“Ter tantos jovens diversos em uma novela das nove não era possível há 10 anos”, enfatiza Guthierry Sotero, ator que interpreta Júnior em Três Graças, produção de Aguinaldo Silva que ocupa o horário nobre da Globo.
Ele faz parte de uma nova geração de artistas negros e negras que vêm ganhando cada vez mais visibilidade no cenário nacional. Sotero também compôs os elencos de No Rancho Fundo e Vai na Fé.
“Na minha novela, de sete diretores, três são negros. É um número significativo comparado a cinco anos atrás, no período pré-pandemia. No entanto, a mudança ainda é lenta. Assim como demorou décadas para vermos diversidade na tela, talvez demore para perceberem que é necessário ter diretores negros para narrativas negras”, discute, em entrevista ao Conversa Bem Viver.
Confira a entrevista completa:
Brasil de Fato: Ao lado de grandes nomes da teledramaturgia, como Marcos Palmeira e Murilo Benício, a participação em Três Graças é a sua estreia no horário nobre. Como está sendo esse processo?
Guthierry Sotero: Está sendo incrível. É uma aula diária. Estou contracenando com pessoas que eu sonhava em conhecer, que cresci assistindo. Poder ter essa troca com eles em um lugar de equidade, onde ninguém é superior a ninguém e todos estão abertos para o jogo, é maravilhoso. Eles ensinam e aprendem da mesma maneira.
Poder contracenar com o Marquinhos — agora posso chamá-lo de Marquinhos, já que somos íntimos — é algo incrível. Ele é muito generoso e faz todo o sentido que ele tenha essa carreira enorme por conta disso. Ele é uma pessoa e um ator incrível. Todos querem estar perto de pessoas assim.
Eu sempre me lembro da cena do meu pai, o Cosme dos Santos, em que ele falece. No velório, houve algo inesperado. A Lígia me dava um abraço, e eu seguia abraçando as outras pessoas, como a Sofia, a Gabi Loran e a Luísa Rosa. Ela foi tão generosa que me deu um abraço, olhou nos meus olhos e falou: “Eu estou aqui com você, se precisar de alguma coisa, eu estou aqui com você”.
Aquilo foi muito além do Júnior e da Lígia. Era a Dira e o Guthierry, e ali eu desabei. A cena ficou muito mais incrível e teve muito mais veracidade por conta da generosidade das pessoas ao meu redor.
Estou vivendo um momento ímpar em minha vida, podendo debutar no horário nobre e ter cenas com o Cosme dos Santos, um cara sobre quem tive matéria na faculdade no início do ano. Poder ser filho dele agora, meses depois, é algo incrível. Estou vivendo os momentos mais felizes da minha vida artisticamente. Sei que ainda está longe de tudo o que quero viver, mas estou alcançando lugares incríveis. Estou muito feliz em fazer parte desta dramaturgia.
Os atores mais experientes dão toques sobre a preparação para as cenas nos bastidores?
Sem dúvida. Miguel Falabella, em uma das cenas com o núcleo da galeria, composto por mim, Mel Muzzillo, Daphne, Samuel e ele, disse: “Vocês são a futura geração disso aqui. Nós já brilhamos, somos famosos, mas o nosso tempo está passando. Daqui a pouco, vocês farão essa trajetória de receber bem as outras pessoas”. Eles têm essa consciência e fazem questão de pautar isso por generosidade.
Tenho gravado muito com o Marquinhos ultimamente por conta do ferro-velho. Temos feito cenas incríveis de cumplicidade. Na semana passada, fizemos uma cena de três ou quatro minutos em um set, com sequência, abraços e brincadeiras. Estamos em uma sintonia muito boa. Eu prezo muito por ouvir essas pessoas e costumo ficar quieto no meu canto, absorvendo tudo o que têm a dizer.
Outro dia, trocamos ideias sobre a pausa nas cenas. Às vezes, pela pressa de falar ou responder brevemente, acabamos atropelando momentos que tornariam a cena melhor. Conversamos sobre isso no camarim e fomos para o set. No primeiro take, percebemos que corremos com a cena. Felizmente, pudemos fazer de novo e aplicamos a pausa. Foi bom porque a conversa do camarim estava fresca na cabeça. Mesmo falhando inicialmente pela ansiedade, consertamos no take seguinte.
É muito bom estar com pessoas experientes e de coração enorme. Sinto-me grato e aprendo muito com eles. Estou realizando meu sonho, aprendendo e trabalhando com ídolos que cresci assistindo.
Como tem sido a recepção dos artistas mais antigos com a chegada de cada vez mais atores negros e negras nas grandes novelas?
Eu não tenho uma troca aberta com todos do elenco, pois não contraceno com todos. Mas com as pessoas com quem trabalho, isso é nítido. Vemos a felicidade deles e conversamos sobre como, há dez ou vinte anos, o cenário atual seria considerado surreal ou uma utopia. Ter tantos jovens diversos em uma novela das nove — eu, que sou preto; a Gabi Loran, uma mulher trans; a Luísa Rosa, uma mulher preta retinta; a Mel Muzzillo, que é indígena — não era possível há dez anos.
Ver que isso é real hoje faz virar uma “chave” para eles também: é um novo mundo. Eles entendem que basta abraçar essas pessoas para que elas se sintam bem e possam passar o bastão futuramente.
Como mencionei, foi incrível contracenar com o Cosme dos Santos. Eu o conhecia por trabalhos como Pantanal, Renascer e Sítio do Picapau Amarelo, mas não conhecia sua história a fundo. Na faculdade de artes cênicas, tive uma matéria sobre o protagonismo negro e conheci mais sobre ele e sobre Zózimo Bulbul. Contracenar com ele meses depois foi como ver um filme passar pela cabeça.
Eles lutaram muito para que o cenário de hoje fosse possível, embora achassem que seria algo distante. Vê-lo lúcido, contracenando com um jovem de 23 anos que quer vencer o mundo, é algo profundo. Gravamos poucas vezes, mas nossa troca foi intensa. Trocamos mensagens constantemente. É importante estar perto de quem pavimentou o caminho para eu estar aqui hoje, mantendo o respeito por essas gerações.
Mesmo com cada vez mais atores negros, críticos não deixam de apontar que, em geral, quem dirige, produz e financia as produções ainda é uma maioria branca. Qual é a sua avaliação sobre isso?
Sim. Na minha novela, de sete diretores, três são negros. É um número significativo comparado a cinco anos atrás, no período pré-pandemia. No entanto, a mudança ainda é lenta. Assim como demorou décadas para vermos diversidade na tela, talvez demore para perceberem que é necessário ter diretores negros para narrativas negras.
Vimos a questão na última novela com a Taís Araújo. Muitas pessoas criticaram o fato de a personagem Raquel enriquecer, ficar pobre e ter que vender tudo de novo. Não que o trabalho fosse desonesto, mas a história pedia que ela se mantivesse rica para oferecer uma nova perspectiva: a de que é possível enriquecer e viver a felicidade.
Eu, por exemplo, tenho dificuldade em viver uma vitória plena. Estou na novela das nove, mas não consigo apenas celebrar, pois sinto que algum problema surgirá amanhã. Esse sentimento vem das circunstâncias da vida e do racismo estrutural.
Na sua novela anterior, Vai na Fé, você protagonizou uma cena que poderia ser chamada de “primeiro beijo gay entre homens pretos na história da teledramaturgia”. Foi um desafio ocupar esse espaço de representatividade, sendo uma pessoa heterossexual?
Em Vai na Fé também havia muitos roteiristas pretos e narrativas incríveis sobre gênero e religião. Tenho muito orgulho dessa novela. No início, fiquei receoso por causa do debate sobre atores interpretarem apenas o que são na vida real. Eu havia feito teste para o Yuri e para o Jean, mas não rolou. Estava gravando uma série para o Globoplay quando me convidaram para o Vini.
Fiquei com o pé atrás por ocupar um lugar que não é meu e não sabia como as pessoas me receberiam. O Vini é bissexual, e eu sou hétero. De repente, minha sexualidade virou pauta na internet, como se fosse mais importante que meu trabalho. Tive receio de não passar a veracidade necessária, mas, com muito estudo, consegui fazer um bom trabalho.
Foi incrível trabalhar com o Paulo Silvestrini. Tínhamos batido na trave em dois projetos de Malhação e finalmente engrenamos em Vai na Fé. Cheguei com a novela já em sucesso e sem tempo de preparação, indo direto para o set, o que é um desafio triplicado. Sobre o beijo do Vini e do Yuri, pesquisei e vi que foi o primeiro registro de homens pretos se beijando na teledramaturgia.
Mas acho que essa estatística fica vaga enquanto forem casos únicos. Precisamos de mais recorrência para que isso seja visto como normal. Vai na Fé permitiu que o público nacional me conhecesse e sou muito grato por isso.
Você é do Complexo da Maré, no Rio de Janeiro. Como esse território incentivou sua formação como artista? E quais devem ser seus próximos passos?
O Complexo da Maré é minha raiz, onde minha família está e onde me sinto bem. Saí recentemente por questões de trabalho e segurança, mas a Maré é fundamental na minha vida. Comecei no Ceasm [Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré], um centro comunitário, onde fazia pré-vestibular em 2019 e descobri o teatro aos sábados.
Eu já tentava vaga no Centro de Artes da Maré (CAM), na Nova Holanda, mas não conseguia. Um dia, o rapper MC Marechal deu um show lá, conversamos sobre sonhos e ele me incentivou a correr atrás. Consegui a vaga no CAM e minha vida mudou. Depois, fui para o Entrelugares, no Museu da Maré. Tudo o que sei veio de lá. Tenho muito orgulho. Há muitas pessoas incríveis lá que só precisam de oportunidade, como o Patrick Congo, que se destacou em Os Quatro da Candelária.
Além de ator, sou rapper. Tem sido uma loucura conciliar, e não lanço música há três anos por falta de agenda. Agora, nas férias da faculdade, pretendo gravar um EP ou uma mixtape. Quero que o público conheça o Guthierry Rapper, que foi o meu pontapé inicial na arte.
Já troquei muita ideia com o Xamã. Mostrei para ele uma foto de um show dele que assisti em Madureira, em 2016. É louco trabalhar com ele hoje. Ele dá muitos conselhos sobre música, assim como o GTA e o Belo. O Belo ajuda bastante com direcionamento de carreira. Estou cercado de pessoas incríveis tanto na atuação quanto no rap.
Conversa Bem Viver

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