LIVROS, NÃO ARMAS

‘A violência não vai nos levar a lugar nenhum’, diz Itamar Vieira Junior sobre ações policiais letais

Autor de Coração Sem Medo, Itamar fala sobre literatura, genocídio da população negra e o fracasso de operações policiais baseadas na lógica do extermínio

Itamar Vieira Junior lançou seu terceiro romance em outubro
Itamar Vieira Junior lançou seu terceiro romance em outubro | Crédito: Rovena Rosa/Agência Brasil

Itamar Vieira Junior é um dos principais nomes da literatura brasileira contemporânea. Vencedor dos
prêmios Leya, Oceanos e Jabuti, o escritor baiano conquistou leitores no Brasil e no mundo com Torto
Arado
, romance traduzido para mais de 20 países e com adaptação audiovisual em desenvolvimento.

Pela editora Todavia, publicou ainda Doramar ou a Odisseia: histórias e Salvar o Fogo. Com Coração
Sem Medo
, lançado no início de outubro, o escritor encerrou a chamada “trilogia da terra”, reafirmando seu
compromisso com uma literatura profunda e conectada com realidade da social brasileira.

No novo romance, Vieira Junior conta a história de Rita Preta, uma operadora de caixa de supermercado e
mãe de três, que vê sua vida ser transformada após o desaparecimento de um de seus filhos na
comunidade onde vivem, em Salvador. A busca dessa mulher conduz uma narrativa marcada pela
tensão, pela dor e por negligencia, expondo as injustiças sociais que atingem, sobretudo, a população
negra e periférica.

A obra, lançada pouco antes da maior chacina policia militar do país que aconteceu no do Rio de
Janeiro, deixando 121 mortos, dialoga com um país onde a política de segurança pública segue
produzindo mortes e silenciamentos de uma população historicamente marginalizada.

Ao ser questionado sobre a relação da realidade e ficção, Itamar disse ao Conversa Bem Viver que não
se trata de coincidência e sim que “a vida continua a inspirar a arte”.

“Não foi por acaso que escrevi essa história. Eu acho que essa história, para mim, nasce por dois caminhos. O primeiro é a própria dramaturgia inspirando a história de uma mãe em busca do filho desaparecido ou que viveu a violência em uma guerra é uma história que atravessa a literatura universal.”, disse.

Veja a entrevista completa:

Brasil de Fato: Como é para um escritor quando termina uma grande missão a qual ele tinha se proposto?

Itamar Vieira Junior: Como escritor, eu fui descobrindo que eu precisava elaborar, eu precisava pensar, refletir. E, para pensar e refletir, era necessário tempo e espaço para isso. Daí a ideia inicial de Torto Arado, que era uma narrativa sobre uma história de amor que, muitas vezes, agricultores, trabalhadores rurais, têm com a terra. isso se tornou algo mais sério, mais profundo, que é a nossa relação vital com a terra, com o território, com o espaço que habitamos.

E aí eu me lancei esse desafio mesmo, durante a escrita de Torto Arado, de escrever, de desdobrar essa
história, porque era impossível refletir apenas naquele romance. Eu queria construir, criar uma
constelação de histórias que desse conta, desse legado colonial que ainda vivemos e que continua
presente, determinando nossas vidas.

Agora, a sensação é de dever cumprido, mas, ao mesmo tempo, de que nada é absoluto. Eu acho que
agora eu tenho outros interesses, mas não considero que essa história tenha se fechado. Fechado no
sentido de: sim, é uma trilogia e não tem nada além dela neste momento, mas é algo que vai
permanecer comigo, que eu vou continuar pensando, refletindo.

O livro foi lançado em outubro, por volta da primeira semana do mês e cerca de 15 dias depois, o
Brasil assistiu à maior chacina provocada pela Polícia Militar no Rio de Janeiro. Você fez alguma relação com o lançamento do livro, que denuncia a violência policial contra a população periférica, com esse episódio de mais terrorismo contra essa população no nosso país?


Não foi por acaso que escrevi essa história. Eu acho que ela, para mim, nasce por dois
caminhos. O primeiro é a própria dramaturgia inspirando a história de uma mãe em busca do filho
desaparecido ou que viveu a violência em uma guerra, é uma história que atravessa a literatura
universal.

Desde os dramas gregos, passando pelo teatro de Bertolt Brecht, com Mãe Coragem e Seus Filhos,
passando pela literatura, pelo romance de David Grossman, A Mulher Foge. Mas, essas histórias
também estão em nosso cotidiano. Muitas mulheres das periferias brasileiras, ao longo das décadas,
têm passado por isso.

O que aconteceu no Rio de Janeiro é apenas um sintoma de um rumo que o país tomou. De não nos dar segurança pública e ainda transformar parte dessa segurança pública em um braço armado pronto para exterminar os indesejáveis, ou aqueles que têm, como diria o Emicida, a pele alvo.

O que a gente precisa fazer para conseguir mostrar para a população que esse tipo de violência
não vai conseguir nos levar a lugar nenhum, apenas causar mais mortalidade?


Primeiro que a população se sente insegura e é muito fácil criar falsos inimigos nessa situação de insegurança. E, para sensibilizar, é preciso mostrar que essa ação, por exemplo, não repercutiu na
melhoria da qualidade de vida das pessoas. Na verdade, ela nunca vão deixaram de ser vítimas de
violência, isso tem que ser mostrado com ênfase.

Pra além disso, é necessário falar de como algumas sociedades têm resolvido o problema da
criminalidade em outros lugares, muitas vezes sem disparar um tiro. Precisamos de mais educação, é
nela que vamos construir valores, os nossos valores enquanto humanidade.

A humanidade caminhou por um longo período para chegar a um consenso sobre os valores universais
da nossa própria humanidade. E a gente não pode abdicar desses valores achando que a barbárie vai
nos devolver algo que nunca tivemos: segurança, a própria vida.

Então é preciso atuar de uma maneira que a gente possa avançar e garantir mais segurança para as
pessoas. Os mandantes não vivem lá, estão fora. É preciso usar inteligência para desbaratar o crime
organizado, porque ele afeta muitas cidades no Brasil. Afeta também as pessoas que vivem nesses
lugares, muitas vezes silenciadas, com toque de recolher. Ou seja, o Estado permanece ausente.

Há maneiras de se fazer isso, mas, sobretudo, é preciso educar a população, informar adequadamente,
para que não caiam nesse falso conto de que uma operação dessa natureza, dessa proporção, vai
resolver o problema da violência no Brasil. Vai sequer mitigar o problema da violência?

A Bahia é um estado que talvez tenha sido o que mais se rebelou contra essas formas de
opressão, sempre protagonizado pelo movimento negro, com rebeliões como a Revolta dos
Búzios e a Revolta dos Malês. Essa Bahia rebelde inspira muito a tua literatura, Itamar?


Eu acho que os nossos processos históricos são frutos de sentimentos humanos, que são valores
universais que todos nós carregamos. Todos nós precisamos de uma certa dose de inconformismo, de
coragem, para romper com os grilhões da servidão, da escravidão. E todas as formas de servidão: não
só a servidão literal, mas a servidão do pensamento colonizado, de uma educação colonizada.

Quando eu escrevi Coração Sem Medo, da mesma maneira, pensei sobretudo nas mulheres, mães que,
ao longo dos anos e das décadas, foram atingidas por um ente querido que lhes foi levado, assassinado
pelo crime ou pela polícia. Como elas continuaram a viver, a existir, a lutar por justiça, e como as coisas mudam quando a gente se põe em movimento.

Eu não escrevi essas histórias apenas para lembrar as dores que nos formam. Escrevi sobretudo para
falar desses sentimentos que não se quebram, que não se rompem, que são inquebráveis. Esse desejo
de vida, de viver, de fazer história, de fazer justiça continua com as pessoas mesmo depois de passar
por uma violência atroz, como a que essas mulheres, ou a Rita Preta, passam.

De alguma forma, tu pensa em voltar a trabalhar no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra)?

Ano que vem faz 20 anos que mantenho o vínculo, mas há quase três estou licenciado sem
remuneração. Ao mesmo tempo, continuo vendo relevância e missão no trabalho como servidor público.

Mas a literatura me deu a possibilidade de me comunicar com muito mais pessoas, inclusive com
pessoas que desconheciam essas experiências.

Eu me sinto dividido, não sei o que farei, mas uma coisa é certa: no Incra ou fora do Incra, eu
continuarei a escrever.

Então, em 2026 ainda não está decidido se a gente vai ter uma nova publicação?

Não haverá. Acabei de lançar Coração Sem Medo, saiu em outubro. Ainda estou nesse percurso de encontrar leitores, fazer o livro circular, promovê-lo. Fora do Brasil, continuam saindo traduções de Torto Arado e Salvar o Fogo, e eu tenho uma agenda internacional a cumprir.

Meu trabalho se divide entre o período de reclusão da escrita e o período de encontrar os leitores e
fazer esses trabalhos circularem.

Conversa Bem Viver

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Editado por: Nathallia Fonseca

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