Conversa Bem Viver

‘Contribuiu para o desenvolvimento local’: pesquisadoras falam sobre o legado de Niéde Guidon

Além de descobrir as origens do homem na América, trabalho da arqueóloga mudou a Serra da Capivara, no Piauí

No audio source provided.
Guidon é considerada a fundadora do Parque Nacional da Serra da Capivara, localizado no Piauí, em São Raimundo Nonato
Guidon é considerada a fundadora do Parque Nacional da Serra da Capivara, localizado no Piauí, em São Raimundo Nonato | Crédito: Reprodução/Governo Federal

Ao longo de 2025, figuras marcantes para o Brasil morreram, mas deixando um legado que impactou a história do país. Uma dessas personalidades foi a arqueóloga franco-brasileira Niéde Guidon, falecida em 4 de junho deste ano. 

Ela é considerada a fundadora do Parque Nacional da Serra da Capivara, localizado em São Raimundo Nonato, no Piauí. A região é emblemática para compreender a história das Américas, já que reúne a maior concentração de sítios arqueológicos com arte rupestre do mundo, com datações que sugerem que a presença humana no continente é muito mais antiga do que diziam as teorias tradicionais.

Ao Conversa Bem Viver, Rosa Trakalo, diretora do Museu da Natureza, e Elizabeth Buco, idealizadora do projeto do Museu da Natureza, explicam a importância do trabalho desenvolvido por Niéde Guidon e como a realidade local na Serra da Capivara mudou, após a atividade desenvolvida pela arqueóloga. 

“Acho que um dos maiores legados da Niéde Guidon é o desenvolvimento local. Ela não só descobriu a antiguidade do homem nas Américas, como criou uma grande equipe de pesquisadores, estudou a região durante anos, criou os museus e desenvolveu o turismo. Tanto o turismo como a apicultura são dois grandes focos. Educaram a população durante anos.  Hoje eles se sentem donos de tudo isso. Eles não migram mais para cortar cana em Goiás ou morar no subúrbio de São Paulo”, destaca Trakalo. 

Confira a entrevista completa:

Brasil de Fato – Qual é a importância da Serra da Capivara para o Brasil, para a América Latina e para o mundo?

Rosa Trakalo –  É um Parque Nacional e Patrimônio da Humanidade. Possui dois excelentes museus e, ultimamente, um terceiro pequeno museu mais dedicado à comunidade. Isso cria um conjunto que é realmente único. A natureza da Caatinga ninguém conhece. Toda a imagem que se tem é de algo triste, pobre e acabado, que nunca mais vai se recuperar, o que é totalmente errado. Quem conhece diz: “eu não esperava encontrar tudo isto”. Realmente é um lugar muito especial.

Tudo é fruto da natureza e do legado do homem pré-histórico. Pessoalmente, acho que um dos maiores legados da Niéde Guidon é o desenvolvimento local. Ela não só descobriu a antiguidade do homem nas Américas, como criou uma grande equipe de pesquisadores, estudou a região durante anos, criou os museus e desenvolveu o turismo. Tanto o turismo como a apicultura são dois grandes focos. Educaram a população durante anos. 

Hoje eles se sentem donos de tudo isso. Eles não migram mais para cortar cana em Goiás ou morar no subúrbio de São Paulo. Eles têm emprego aqui e orgulho de pertencer à região, pois entenderam esse legado. 

Elizabeth, como era sua relação com Niéde e a relação dela com a Serra da Capivara?

Elizabeth Buco – Vim primeiramente a passeio, porque minha irmã estava aqui há muitos anos. Nesse primeiro contato com a Niéde, eu morava em São Paulo e ela me pedia para comprar várias coisas. Imagine como as coisas eram complicadas aqui há 30 anos. Era um lugar muito pequeno. 

Até que surgiu a primeira verba que a Fundação conseguiu para a infraestrutura do parque. Ela me chamou para fazer as guaritas de entrada do parque, por eu ser arquiteta. Na época, era um contrato pequeno, de seis meses, e já estou aqui há quase trinta anos.

Podemos dizer que existem duas Serras da Capivara: uma antes da Niéde e outra depois?

Rosa Trakalo – Sim, e com um ponto intermediário. Ela pediu a criação do parque em 1975. Inclusive, existe um manuscrito da carta que ela enviou para que o parque fosse criado. Ali ela já provava ser visionária. Ela disse: “se essa estrutura de proteção for instalada, no futuro será assim, assim e assim”. E é exatamente o que é hoje. Estamos falando de 1975. O parque foi criado rapidamente, em quatro anos, o que foi veloz comparado a outros parques do Brasil.

Até esse momento, as pessoas ocupavam o espaço e viviam de maneira simples, mas não destruíam. A partir do momento em que foi criado por decreto e publicado no Diário Oficial, passaram-se anos sem que nada mais fosse feito, e virou terra de ninguém. Apenas muitos anos depois foram estabelecidos os limites e a segurança. Para que tudo fosse executado e não ficasse no papel, foi criada a Fundação Museu do Homem Americano, liderada por Niéde e integrada por pesquisadores brasileiros e estrangeiros que se dedicaram a essa proteção real. Por isso digo que houve um antes, um durante e um depois.

Qual foi a grande descoberta dela que mudou a concepção sobre a chegada do ser humano na América? 

Rosa Trakalo – Ela não veio aqui para achar o homem mais antigo das Américas. Ela veio para estudar a arte rupestre, pois sabia, desde que viu uma foto pela primeira vez, que era diferente do que se conhecia na época. Estudando as pinturas, os arqueólogos procuram datar esses registros, e para isso é preciso escavar. Nas escavações, ela achou outros vestígios da presença humana e foi descobrindo as datas dessas camadas arqueológicas.

A primeira vez que acharam uma datação antiga foi de 26 mil anos. Ela mesma não acreditava e discutia com a responsável pelo laboratório, dizendo que não era possível haver datações tão antigas na América. A responsável disse: “volte, escave mais e você verá que está certo”. 

Assim foi. Ficaram vários anos escavando e as datas eram cada vez mais antigas. Em 1993, houve um congresso internacional aqui com arqueólogos do mundo todo, inclusive os americanos, que sempre foram mais resistentes. A conclusão desse congresso foi: não sabemos como chegaram até aqui, mas que estavam aqui há 50 mil anos, está provado. Foi consequência de um estudo que levou a outro, não algo procurado deliberadamente.

Por que os norte-americanos eram mais resistentes?

Rosa Trakalo –  Eram contra a ideia de que o Homo sapiens tivesse chegado aqui há mais tempo do que previa a teoria deles de atravessar o Estreito de Bering. Era a teoria americana dos anos 50. Já fazem 75 anos dessa teoria. Eles diziam que não era possível terem chegado antes por outros caminhos. Niéde conseguiu provar que sim. Ela afirmava que as correntes do Atlântico traziam pessoas da África. 

Até hoje, navios e cruzeiros aproveitam essas mesmas correntes para vir da África ou da Europa. Há 50 ou 100 mil anos, o nível do mar estava muito mais baixo. Eles podem ter saído para pescar na África e a corrente os trouxe até aqui. Falta muita pesquisa arqueológica para afirmar exatamente por onde passaram até chegar ao interior.

Elizabeth Buco – Para os americanos, aqui não podia ter 50 mil anos quando a cultura Clóvis, lá no Norte, tinha cerca de 18 mil anos. Mas eles mesmos encontraram datações de mais de 30 mil anos no Chile. Se no Chile tem 30 mil, aqui também pode ter.

Rosa Trakalo – No México também há datações bem antigas agora. Essa discussão não tem mais sentido. Falta muito trabalho arqueológico para determinar as entradas. Os arqueólogos sabem, por exemplo, que o Homo faber, bem anterior ao Sapiens, já navegava. Se navegava, poderia ter vindo pelo Pacífico também.

Niéde foi exilada durante a ditadura. Ela foi perseguida e precisou sair para se proteger?

Rosa Trakalo – Não exatamente perseguida. Ela foi denunciada como comunista, o que era um problema na época. Ela era funcionária do Museu do Ipiranga, da Secretaria de Cultura de São Paulo. Avisaram que ela seria presa. Então, uma tia conseguiu colocá-la em um avião para que fosse embora. Na verdade, parece que, na época, era comum alguém denunciar o outro apenas para ficar com o cargo. Ela foi embora em 1966 e, com a dupla nacionalidade, retornou em 1970.

Nesse retorno, ela acompanhou Vilma Chiara, uma etnóloga que trabalhava com os índios Kraô. Niéde já tinha ouvido falar das pinturas em 1963, mas não conseguiu chegar ao local porque a ponte sobre o Rio São Francisco havia caído. 

Em 1970, ela disse à Vilma: “eu te acompanho nos Kraô e você me acompanha no Piauí”. Foram as duas de jipe do Tocantins (que na época era Goiás) até aqui. Lá ela conheceu os primeiros sítios da região.

Qual legado ela deixa e como esse legado mudou o dia a dia da população local? 

Rosa Trakalo – A mudança é radical. A primeira vez que vim aqui foi em 1986. A ideia que se tinha era de que uma população pobre e ignorante nunca protegeria nada. Em 1986, as pessoas buscavam água com baldes na cabeça e plantavam abóboras para vender na cidade. O dinheiro era usado para comprar café e açúcar. Elas vendiam a abóbora barato e compravam o café caro. Era a economia da época.

Tudo isso mudou radicalmente. As pessoas hoje se sentem orgulhosas. No dia da inauguração do Museu da Natureza, uma senhora muito simples olhava para as imagens e me disse: “Finalmente, porque até agora era só mato”. Isso descreve como a população se integrou. Em 2009, organizamos um congresso de arte rupestre com 36 países e mais de 900 participantes. A comunidade sentiu que algo importante acontecia ali. Um senhor disse: “eu não sabia o que fazer, então pintei a frente da minha casa”. Eles queriam participar.

Essa imagem triste do Piauí está errada. O estado não é nada do que se pensa. Ainda há carências, mas as coisas estão indo muito bem. Torcemos para que o legado dela avance nos estudos arqueológicos e que o Brasil se torne pioneiro em descobertas e tecnologias. Que esse legado incentive as pessoas a visitarem o Piauí e o Parque Nacional da Serra da Capivara, valorizando nossos bens naturais e esse conhecimento abundante.

Conversa Bem Viver

Em diferentes horários, de segunda a sexta-feira, o programa é transmitido na Rádio Super de Sorocaba (SP); Rádio Palermo (SP); Rádio Cantareira (SP); Rádio Interativa, de Senador Alexandre Costa (MA); Rádio Comunitária Malhada do Jatobá, de São João do Piauí (PI); Rádio Terra Livre (MST), de Abelardo Luz (SC); Rádio Timbira, de São Luís (MA); Rádio Terra Livre de Hulha Negra (RN), Rádio Camponesa, em Itapeva (SP), Rádio Onda FM, de Novo Cruzeiro (MG), Rádio Pife, de Brasília (DF), Rádio Cidade, de João Pessoa (PB), Rádio Palermo (SP), Rádio Torres Cidade (RS); Rádio Cantareira (SP); Rádio Keraz; Web Rádio Studio F; Rádio Seguros MA; Rádio Iguaçu FM; Rádio Unidade Digital ; Rádio Cidade Classic HIts; Playlisten; Rádio Cidade; Web Rádio Apocalipse; Rádio; Alternativa Sul FM; Alberto dos Anjos; Rádio Voz da Cidade; Rádio Nativa FM; Rádio News 77; Web Rádio Líder Baixio; Rádio Super Nova; Rádio Ribeirinha Libertadora; Uruguaiana FM; Serra Azul FM; Folha 390; Rádio Chapada FM; Rbn; Web Rádio Mombassom; Fogão 24 Horas; Web Rádio Brisa; Rádio Palermo; Rádio Web Estação Mirim; Rádio Líder; Nova Geração; Ana Terra FM; Rádio Metropolitana de Piracicaba; Rádio Alternativa FM; Rádio Web Torres Cidade; Objetiva Cast; DMnews Web Rádio; Criativa Web Rádio; Rádio Notícias; Topmix Digital MS; Rádio Oriental Sul; Mogiana Web; Rádio Atalaia FM Rio; Rádio Vila Mix; Web Rádio Palmeira; Web Rádio Travessia; Rádio Millennium; Rádio EsportesNet; Rádio Altura FM; Web Rádio Cidade; Rádio Viva a Vida; Rádio Regional Vale FM; Rádio Gerasom; Coruja Web; Vale do Tempo; Servo do Rei; Rádio Best Sound; Rádio Lagoa Azul; Rádio Show Livre; Web Rádio Sintonizando os Corações; Rádio Campos Belos; Rádio Mundial; Clic Rádio Porto Alegre; Web Rádio Rosana; Rádio Cidade Light; União FM; Rádio Araras FM; Rádios Educadora e Transamérica; Rádio Jerônimo; Web Rádio Imaculado Coração; Rede Líder Web; Rádio Club; Rede dos Trabalhadores; Angelu’Song; Web Rádio Nacional; Rádio SINTSEPANSA; Luz News; Montanha Rádio; Rede Vida Brasil; Rádio Broto FM; Rádio Campestre; Rádio Profética Gospel; Chip i7 FM; Rádio Breganejo; Rádio Web Live; Ldnews; Rádio Clube Campos Novos; Rádio Terra Viva; Rádio interativa; Cristofm.net; Rádio Master Net; Rádio Barreto Web; Radio RockChat; Rádio Happiness; Mex FM; Voadeira Rádio Web; Lully FM; Web Rádionin; Rádio Interação; Web Rádio Engeforest; Web Rádio Pentecoste; Web Rádio Liverock; Web Rádio Fatos; Rádio Augusto Barbosa Online; Super FM; Rádio Interação Arcoverde; Rádio; Independência Recife; Rádio Cidadania FM; Web Rádio 102; Web Rádio Fonte da Vida; Rádio Web Studio P; São José Web Rádio – Prados (MG); Webrádio Cultura de Santa Maria; Web Rádio Universo Livre; Rádio Villa; Rádio Farol FM; Viva FM; Rádio Interativa de Jequitinhonha; Estilo – WebRádio; Rede Nova Sat FM; Rádio Comunitária Impacto 87,9FM; Web Rádio DNA Brasil; Nova onda FM; Cabn; Leal FM; Rádio Itapetininga; Rádio Vidas; Primeflashits; Rádio Deus Vivo; Rádio Cuieiras FM; Rádio Comunitária Tupancy; Sete News; Moreno Rádio Web; Rádio Web Esperança; Vila Boa FM; Novataweb; Rural FM Web; Bela Vista Web; Rádio Senzala; Rádio Pagu; Rádio Santidade; M’ysa; Criativa FM de Capitólio; Rádio Nordeste da Bahia; Rádio Central; Rádio VHV; Cultura1 Web Rádio; Rádio da Rua; Web Music; Piedade FM; Rádio 94 FM Itararé; Rádio Luna Rio; Mar Azul FM; Rádio Web Piauí; Savic; Web Rádio Link; EG Link; Web Rádio Brasil Sertaneja; Web Rádio Sindviarios/CUT.

O programa de rádio Bem Viver vai ao ar de segunda a sexta-feira, às 7h, na Rádio Brasil de Fato. A sintonia é 98,9 FM na Grande São Paulo. A versão em vídeo é semanal e vai ao ar aos sábados a partir das 13h30 no YouTube do Brasil de Fato e TVs retransmissoras.

Assim como os demais conteúdos, o Brasil de Fato disponibiliza o programa Bem Viver de forma gratuita para rádios comunitárias, rádios-poste e outras emissoras que manifestarem interesse em veicular o conteúdo. Para ser incluído na nossa lista de distribuição, entre em contato por meio do formulário.

Editado por: Nathallia Fonseca

|

Newsletter