Conversa Bem Viver

Temos que blindar a comunidade do estereótipo de criminosa, diz autora de livro de contos sobre ‘Ritas’ do Brasil

A Casa de Rita, livro de Nilza Valeria, retrata realidade cotidiana de mulheres negras periféricas

Nilza Valeria é escritora, jornalista e coordenadora da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito
Nilza Valeria é escritora, jornalista e coordenadora da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito | Crédito: Reprodução/Redes Sociais

Com contos que retratam fragmentos da realidade cotidiana e diversa das mulheres negras brasileiras, a escritora, jornalista e coordenadora da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, Nilza Valeria, lançou o seu primeiro livro, A Casa de Rita

O título da obra é inspirado em uma canção de Chico Buarque, assim como os nomes dados aos contos, que retratam vivências periféricas das muitas Ritas espalhadas pelo Brasil. Cada história possui uma Rita protagonista, mas ainda que elas sejam diferentes, existe algo que as une. 

“É a minha entrada no mundo literário, na qual falo dessas dores, mas tentei fazer isso com leveza, com um certo lirismo, que busquei inclusive na musicologia do Chico Buarque. Uma pessoa que carrega a fé que eu carrego não tinha como abrir mão da esperança. Então, ainda que o livro fale de dores, ele aponta para um lugar melhor, que é esse país que a gente quer construir, um país melhor para todas as Ritas. A Casa da Rita é uma casa de Ritas, para todos nós”, explica a autora, ao Conversa Bem Viver

Uma das cenas iniciais do livro retrata famílias de uma periferia indo buscar corpos em uma mata, o que, apesar de ficcional, remete à chacina nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, que deixou 121 mortos em outubro deste ano. 

Nilza Valeria afirma que não sabe se “é a vida que imita a arte ou a arte que imita a vida”, mas é enfática em afirmar que essa realidade é mais comum e cotidiana do que parece. 

“A gente banaliza e já normatizou essa violência, e só tomamos conhecimento quando jogam luz sobre ela, porque ela acontece o tempo todo para uma determinada camada da sociedade, para uma determinada camada da população. Esse episódio de corpos abandonados na mata e corpos abandonados em outros lugares é uma prática lamentável que a política de segurança pública há alguns anos adota no Brasil”, analisa. 

Para a escritora, a solução para esse cenário passa por ouvir as Ritas, ou seja, pensar junto às comunidades uma nova política de segurança pública. “Precisamos ouvir o que a comunidade tem a dizer sobre segurança”. 

Confira a entrevista completa:

Brasil de Fato –  O que o leitor pode encontrar em A Casa da Rita?

Nilza Valeria – O livro foi uma forma de eu contar histórias que são muito dolorosas, a partir da literatura e da imaginação. O meu trabalho ao longo dos anos, com toda minha experiência profissional, foi construído retratando e reportando essas duras realidades. Me incomodava, ou eu tinha um anseio, acho que mais do que um incômodo, de poder contar essas mesmas histórias de um outro jeito, com outro verniz. A literatura me possibilitou isso.

A Casa da Rita é o meu primeiro livro. É a minha entrada no mundo literário, na qual falo dessas dores, mas tentei fazer isso com leveza, com um certo lirismo, que busquei inclusive na musicologia do Chico Buarque, que dá título a todos os contos do livro, e também com a esperança. 

Eu acho que uma pessoa que carrega a fé que eu carrego, não tinha como abrir mão da esperança. Então, ainda que o livro fale de dores, ele aponta para um lugar melhor, que é esse país que a gente quer construir, que seja um país melhor para todas as Ritas. A Casa da Rita é uma casa de Ritas, para todos nós. 

Por que essa escolha de cada conto ter uma citação de uma música do Chico Buarque?

Não é um livro sobre a obra do Chico Buarque. Eu acho que esse foi o meu momento inspirativo, de trazer para minha literatura algo que me marcou e que me marca há muitos anos, que é a obra dele. É uma obra que eu sempre ouvi, que eu sempre gostei e que sempre me ajudou também a construir pensamentos críticos, às vezes sobre a própria obra dele e sobre a realidade que a gente está inserida.

Então, me senti desafiada a trazer a obra dele para minha literatura, sem falar, sem explicar a obra dele, porque não é um livro sobre a obra dele, mas as músicas dele me traduziram as muitas Ritas ou eram portas de entrada para contar histórias das múltiplas Ritas que permeavam o meu imaginário, mas estavam ancoradas em algum tipo de realidade. 

Eu tenho uma multiplicidade de Ritas em diversos lugares, tanto no Brasil quanto fora do Brasil. E um amigo hoje me disse: “poxa, você devia fazer um mapa. Teria sido muito legal se você fizesse um mapa das Ritas”. E eu falei: “olha, fica aí como uma sugestão, a gente pensar no mapa onde cada Rita se localiza e quais são os caminhos e os percursos que elas foram traçando e fazem com que todas essas histórias se encontrem”.

No livro, a personagem Rita vai se transformando. Em cada conto, a protagonista não é a mesma Rita, mas elas estão conectadas. Qual foi a sua inspiração para construir essa montagem?

Essa é uma história que eu tenho contado nos lançamentos do livro, quando eu falo do título A Casa da Rita e me perguntam por que Rita. Primeiro, era a ideia de que um dia eu seria dona de um bar. Eu tinha esse sonho de ser dona de um bar com algumas amigas e o bar seria A Casa da Rita, por causa da música Rita do Chico Buarque. 

Então, a gente brincava com uma brincadeira de amigas que trabalhavam juntas e que precisavam lidar com a realidade do nosso trabalho, que era um trabalho muito duro. Era um trabalho com comunidades empobrecidas, dentro de comunidades. Então, a gente sonhava com um bar que se chamaria Casa da Rita e a gente pegava a música e descrevia ali: “deixou mudo o meu violão”. 

Na nossa decoração, a gente imaginava um violão sem corda, a imagem de São Francisco, a capa de um disco de Noel Rosa. Isso perseguiu a gente como uma utopia pessoal, que não se concretizaria, porque nenhuma de nós tinha o menor talento para ser dona de bar.

A Rita é uma imagem, é um nome e é uma história que me perseguia de forma real. Eu morei 15 anos em São Paulo e lidei com uma Rita que participou do lançamento do livro e foi muito marcante na minha vida. É uma Rita de verdade, é a Rita. A Rita é uma história belíssima de vida, de superação, de descobrir o valor do conhecimento, o valor do aprendizado. 

Foi uma experiência muito grande ser cliente de uma Rita cabeleireira. Acho que eu faço muita referência a ela no livro também. E esse nome, então, eu achava que era perfeito para dar para as personagens. Um nome curto, simples e que traduzia a história de todas essas mulheres que me inspiraram. 

Então, são duas dimensões com as quais eu fui lidando para escrever todas as histórias das mulheres que se chamam Rita, ainda que esse não seja um livro para mulheres.

O livro também mostra como a sociedade constrói uma carga opressora em cima das mulheres negras?

Sim, e isso me faz lembrar da mega operação policial no Rio de Janeiro, que aconteceu outro dia. Um detalhe me chamou muita atenção ouvindo as mães das vítimas. Estou falando de vítimas que assumidamente faziam parte do tráfico. Essas mães, reconhecendo que os seus filhos estavam envolvidos com o tráfico e com as facções, se desculpavam. Aquilo era muito cortante, elas pediam desculpas. 

Eu vi isso pessoalmente, eu vi isso por meio da imprensa, essas mulheres lamentando e pedindo desculpas pelo comportamento dos seus filhos, como se elas tivessem falhado e falhado miseravelmente na escolha que os filhos tiveram ao aderir a uma facção criminosa. Todas as vezes que eu ouvi esse pedido de desculpa dessas mulheres me cortava de um jeito, com uma dor profunda, uma dor muito grande.

No livro, eu tentei humanizar quem já é humano. Eu tenho muita implicância com o tratamento humanizado, esse termo, porque parece que a gente está falando de seres que não são humanos. E eu digo: “mas que sociedade é essa que a gente tem hoje, que a gente precisa reforçar que a gente vai receber um tratamento humanizado?”. Isso deveria ser natural, porque nós somos humanos recebendo tratamento de outros seres humanos. 

Então, a humanização era o que eu queria destacar, ainda que sejam pobres e ainda que sejam ricas. Há Ritas ricas, há Ritas que viajam, há Ritas que vivem em outras realidades, nos múltiplos contos que tem no livro. E destacar a humanidade de todos nós é o exercício que eu me propus também ao escrever esse livro.

Logo no início do livro, uma cena mostra algo parecido com o que aconteceu após a chacina dos complexos do Alemão e da Penha, com as famílias indo buscar os corpos no mato. Essa proximidade tem a ver com o fato de a violência ser cada vez mais cotidiana? 

A gente banaliza e já normatizou essa violência e só tomamos conhecimento dela quando jogam luz sobre ela, porque ela acontece o tempo todo para uma determinada camada da sociedade, para uma determinada camada da população. Esse episódio de corpos abandonados na mata e corpos abandonados em outros lugares é uma prática lamentável que a política de segurança pública há alguns anos adota no Brasil.

Quando criança, eu ouvia falar desses lugares onde se depositavam corpos. Eu sou do Rio de Janeiro, da Baixada Fluminense, nascida e criada em Duque de Caxias e, de quando em quando, prestava muita atenção na conversa dos adultos. Aquela coisa de que a criança estava sempre ali e eu acho que a conversa dos adultos sempre era muito mais interessante de ser ouvida do que a conversa das crianças. E eu sabia de um ou outro lugar onde corpos eram colocados.

Até que eu mesma me deparo com essa realidade, descrita no livro, não da mesma forma, mas em 2017 e que se repetiu agora em 2025 com uma proporção numérica absurda. O episódio que eu tinha na mente, que eu acompanhei em 2017, foram sete mortos e a gente chega hoje ao número absurdo de 121, recuperados de uma área de mata dentro da comunidade. A vida imita a arte ou a arte imita a vida. De fato, eu não sei dizer qual é a premissa que dá início a isso.

Como precisamos dialogar com a população sobre a segurança pública, considerando as pesquisas de opinião que vieram logo após essa chacina que mostram a legitimação do ocorrido?

Eu não vou cair na resposta fácil de falar de processos educativos, porque educação virou uma palavra e tudo que a gente não tem resposta a gente joga dentro, dizendo que: “tudo começa pela educação, precisa rever a educação”. Essa seria uma resposta muito fácil. 

Me surpreendeu também a pesquisa de opinião sobre a chacina, a operação, e me surpreendeu que, inclusive nas comunidades que são afetadas pela operação policial, a aprovação do fato era maior do que fora da comunidade.

Eu fiquei ali alguns dois ou três dias tentando entender essa informação muito complexa. Nosso campo tem muita dificuldade de ter um discurso bem arrumado sobre segurança pública, que não parta da vitimização do outro.  Conversando com pessoas que vivem em comunidade, elas me falaram que a sociedade de forma geral olha para todo mundo que vive na comunidade como potencial criminoso. 

E eu acho que a pesquisa, de alguma forma, refletiu o descontentamento da própria comunidade em ser vista como potencial criminoso. A gente diz que falta oportunidade e falta oportunidade. Mas tem gente que sai às 4 horas da manhã para ir trabalhar, pega o ônibus e volta. Essa mantém o filho dela trancado dentro de casa, para que ele não seja cooptado. 

Então, a própria comunidade arruma as suas soluções para se blindar da criminalidade, porque a comunidade, em sua maioria, não é criminosa. Acho que a gente precisa chamar de criminoso quem é criminoso e precisa blindar a comunidade, tirando a marca de potencial de crime.

Foi isso que eu aprendi com os dados, lendo os dados, lendo a pesquisa, fazendo o cruzamento desses dados: a gente precisa, sim, ouvir o que a comunidade tem a dizer sobre segurança. 

A gente precisa ir a campo. Só temos respostas com quem tem que dar as respostas para a gente. A academia nos ajuda, as pesquisas nos ajudam, os movimentos nos ajudam, mas precisamos nos aproximar da comunidade e ouvir o que a comunidade tem a dizer sobre isso. Esse tem sido um desafio, porque a comunidade já está muito desconfiada de falar sobre si para nós, porque nós vamos lá para fazer pesquisa, para fazer análise, para fazer mil coisas, mas dá pouca devolutiva. 

Precisamos caminhar com a comunidade e isso vai fazer muita diferença, se quisermos vencer os desafios de segurança que estão postos. Esses desafios já estão aí e não são novos. A literatura e a minha experiência profissional me dizem que nada disso é novo. Tudo o que a gente viu e viveu não é novo. Um texto sábio da Bíblia fala que não há novidades sobre a face da Terra.

Conversa Bem Viver

Em diferentes horários, de segunda a sexta-feira, o programa é transmitido na Rádio Super de Sorocaba (SP); Rádio Palermo (SP); Rádio Cantareira (SP); Rádio Interativa, de Senador Alexandre Costa (MA); Rádio Comunitária Malhada do Jatobá, de São João do Piauí (PI); Rádio Terra Livre (MST), de Abelardo Luz (SC); Rádio Timbira, de São Luís (MA); Rádio Terra Livre de Hulha Negra (RN), Rádio Camponesa, em Itapeva (SP), Rádio Onda FM, de Novo Cruzeiro (MG), Rádio Pife, de Brasília (DF), Rádio Cidade, de João Pessoa (PB), Rádio Palermo (SP), Rádio Torres Cidade (RS); Rádio Cantareira (SP); Rádio Keraz; Web Rádio Studio F; Rádio Seguros MA; Rádio Iguaçu FM; Rádio Unidade Digital ; Rádio Cidade Classic HIts; Playlisten; Rádio Cidade; Web Rádio Apocalipse; Rádio; Alternativa Sul FM; Alberto dos Anjos; Rádio Voz da Cidade; Rádio Nativa FM; Rádio News 77; Web Rádio Líder Baixio; Rádio Super Nova; Rádio Ribeirinha Libertadora; Uruguaiana FM; Serra Azul FM; Folha 390; Rádio Chapada FM; Rbn; Web Rádio Mombassom; Fogão 24 Horas; Web Rádio Brisa; Rádio Palermo; Rádio Web Estação Mirim; Rádio Líder; Nova Geração; Ana Terra FM; Rádio Metropolitana de Piracicaba; Rádio Alternativa FM; Rádio Web Torres Cidade; Objetiva Cast; DMnews Web Rádio; Criativa Web Rádio; Rádio Notícias; Topmix Digital MS; Rádio Oriental Sul; Mogiana Web; Rádio Atalaia FM Rio; Rádio Vila Mix; Web Rádio Palmeira; Web Rádio Travessia; Rádio Millennium; Rádio EsportesNet; Rádio Altura FM; Web Rádio Cidade; Rádio Viva a Vida; Rádio Regional Vale FM; Rádio Gerasom; Coruja Web; Vale do Tempo; Servo do Rei; Rádio Best Sound; Rádio Lagoa Azul; Rádio Show Livre; Web Rádio Sintonizando os Corações; Rádio Campos Belos; Rádio Mundial; Clic Rádio Porto Alegre; Web Rádio Rosana; Rádio Cidade Light; União FM; Rádio Araras FM; Rádios Educadora e Transamérica; Rádio Jerônimo; Web Rádio Imaculado Coração; Rede Líder Web; Rádio Club; Rede dos Trabalhadores; Angelu’Song; Web Rádio Nacional; Rádio SINTSEPANSA; Luz News; Montanha Rádio; Rede Vida Brasil; Rádio Broto FM; Rádio Campestre; Rádio Profética Gospel; Chip i7 FM; Rádio Breganejo; Rádio Web Live; Ldnews; Rádio Clube Campos Novos; Rádio Terra Viva; Rádio interativa; Cristofm.net; Rádio Master Net; Rádio Barreto Web; Radio RockChat; Rádio Happiness; Mex FM; Voadeira Rádio Web; Lully FM; Web Rádionin; Rádio Interação; Web Rádio Engeforest; Web Rádio Pentecoste; Web Rádio Liverock; Web Rádio Fatos; Rádio Augusto Barbosa Online; Super FM; Rádio Interação Arcoverde; Rádio; Independência Recife; Rádio Cidadania FM; Web Rádio 102; Web Rádio Fonte da Vida; Rádio Web Studio P; São José Web Rádio – Prados (MG); Webrádio Cultura de Santa Maria; Web Rádio Universo Livre; Rádio Villa; Rádio Farol FM; Viva FM; Rádio Interativa de Jequitinhonha; Estilo – WebRádio; Rede Nova Sat FM; Rádio Comunitária Impacto 87,9FM; Web Rádio DNA Brasil; Nova onda FM; Cabn; Leal FM; Rádio Itapetininga; Rádio Vidas; Primeflashits; Rádio Deus Vivo; Rádio Cuieiras FM; Rádio Comunitária Tupancy; Sete News; Moreno Rádio Web; Rádio Web Esperança; Vila Boa FM; Novataweb; Rural FM Web; Bela Vista Web; Rádio Senzala; Rádio Pagu; Rádio Santidade; M’ysa; Criativa FM de Capitólio; Rádio Nordeste da Bahia; Rádio Central; Rádio VHV; Cultura1 Web Rádio; Rádio da Rua; Web Music; Piedade FM; Rádio 94 FM Itararé; Rádio Luna Rio; Mar Azul FM; Rádio Web Piauí; Savic; Web Rádio Link; EG Link; Web Rádio Brasil Sertaneja; Web Rádio Sindviarios/CUT.

O programa de rádio Bem Viver vai ao ar de segunda a sexta-feira, às 7h, na Rádio Brasil de Fato. A sintonia é 98,9 FM na Grande São Paulo. A versão em vídeo é semanal e vai ao ar aos sábados a partir das 13h30 no YouTube do Brasil de Fato e TVs retransmissoras.

Assim como os demais conteúdos, o Brasil de Fato disponibiliza o programa Bem Viver de forma gratuita para rádios comunitárias, rádios-poste e outras emissoras que manifestarem interesse em veicular o conteúdo. Para ser incluído na nossa lista de distribuição, entre em contato por meio do formulário.

Editado por: Nathallia Fonseca

|

Newsletter