Ivan Baron tem 27 anos, é potiguar e se tornou uma das principais vozes do ativismo anticapacitista no Brasil. Produtor de conteúdo e influenciador digital, Ivan ganhou projeção nacional ao subir a rampa do Palácio do Planalto durante a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em janeiro de 2023, representando pessoas com deficiência de todo o país. Meses depois, foi anunciado como embaixador da campanha nacional do Ministério da Educação voltada à promoção de políticas educacionais anticapacitistas e à inclusão.
Agora, em 2026, Baron inicia nova etapa em sua trajetória pública ao anunciar sua pré-candidatura a deputado estadual pelo Rio Grande do Norte, pelo Partido Verde (PV). Em entrevista ao Conversa Bem Viver, ele afirma que a decisão de ingressar na política institucional é resultado de anos de atuação pedagógica e militante, sobretudo nas redes sociais, onde atua desde 2018 na conscientização sobre capacitismo, educação inclusiva e direitos humanos.
Para o ativista, o momento simbólico da posse presidencial não marcou apenas sua visibilidade nacional, mas consolidou um processo político que já vinha sendo construído. Segundo ele, a subida da rampa foi consequência direta de um trabalho coletivo e contínuo que vai além da política partidária.
“Eu sempre digo que aquele momento da subida da rampa se deu através do meu trabalho político, não para a política institucional, mas do meu trabalho de conscientização pedagógica, tomando principalmente a frente dessa luta anticapacitista. Essa não é uma luta individual, não é só das pessoas com deficiência ou do Ivan Baron, é uma luta coletiva e precisa ser assumida por todo e qualquer parlamentar que deseja representar pessoas no ambiente político”, afirmou.
Baron também destaca que sua pré-candidatura rompe com um histórico de exclusão. Segundo ele, o Rio Grande do Norte nunca elegeu um parlamentar estadual com deficiência, revelando a permanência do capacitismo estrutural na política brasileira. Para o ativista, ocupar esse espaço é uma forma de disputar narrativas, garantir representatividade real e transformar decisões que impactam diretamente a vida de milhões de pessoas.
Veja os principais trechos da entrevista:
Brasil de fato: Qual foi a sua motivação para ingressar na política em 2026?
Ivan Baron: Eu atuo nas redes sociais desde 2018, um ano marcado por um grande caos político e social no país. Comecei um trabalho, ainda que no ambiente virtual, de conscientização da sociedade sobre capacitismo e educação inclusiva, a partir da minha vivência como um jovem com deficiência.
De lá para cá, muita coisa aconteceu. Pessoas que me conheceram por meio desse trabalho pedagógico passaram a me incentivar, dizendo que, além de educador, eu também deveria entrar para a política. Ouvir isso de quem caminha com a gente é muito importante, porque são essas pessoas que nos dão força para continuar lutando.
Eu me reconheço enquanto pessoa LGBTQIA+ e nordestina, mas, enquanto pessoa com deficiência, o espaço da política ainda é extremamente distante. Entendi que esse era um caminho natural, que exigia coragem, estudo e muita responsabilidade. Passei a analisar a conjuntura do meu estado e do país e cheguei à conclusão de que a política precisa de pessoas como eu. Quando nós não ocupamos esses espaços, outros ocupam, e nem sempre fazem as melhores escolhas. Isso fica evidente no próprio Congresso Nacional.
Por isso, optei por não disputar, de imediato, um espaço no cenário nacional, mas contribuir com o meu estado, o Rio Grande do Norte, que nunca, na história da política, teve um parlamentar a nível estadual com deficiência.
Depois de subir a rampa em 2022, você considera esse momento um marco na sua trajetória rumo à política?
Aquele momento da subida da rampa foi resultado do meu trabalho político, mas não da política institucional. Foi fruto de um trabalho de conscientização pedagógica, especialmente à frente da luta anticapacitista. E essa não é uma luta individual, nem restrita às pessoas com deficiência ou à minha trajetória pessoal. Trata-se de uma luta coletiva, que precisa ser assumida por todo parlamentar que deseja, de fato, representar a população.
Sem dúvida, a subida da rampa foi um marco. Ela deu visibilidade nacional à minha luta e ampliou o alcance do debate. Mas a minha motivação para entrar na política vem também do cotidiano, das dificuldades concretas, como a simples preocupação de conseguir sair de casa com segurança e acessibilidade.
É essa realidade diária que reforça a necessidade de ocupar espaços de decisão. Como eu costumo dizer, se nós não falamos por nós mesmos, outros falam em nosso lugar. E chega disso. Eu não sou aliado da inclusão, eu sou protagonista.
A internet é um espaço central para o ativismo, mas também muito hostil, sobretudo com pessoas negras, LGBTQIA+ e com deficiência. Essa violência virtual te intimida de alguma maneira, ainda mais agora que você se apresenta como candidato?
Sim, especialmente quando você é uma pessoa que se posiciona e deixa claro de que lado está. Eu costumo dizer que a inclusão não deveria ter uma ideologia definida, porque os ataques podem vir de todos os lados.
No entanto, enquanto pessoa, militante e ativista, me posiciono como alguém de centro-esquerda, e só isso já é suficiente para desencadear uma onda de ataques, sobretudo de setores da extrema direita.
Infelizmente, o próprio movimento da inclusão ainda carrega traços muito conservadores, e essa é uma realidade que precisa ser dita. Mas esse conservadorismo não vai nos intimidar nem nos fazer recuar. Pelo contrário: é fortalecendo e incentivando nossas redes de apoio que vamos ocupar esses espaços e afirmar a nossa verdade.
Conversa Bem Viver

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