Agora, nos cinemas, a população brasileira poderá conhecer a trajetória de um dos músicos mais talentosos da nova geração, Moisés Matos. Natural de Juiz de Fora (MG), ele passou 15 anos estudando na Alemanha e está encantando públicos de vários continentes.
O documentário 3 Atos de Moisés, dirigido por Eduardo Boccaletti, conta a trajetória do artista mineiro que, mesmo diante de condições socioeconômicas adversas, desde a infância, cultivou o sonho de tocar piano. Enfrentando a pobreza, o racismo e a homofobia, Matos aprendeu a tocar piano sozinho, inicialmente utilizando um desenho.
“Na sociedade que nós vivemos, eu nasci errado, em todas as naturezas possíveis, no aspecto da minha cor, da minha orientação sexual, etc. As dificuldades são maiores. Mas eu nunca parei. Acho que a chama, aquele amor, era tão grande que eu não parava. Eu acho que esses desafios me fortaleceram, de certa forma, porque criaram uma espécie de capuz, de proteção, para mim”, diz o artista, ao Conversa Bem Viver.
Confira a entrevista completa:
Brasil de Fato: Como foi o processo de criação do documentário?
Moisés Matos: É interessante como aconteceu. Na verdade, tudo começou em um jantar, no qual meu professor de piano estava presente e conheceu a mãe da Carolina Pernisa, que é a produtora do documentário. Ela contou uma história para a mãe dela e a mãe ficou encantada e contou para a filha: “Eu acho que essa história daria um filme, filha”.
A Carol ficou encantada com o filme e me ligou, só que o meu professor não havia me prevenido. Não entrou em contato comigo. A Carol entra em contato comigo falando dessa proposta e, claro, em tempos de fake, em tempos de trotes, eu não acreditei. Falei: “Mas como assim filme sobre minha vida? Quem sou eu para ter um filme sobre minha vida?”.
Eu não acreditei naquela época, mas depois ela ligou mais uma vez perguntando. Eu falei: “Nossa, eu acho que a situação é séria mesmo, eu acho que ela quer fazer um filme sobre minha vida”. Conversei com André, ele falou da história, e tudo começou.
O que da sua história é retratado no filme?
O povo brasileiro é um povo muito criativo, um povo muito diverso, de acordo com as nossas condições, que, infelizmente, no meu caso, era muito precária. Eu nasci de pais analfabetos, que tinham uma condição financeira muito mínima, na parte do intelecto, mas também na parte financeiramente.
Mas o que eu sempre tive na casa dos meus pais era uma coisa que me deu muita força e me dá ainda, que é o amor. Isso, sem dúvidas, é uma coisa primordial. E, na verdade, meu primeiro contato com o piano não vem da casa dos meus pais, porque meus pais nem sabiam o que era piano, na verdade. A gente nem tinha televisão na época.
O que realmente me fascinou com esse instrumento foi eu vendo o Vladimir Horowitz tocando, um grande pianista fantástico. Ele estava tocando em Moscou, na Rússia, e aquela imagem forte me tocou muito, onde a plateia estava chorando.
Eu lembro de um senhor viril, bem sério, fardado, que estava chorando. Aquilo me deixou tão comovido. Falei: “Nossa, esse cara é mágico, ele consegue desenvolver e atrair emoções na pessoa, despertar emoções”. Falei: “Isso eu também quero para mim, isso é o que eu quero fazer”. Foi esse o lance, amor, emoção, mexer com as pessoas, balançar. Acho que essa foi a chave principal de tudo isso.
Agora, eu não sabia também a aventura que eu iria viver através desse sonho. Era um sonho, mas o que iria vir pela frente, o que deveria fazer para isso ser realizado, eu não sabia. Aí começa a aventura. Eu acho que isso está no documentário, eles conseguiram passar de uma maneira muito honesta, mas muito sensível. E é uma grande alegria poder estar compartilhando.
Eu espero que o filme tenha essa contribuição. Mas eu acredito que esse filme demonstra uma face do Brasil que abrange muitas pessoas. Porque nós somos pessoas fantásticas, talentosas, que às vezes não têm oportunidade. E esse documentário mostra realmente as dificuldades que eu vivi durante esse tempo até chegar aos grandes palcos da Europa.
Como você fazia para enfrentar essas dificuldades do início da sua trajetória?
Na sociedade que nós vivemos, eu nasci errado, em todas as naturezas possíveis, no aspecto da minha cor, da minha orientação sexual, tudo meio que equivocado dentro da nossa sociedade hoje em dia. As dificuldades são maiores.
Depois que assisti esse grande pianista pela televisão, não tinha a sombra de dúvidas de que era aquele instrumento que eu queria. Mas a musicalidade da minha mãe, e ela cantava bastante, absorvia isso. Eu frequentava a igreja que ela frequentava. Lá era permitido os homens poderem tocar vários instrumentos, menos o órgão. Era exatamente o instrumento próximo do piano, com teclas, e eu achava que o órgão era muito mais completo. Então, tocar ele era meu sonho.
O que eu queria eu não podia. Eu falei: “Mas como será que eu posso chegar até esse instrumento?”. Comecei a estudar o violino, que até então era possível, era permitido. Eu estava de certa forma próximo do órgão. Foi ali que eu já comecei a tentar achar uma possibilidade de aprender sozinho.
Eu já sabia como funcionava o sistema, só de olhar. O que me veio foi a ideia de criar, no balcão do trabalho do meu avô, desenhar as teclas. Eu tocava violino de sons, de ler notas. Agora, como eu sempre digo, o brasileiro sempre é criativo. A gente sempre tenta fazer aquilo que não tem. “Quem não tem cão, caça com gato”, a gente tenta se reinventar.
Já não era suficiente tocar naquele piano de madeira imaginável, não saía aquela coisa concreta, o som não estava ali. Falei: “mas como é que eu posso realizar isso?”. Pegava, catava, saía na rua, catava sucata, catava vidros, enchia com areia, com água, para tentar realmente dar vida àquilo que era tão lúdico. Foram meus primeiros passos com a música, tentar criar, inventar. Foi meu primeiro contato com o instrumento que eu mesmo criei na época.
Depois, segue a história, sabendo que havia uma escola na minha cidade, onde tinha pianos de verdade. Aí, foi a grande busca, a primeira vez que eu tenho contato com instrumentos de verdade. Foi um desafio, porque eu não podia entrar lá, porque não era aluno. Eu era conhecido na época como “rato do conservatório”. Quando eu chegava lá, algumas pessoas e os porteiros falavam: “Já vem o ratinho”.
Porque era proibido, entrava pelos buraquinhos, era tudo muito escondido, era muito tabu, embora eu não fizesse nada de errado. Eu entrava lá correndo atrás do meu sonho.
Outra barreira que você sempre enfrenta é o racismo. Como isso afetou sua trajetória?
Na verdade, eu não me dava conta, até então, desse processo todo. Me dei conta através do filme, através das perguntas. Eu costumo dizer que esse documentário foi, na verdade, uma terapia para mim. Quando eles começaram a colocar esses desafios, principalmente a questão do racismo e xenofobia, eu nunca tinha parado para pensar. Depois, eu pensei e refleti que, na verdade, eu já sofri muitos abusos, diversos abusos.
Mas eu nunca parei. Eu vivenciava as coisas e esquecia. Ficava em algum lugar na minha cabeça, mas eu não parava para pensar. Acho que a chama, aquele amor, era tão grande que eu não parava. Claro que eu tive momentos muito tristes, dentro da própria família, querendo que eu procurasse, por exemplo, psicólogos, psiquiatras, talvez fosse internado, porque isso não era uma coisa natural, era uma doença que eu tinha.
Eu sempre fui uma pessoa que me perguntava sobre a minha existência, desde sempre, desde muito jovem. Tive essas dificuldades desde sempre. Às vezes, eu parava e pensava em desistir, mas a chama era muito maior, era a necessidade de correr, de buscar algo novo.
Eu acho que esses desafios me fortaleceram, de certa forma, porque criaram uma espécie de capuz, de proteção, para mim. Eu criei, não sei como, mas segui em frente. Através desse filme, quando vieram as perguntas, eu falei: “Nossa, realmente, gente, que coisa louca”.
Um dos pontos culminantes foi uma pergunta dentro do documentário que o diretor havia feito para mim: “Se você pudesse encontrar uma vez essa criança ainda, que tipo de mensagem você passaria para ela?”. Eu não aguentei, chorei bastante, porque eu falei: “realmente, era uma pessoa tão inocente que tinha simplesmente um sonho em fazer a música, que era a coisa mais genuína. Como pode ter tantas pessoas fechando o caminho?”.
Eu realmente fiquei muito comovido com essa imagem e eu diria simplesmente para esse menino: “Olha, vai ser árduo, vai ser muito difícil, mas siga em frente, não olhe para frente, nem para trás, só siga o teu caminho, não olhe para os lados, porque senão você tropeça. Se tiver uma pedra, tem que pular ou desviar, mas não desista”.
Se fosse para comparar entre a Europa em geral e o Brasil, eu sofri, em ambos os países ou continentes, essa questão do preconceito. Mas, no Brasil, foi mais, principalmente no início, com a rejeição em todos os cantos. Mas não desisti. Tinha o racismo mas também a minha orientação sexual. Diziam: “Se você é um pecador, você vai para o inferno”. É uma coisa muito comum no nosso país.
Isso é muito complicado e perigoso. Eu me considero um grande privilegiado, porque tive o discernimento de questionar e não aceitar, porque muitas pessoas não aguentam. A importância desse documentário também é falar sobre isso, porque tem pessoas que realmente não têm coragem. Às vezes, porque a carga é muito grande. Em pleno século 21 que estamos vivendo, ser preto não é uma coisa natural ainda, infelizmente.
Quantos anos passaram da abolição da escravatura? Mas ainda segue esse rastro, que é muito triste. Continua sendo difícil e, para quem quer tentar, principalmente nessa área que é muito concorrida, é muito difícil.
Quais serão os seus próximos passos?
Eu continuo morando na Alemanha. Eu vim ao Brasil agora para o lançamento do filme, do documentário. Eu amo o Brasil. Toda vez que eu venho para cá, eu realmente sinto as minhas raízes novamente, com essa questão da cultura. Para mim, é sempre uma grande alegria voltar aqui. As pessoas mandam beijo, mesmo sem te conhecer. É um afeto muito grande que nós temos aqui.
Há muitos anos eu moro lá, há 19 anos. Me faz muita falta isso, até. Todas as vezes que eu venho para cá, eu tenho que me readaptar a essa cultura fantástica, a esse calor humano. O Brasil realmente é um lugar maravilhoso, que eu amo. Eu adoraria poder voltar aqui, mas infelizmente não temos essa condição de sobreviver com o que eu faço aqui, não é possível ainda.
Lá, eu dou muitas aulas, trabalho, a minha correria continua a mesma. Eu tenho uma família ainda muito necessitada. Meus pais e minha irmã precisam muito de mim. Voltando para cá, não poderia dar esse suporte que eu consigo dar. Então, lá eu continuo trabalhando bastante, dando muitas aulas, e, com o pouco tempo que sobra, eu consigo estudar e faço os meus concertos. Mas é uma vida muito movimentada.
Conversa Bem Viver

Em diferentes horários, de segunda a sexta-feira, o programa é transmitido na Rádio Super de Sorocaba (SP); Rádio Palermo (SP); Rádio Cantareira (SP); Rádio Interativa, de Senador Alexandre Costa (MA); Rádio Comunitária Malhada do Jatobá, de São João do Piauí (PI); Rádio Terra Livre (MST), de Abelardo Luz (SC); Rádio Timbira, de São Luís (MA); Rádio Terra Livre de Hulha Negra (RN), Rádio Camponesa, em Itapeva (SP), Rádio Onda FM, de Novo Cruzeiro (MG), Rádio Pife, de Brasília (DF), Rádio Cidade, de João Pessoa (PB), Rádio Palermo (SP), Rádio Torres Cidade (RS); Rádio Cantareira (SP); Rádio Keraz; Web Rádio Studio F; Rádio Seguros MA; Rádio Iguaçu FM; Rádio Unidade Digital ; Rádio Cidade Classic HIts; Playlisten; Rádio Cidade; Web Rádio Apocalipse; Rádio; Alternativa Sul FM; Alberto dos Anjos; Rádio Voz da Cidade; Rádio Nativa FM; Rádio News 77; Web Rádio Líder Baixio; Rádio Super Nova; Rádio Ribeirinha Libertadora; Uruguaiana FM; Serra Azul FM; Folha 390; Rádio Chapada FM; Rbn; Web Rádio Mombassom; Fogão 24 Horas; Web Rádio Brisa; Rádio Palermo; Rádio Web Estação Mirim; Rádio Líder; Nova Geração; Ana Terra FM; Rádio Metropolitana de Piracicaba; Rádio Alternativa FM; Rádio Web Torres Cidade; Objetiva Cast; DMnews Web Rádio; Criativa Web Rádio; Rádio Notícias; Topmix Digital MS; Rádio Oriental Sul; Mogiana Web; Rádio Atalaia FM Rio; Rádio Vila Mix; Web Rádio Palmeira; Web Rádio Travessia; Rádio Millennium; Rádio EsportesNet; Rádio Altura FM; Web Rádio Cidade; Rádio Viva a Vida; Rádio Regional Vale FM; Rádio Gerasom; Coruja Web; Vale do Tempo; Servo do Rei; Rádio Best Sound; Rádio Lagoa Azul; Rádio Show Livre; Web Rádio Sintonizando os Corações; Rádio Campos Belos; Rádio Mundial; Clic Rádio Porto Alegre; Web Rádio Rosana; Rádio Cidade Light; União FM; Rádio Araras FM; Rádios Educadora e Transamérica; Rádio Jerônimo; Web Rádio Imaculado Coração; Rede Líder Web; Rádio Club; Rede dos Trabalhadores; Angelu’Song; Web Rádio Nacional; Rádio SINTSEPANSA; Luz News; Montanha Rádio; Rede Vida Brasil; Rádio Broto FM; Rádio Campestre; Rádio Profética Gospel; Chip i7 FM; Rádio Breganejo; Rádio Web Live; Ldnews; Rádio Clube Campos Novos; Rádio Terra Viva; Rádio interativa; Cristofm.net; Rádio Master Net; Rádio Barreto Web; Radio RockChat; Rádio Happiness; Mex FM; Voadeira Rádio Web; Lully FM; Web Rádionin; Rádio Interação; Web Rádio Engeforest; Web Rádio Pentecoste; Web Rádio Liverock; Web Rádio Fatos; Rádio Augusto Barbosa Online; Super FM; Rádio Interação Arcoverde; Rádio; Independência Recife; Rádio Cidadania FM; Web Rádio 102; Web Rádio Fonte da Vida; Rádio Web Studio P; São José Web Rádio – Prados (MG); Webrádio Cultura de Santa Maria; Web Rádio Universo Livre; Rádio Villa; Rádio Farol FM; Viva FM; Rádio Interativa de Jequitinhonha; Estilo – WebRádio; Rede Nova Sat FM; Rádio Comunitária Impacto 87,9FM; Web Rádio DNA Brasil; Nova onda FM; Cabn; Leal FM; Rádio Itapetininga; Rádio Vidas; Primeflashits; Rádio Deus Vivo; Rádio Cuieiras FM; Rádio Comunitária Tupancy; Sete News; Moreno Rádio Web; Rádio Web Esperança; Vila Boa FM; Novataweb; Rural FM Web; Bela Vista Web; Rádio Senzala; Rádio Pagu; Rádio Santidade; M’ysa; Criativa FM de Capitólio; Rádio Nordeste da Bahia; Rádio Central; Rádio VHV; Cultura1 Web Rádio; Rádio da Rua; Web Music; Piedade FM; Rádio 94 FM Itararé; Rádio Luna Rio; Mar Azul FM; Rádio Web Piauí; Savic; Web Rádio Link; EG Link; Web Rádio Brasil Sertaneja; Web Rádio Sindviarios/CUT.
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