Conversa Bem Viver

‘A arte é universal quando as pessoas se reconhecem’, diz diretor do filme O Último Episódio

Novo longa da Filmes de Plástico, produtora cujas tramas trazem pessoas negras e periféricas sem estereótipos

O Último Episódio retrata a trajetória de amadurecimento de três adolescentes da periferia, a partir de narrativas criadas sobre o fim da animação Caverna do Dragão
O Último Episódio retrata a trajetória de amadurecimento de três adolescentes da periferia, a partir de narrativas criadas sobre o fim da animação Caverna do Dragão | Crédito: Divulgação

Depois de sucessos como Marte Um, que quase disputou o Oscar em 2023, O Dia em que Te Conheci, Baronesa e No Coração do Mundo, o novo longa da Filmes de Plástico chega aos cinemas de todo o Brasil nesta quinta-feira (9). O Último Episódio retrata a trajetória de amadurecimento de três adolescentes da periferia, a partir de narrativas criadas sobre o fim da animação Caverna do Dragão.

A obra gera reconhecimento e identificação, algo que já é marca da produtora de Contagem (MG). Por isso, como aposta o diretor do filme, Maurílio Martins, deve emocionar a todos os públicos. 

“É um filme que retrata um momento muito específico do mundo, no qual a comunicação era distinta e passávamos por uma crise econômica que as novas gerações não entendem, mas as dores são iguais às de hoje. As dores do crescimento são iguais em qualquer lugar do mundo. Por isso, a identificação é muito imediata, tanto para quem está vivendo, quanto para quem já viveu essas situações”, explica, em entrevista ao Conversa Bem Viver

O enredo parte da história criada por um dos adolescentes, que, com o objetivo de conquistar uma colega de escola, diz que tem uma fita com o último episódio do desenho que marcou as gerações dos anos 80 e 90. Mas, no desenrolar da narrativa, vão ficando claros os dilemas enfrentados pelos jovens. A busca por um novo amor, dificuldades financeiras familiares e ausência parental são alguns deles. 

Tudo isso mantendo características fiéis da Filmes de Plástico, como o olhar cuidadoso ao cotidiano, a representação de pessoas negras sem estereotipá-las e a sensibilidade que gera intimismo. 

“Como os nossos filmes partem da sinceridade e de um olhar muito profundo sobre o nosso cotidiano, automaticamente, esses personagens e essa geografia saltam para frente das telas. O triste é saber que isso não existe com tanta frequência nos outros lugares. Mas, de nossa parte, não é um panfleto. É natural. A Filmes de Plástico parte do princípio da sinceridade sobre aquilo que nos rodeia”, enfatiza Martins. 

A produtora, que comemora os seus 16 anos de história, conta também com André Novais Oliveira, Gabriel Martins e Thiago Macedo Correia. Além dos dois primeiros, o elenco de O Último Episódio tem a participação de Matheus Sampaio, Rejane Faria e Babi Amaral. A distribuição é da Malute e da Embaúba Filmes.

Confira a entrevista completa:

Brasil de Fato – Sempre foi uma inquietação sua nunca ter visto o último episódio de Caverna do Dragão?  Como isso o estimulou na produção de O Último Episódio?

Maurílio Martins – Eu acho que não tem como qualquer pessoa que tenha vivido na minha época ter passado incólume por isso, especificamente no início dos anos 90, quando a gente ainda não tinha a Revista Herói.

A revista surge no meio dos anos 90 e termina um pouco com esse mistério, porque ela anuncia que não haviam feito o final de Caverna do Dragão. Mas, até o surgimento dessa revista, tínhamos dúvidas se existia, se não existia, se alguém tinha visto, se não tinha visto, etc. 

Eu brinco que essa talvez era uma grande lenda relacionada ao audiovisual e à minha geração. Existe ou não? Alguém viu ou não esse final? Partimos dessa premissa para fazer um filme muito universal, com todas as marcas associadas a Filmes de Plástico.

É um filme, de certo modo, até intimista, porque é muito atravessado pelas nossas vidas, pelas nossas coisas. Em alguns momentos, esse atravessamento é literal, com fotos em que aparecem a minha família, os meus amigos, um vídeo no qual eu também apareço etc. 

Há, então, essa junção, pegando um plot tão maravilhoso e caro para nossa geração e embarcando em uma jornada de amadurecimento e de descoberta do mundo. Tudo isso embalado pelo nosso modo de fazer filmes. Já estamos há 16 anos fazendo filmes, que são diferentes entre si, mas que carregam uma marca. 

Conseguimos criar um modo de olhar para um espaço e para algumas pessoas. É uma junção muito feliz entre querer contar sobre o próprio espaço e a própria vida com a cinefilia, fazendo isso a partir de uma linguagem de cinema universal, em que todos se reconheçam. Queremos seguir fazendo filmes na porta de casa, mas com cada vez mais alcance a um público amplo. 

Qual é a concepção do filme O Último Episódio e a qual público ele é destinado?

Muitas vezes partimos da ideia de que um filme com adolescentes já merece uma catalogação prévia. Não vou entrar aqui no mérito sobre quem faz essas catalogações, nem se isso é bom ou ruim. Mas existe uma catalogação prévia de que filmes de aventura com adolescentes são para o público infanto-juvenil. 

Isso inclusive gera ruídos, impactando, por exemplo, se o filme vai passar em festivais e em que tipo de festival vai passar. Tudo dentro dessa lógica. Isso não é um problema, mas o filme vai muito além.

O Último Episódio vai ao encontro de um público amplo. Tem esse público mais velho, que vivenciou de perto a despedida da fase analógica do mundo, em relação às tecnologias, e terá camadas de identificação com o filme. Essas pessoas, provavelmente, vão ter assistido também ao Caverna do Dragão

Mas quem não tem a menor ideia sobre o desenho e nunca o assistiu vai se emocionar de igual maneira, porque, antes de tudo, é um filme sobre o processo de amadurecimento de três jovens.

É um filme que retrata um momento muito específico do mundo, no qual a comunicação era distinta e passávamos por uma crise econômica que as novas gerações não entendem, mas as dores são iguais às de hoje.

As dores do crescimento são iguais em qualquer lugar do mundo. Por isso, a identificação é muito imediata, tanto para quem está vivendo, quanto para quem já viveu essas situações. 

Estou falando, por exemplo, das decepções do primeiro amor, das expectativas por um primeiro beijo, das dificuldades de quando você cresce com sua mãe, mas ela é obrigada a se ausentar de casa quase o tempo inteiro por conta do trabalho etc. 

Os apertos econômicos fazem com que eles se movam, com o distanciamento da mãe, que teve que emigrar para os Estados Unidos.  Qualquer pessoa que saiba o mínimo de história entende isso. Esse fluxo segue acontecendo até hoje, com pessoas buscando uma vida melhor. Então, são retratadas essas dores e as formas de lidar com elas, de forma com que isso não os paralise. Eu acho que isso é o mais bonito do filme.

Ainda que o plot seja maravilhoso, ainda que vê-los tentando produzir seja muito bom, para mim, o filme trata principalmente dessa jornada de amadurecimento. Ficamos ali vendo essas crianças tornando-se adolescentes e partindo para um novo tipo de vida. Nos sentimos com o privilégio de poder acompanhar a despedida da infância de três jovens que, por coincidência, estão na periferia. 

É um filme realmente de muitas camadas e isso por si só faz com que seja para qualquer tipo de público. Eu sei que é difícil compreender isso, mas é um filme para todos os públicos, que comunica de diferentes maneiras com um público muito amplo.

Se você viveu naquela época, vai se identificar com alguns daqueles objetos, desenhos e coisas que são faladas, mas, ao mesmo tempo, se você não viveu, também vai se emocionar com obras que retratavam um outro período, uma outra geografia. Eu me emocionei. 

Esse é o caráter universal da arte, a possibilidade de falar de problemas de um modo em que todos, ou pelo menos uma boa parte, se reconheçam. 

O filme aborda também a ausência parental, especialmente do pai. Mesmo sendo um caso particular, diversas crianças brasileiras cresceram e crescem com a ausência da figura paterna. Qual é a importância disso para a narrativa?

Além da narrativa, eu tenho começado a falar sobre isso. Não é algo simples, mas, antes de tudo, a arte também é sobre procurar feridas internas. Todo artista, quando se propõe a  fazer um trabalho, se desnuda muito.

Fazer filme é um processo muito complexo, porque você se coloca de cara aberta para o mundo, você coloca ali coisas que são muito íntimas. Hoje, eu venho compreendendo que a minha obra tem sido uma forma também de lidar com a ausência do meu pai.

Ele morreu em 2003, justamente no ano em que eu estava começando a querer fazer cinema. E, talvez, a pessoa que eu mais queria que tivesse visto qualquer coisa minha era meu pai, porque ele sempre me incentivou e apoiou.

Meu pai estudou até a terceira série. Acho que ele nem sonhava que eu fosse fazer cinema, mas me apoiava em tudo, falava muito sobre eu ter que canalizar a inteligência e fazer alguma coisa, porque isso seria importante para mim. 

Então, quando meu pai morreu, foi muito duro. Eu entrei no cinema a partir daí e começo a querer fazer filmes sempre com esse “fantasma”, com essa ausência. Agora, estou começando a entender que, talvez, O Último Episódio seja o primeiro filme que eu tento de fato comunicar de um jeito mais aberto sobre essa ausência e o quanto ela moldou a minha obra. Isso ainda é difícil para mim, mas, de certo modo, está nos meus filmes.

O Último Episódio não retrata a história do meu pai. É um personagem de ficção. A vida do meu pai não tem nada a ver com aquela, mas a ausência sim. A ausência molda muito o filme e como eu caminho nas artes. Agora, estou tendo coragem de falar mais abertamente sobre isso.

Estamos celebrando 16 anos da Filmes de Plástico, com André Novais Oliveira, Gabriel Martins, Thiago Macedo Correia e Maurílio Martins. Vocês trazem nos filmes destaque para pessoas negras e mulheres negras, mas sem retratá-las de forma estereotipada.  Qual é a importância disso?

Acho que tem uma coisa que é muito básica nisso. Falamos daquilo que vivemos. Aquilo é a minha vida, do André, do Gabriel, etc. Em O Último Episódio, tem um exemplo marcante. A irmã do Cassinho é minha sobrinha, uma menina negra que, de fato, toca teclado e mora na periferia. 

Isso é nossa vida. Eu não conseguiria falar de outra coisa ou povoar o meu filme de personagens. O meu melhor amigo, o Leo, também está no filme, representando o Zena, pai do Cassinho. Eu estou com ele no filme. Na cena do vídeo, aparecemos juntos, abraçados com 12 anos. Aquilo é real.

Eu não conseguiria fazer um filme sobre qualquer época, que retratasse a época da minha infância ou do presente, em que essas coisas não aparecessem. Esses personagens alcançam o protagonismo e as telas de um modo muito natural, fazendo um filme sobre o meu bairro, sobre minha família, sobre as coisas que me rodeiam.

Como os nossos filmes partem da sinceridade e de um olhar muito profundo sobre o nosso cotidiano, automaticamente, esses personagens e essa geografia saltam para frente das telas. O triste é saber que isso não existe com tanta frequência nos outros lugares. Mas, de nossa parte, não é um panfleto. É natural. 

A Filmes de Plástico parte do princípio da sinceridade sobre aquilo que nos rodeia. E, se aquilo que nos rodeia é essa realidade, ela acaba indo para as telas e estando ali com muita particularidade. Não precisei escolher o Leo para fazer o Zena, porque ele é o meu melhor amigo desde sempre.

Não fazemos testes para colocar essas pessoas. Esses personagens surgem na nossa vida porque eles existem na nossa vida desde sempre. 

Conversa Bem Viver

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Editado por: Luís Indriunas

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