Se a pandemia do novo coronavírus alterou as formas de se relacionar, de produzir e de consumir arte, para os artistas das periferias essas mudanças foram ainda mais profundas, já que a falta de suporte é um problema que os acompanha há muitos anos. A partir daí a necessidade de fortalecer laços comunitários, de apoio mútuo, ganhou ainda mais espaço nas periferias.
É o que conta a poetisa Priscila Ferraz, de Recife, entrevistada de hoje (30) na edição do Programa Bem Viver. Ela faz parte do “Coletivo de Poetas Marginais do Recife”, fundado durante a pandemia para adaptar as formas de expressão artística às necessidades de isolamento social exigidas para conter o avanço do novo coronavírus.
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“Estou lançando meu segundo fanzine digital, algo que nunca tínhamos ouvido falar. Eu era acostumada a recitar para pessoas na rua e a gente começou a fazer isso para uma tela. Foi uma mudança que trouxe também um movimento de busca, de estudar o que poderia ser feito e quem poderíamos alcançar”, disse. “Lançamos também audiozines, para as pessoas com deficiência visual. A literatura, marginal ou não, tem que chegar para todos. Se minha poesia não chega a uma pessoa que não foi alfabetizada, então ela não faz sentido.”
Apesar de todos os prejuízos da pandemia, esse processo marcou um momento de fortalecimento das relações comunitárias e sociais entre os artistas das periferias, conta Priscila.
“Dentro das periferias temos a cultura de construir tudo horizontalmente. A periferia é matriarcal. Não há uma pessoa que nasceu na periferia que não foi cuidado pela mãe de alguém e nós, que somos mães, hoje também cuidados de outras crianças. A produção de cultura na periferia bebe muito nisso e a gente acolhe as pessoas que estão próximas, dando suporte um ao outro.”
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Ela avalia, no entanto, que é importante não romantizar esse processo. “Se eu preciso fazer um vídeo não vou até o centro da cidade. Eu vou chamar um profissional da periferia que sei que faz isso, ou na casa de alguém usar o cenário. Poém eu não quero romantizar esse processo, porque ele traz a problemática da falta de estrutura para essas produções culturais”, avalia.
“É muito importante que a produção cultural que sai da periferia seja validada, sem passar pela academia, porque esses saberes são saberes adquiridos com pessoas mais velhas e com suas vivências, são conhecimentos empíricos e ancestrais. Minha arte conecta pessoas nas favelas do Rio e do Recife, falando da mesma temática, eu entendo que isso é uma tecnologia ancestral, que nos conecta.”
Insegurança alimentar
Uma alimentação saudável e de qualidade é fundamental para a saúde de todos os indivíduos. Porém, quando os alimentos não estão disponíveis na quantidade, na variedade e na qualidade necessária temos uma situação crítica conhecida como insegurança alimentar, que ultrapassa o problema nutricional e tange questões econômicas, políticas e sociais.
A nutricionista Caroline Dalabona, que trabalha na Pastoral da Criança, pontua que insegurança alimentar e a fome são termos que se conectam, porém o primeiro diz respeito a privação de um direito humano: a alimentação de qualidade.
“Insegurança alimentar é um termo utilizado quando uma pessoa não tem acesso regular e permanente de alimentos em quantidade e qualidade suficiente para sua sobrevivência”, disse. “Isso significa uma violação de direito. A alimentação adequada e saudável, em quantidade e de forma permanente, é um direito de todo ser humano. A fome crônica é uma violação de direitos.”
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A insegurança alimentar, no entanto, não está relacionada apenas a ausência de alimentos, mas também a falta de variedade e de qualidade naquilo que é consumido. Desta forma, é possível que uma pessoa tenha acesso a alimentos, mas que eles sejam tão pobres em nutrientes que ainda assim ela fique em uma situação de insegurança alimentar, formando os chamados “desertos alimentares’.
“São lugares onde não chegam alimentos saudáveis, só os ultraprocessados, que não nos fornecem todos os nutrientes que precisamos. Aí ocorre a fome oculta: a pessoa tem acesso a alimentos, mas muitos industrializados ou sem a variedade necessária. Ela consome mesma coisa diariamente e isso faz com que ela não consiga ter acesso a todos os nutrientes, em especial os micronutrientes”, afirma Caroline.
Em décadas recentes, o Brasil deu sinal de mudanças no desafio histórico de garantir segurança alimentar e nutricional para toda população. Em 2014, o país chegou a sair pela primeira vez do "Mapa Mundial da Fome", das Nações Unidas, indicando que houve uma redução considerável nos percentuais de pessoas que não tinham acesso a alimentos na quantidade e qualidade necessária.
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O segredo para rever a situação foi o investimento em políticas públicas eficazes de inclusão social e de redistribuição de renda, como por exemplo o Programa Bolsa Família. Nos últimos anos, no entanto, as iniciativas não apenas perderam força como ocorreu um desmonte de políticas públicas, o que resultpou no agravamento da insegurança alimentar, em especial com a pandemia do novo coronavírus.
Arte e resistência
No mês que celebra o orgulho LGBTGIA+, o duo “2DE1”, destaque no cenário da musical paulista, lançou uma nova música que fala sobre o direito de amar. A faixa “Emersão” é inspirada no bar novaiorquino Stonewall, onde teve início articulação para defender os direitos da população LGBT.
O “2DE1” é formado pelos irmãos santistas Felipe e Fernando Soares e tem como marca registrada explorar temas que estão em voga no debate público. O desejo de um futuro mais inclusivo e a esperança nas mudanças que virão são pontos constantes no trabalho da dupla.
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Um dos versos de “Emersão”, por exemplo, simboliza muito o que parte da população busca acreditar nesse período: “fé no que virá, mais rápido do que pensa, em um mundo menos opressor”
“Juntos podemos vislumbrar um futuro diferente para todos, onde possamos amar sem medo, onde a autonomia para amar e existir não exclua o acesso a empregos dignos e ao direto a habitação e a saúde”, disse Fernando Soares, em entrevista ao Programa Bem Viver.

Produção da Rádio Brasil de Fato vai ao ar de segunda a sexta-feira / Brasil de Fato / Bem Viver
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