trouxe resultados concretos. “Não houve declaração conjunta, não houve acordos acertados. Mas ao mesmo tempo, foi a primeira vez que as declarações dos chefes de delegação foram mais próximas nos termos. Todo mundo falou em avanços substanciais, negociações difíceis, mas trabalhos objetivos.”

Para Monin, os indícios são de que a diplomacia está mais avançada. “As coisas estão acontecendo mais a portas fechadas. Não vemos discussões sendo feitas através de vazamentos à imprensa. Isso dá um indício de que as negociações estão sérias.”

Marco Fernandes aprofundou a análise sobre por que o conflito se prolonga. “Há altíssimos interesses em jogo. Nos Estados Unidos, há uma avaliação já antiga, ainda no governo Biden, de que a guerra contra a Rússia é um desperdício de recursos. O inimigo estratégico real, que ameaça de fato, chama-se China. Perder tempo com a Rússia é perder recursos, energia, dinheiro e não focar na China.”

Ele apontou, no entanto, que a Europa tem forte interesse na continuidade da guerra. “A Rússia se tornou a melhor das desculpas pro sonho dos neoliberais, que já dura 40 anos na Europa: acabar com o welfare state, acabar com o Estado de bem-estar social. Merz na Alemanha, Starmer na Inglaterra, Macron na França já dizem publicamente: não podemos mais pagar escolinha, hospitalzinho e aposentadoria pros velhinhos, porque nós temos uma grande ameaça que se chama Rússia.”

Fernandes destacou o paradoxo: enquanto a Europa tenta se reindustrializar via militar, os Estados Unidos já não têm tanto interesse na guerra, mas continuam operando. “O maior interessado em que essa guerra continue hoje chama-se Europa e as três principais potências europeias.”

Monin refletiu sobre o que significaria uma vitória para a Rússia: “Putin precisa mostrar, sobretudo para a população, uma vitória contundente para justificar quatro anos de guerra. Centenas de milhares de russos morreram, foram para a guerra. Eles voltam veteranos. Você tem um efeito social muito difícil. A Rússia tem experiência disso na guerra do Afeganistão, na guerra da Chechênia.”

Fernandes acrescentou um dado estarrecedor sobre os custos da guerra, segundo a Reuters é estimado em quase US$ 600 bilhões nos próximos 10 anos para reconstruir a Ucrânia.

“Somando o que já foi gasto militarmente por Estados Unidos e Europa, cerca de US$ 400 bilhões, estamos falando de US$ 1 trilhão. Para comparação, a Nova Rota da Seda chinesa mobilizou US$ 1 trilhão em 10 anos para promover uma revolução da infraestrutura em dezenas de países. Aqui, estamos falando de US$ 1 trilhão gasto em destruição”, destaca.

Para ouvir e assistir

O podcast O Estrangeiro vai ao ar semanalmente às quartas-feiras às 15h, disponível nos canais do Brasil de Fato.

Editado por: Luís Indriunas

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