Reconhecido como um grupo que marcou a história da música brasileira, o MBP4 comemora 60 anos do lançamento do seu primeiro disco. A banda tem atualmente como integrantes Aquiles Reis, Dalmo Medeiros, Miltinho, Paulo Malagutti Pauleira, João Faria, Pedro Reis e Marcos Feijão e é famosa por combinar a qualidade sonora da música popular brasileira com firmes posicionamentos políticos.
Enfrentando a ditadura militar e driblando a censura do regime, entre os maiores sucessos do grupo está a música Roda Viva, em parceria com Chico Buarque, que apresenta uma crítica contundente ao autoritarismo.
Ao Conversa Bem Viver, Aquiles e Paulo Malagutti, conhecido como “Paulera”, explicam que essa é uma marca que segue acompanhando o MPB4 até os dias de hoje.
“Nós sempre acompanhamos o que está acontecendo, cantamos o que gostamos, mas que se refere ao que está ocorrendo. O simples fato de estarmos no palco nos identifica como alguém que discorda de qualquer tentativa de golpismo, que discorda de qualquer tipo de censura e de qualquer tipo de preconceito. Podemos até gravar uma canção de amor a cappella, mas isso não destoa da nossa percepção do que seja cantar num país tão desigual”, argumenta Reis.
A banda também é conhecida por ter feito parcerias com grandes nomes da música brasileira, como João Bosco, Kleiton & Kledir, Paulinho da Viola, Toquinho e Milton Nascimento, além de Chico Buarque. Malagutti destaca duas que ele considera marcante.
“O Chico Buarque e o Paulo César Pinheiro. O Paulo César Pinheiro está em dezenas de músicas escolhidas pelo MPB4. Cicatrizes, que é uma música em parceria com Miltinho, é um grande sucesso nas rodas de samba. Vamos cantá-la amanhã aqui em Curitiba. Cantar essas coisas é um prazer imenso”, afirma.
Mesmo após essas seis décadas, o grupo segue ativo, com agenda de shows em São Paulo, Curitiba e Rio de Janeiro.
Confira a entrevista completa:
Brasil de Fato: O MPB4 está celebrando 60 anos do primeiro disco lançado oficialmente. Como é a sensação de seguir na ativa, atuando e com espetáculos? O público fica pedindo músicas antigas ou aceitam as novas interpretações e propostas?
Aquiles Rique Reis: Depende do momento. Quando estamos para gravar — coisa que raramente tem acontecido, porque está difícil de gravar —, partimos sempre de uma ideia, como foi a ideia deste último álbum que lançamos, com o qual comemoramos os 60 anos do MPB4.
A ideia era chamar os compositores contemporâneos nossos para que eles, inclusive junto conosco, escolhessem uma música deles para gravarmos, sendo que eles teriam que participar da gravação. Assim foi lançado o disco, que tem participações de João Bosco, Kleiton & Kledir, Paulinho da Viola, Chico Buarque, Toquinho e Milton Nascimento.
Gravamos esse disco no início do ano passado. Não temos, por exemplo, nenhum plano de gravação no horizonte próximo. Provavelmente, um novo horizonte mais próximo surgirá a partir de uma nova ideia que nos sensibilize e faça com que nos mobilizemos para gravar. Aí partiremos para procurar, como procuramos e conseguimos fazer o disco dos 60 anos com a Biscoito Fino.
O MPB4 sempre foi um grupo que reagiu muito ao momento político do país. O momento atual do país vem sensibilizando vocês de alguma maneira a seguir com essa música politizada?
Aquiles Rique Reis: Isso independe da minha cabeça. A escolha do repertório ou do que dizer nos shows e entrevistas independe do momento que o país está vivendo, porque isso é inerente ao pensamento do grupo. Desde que o grupo se formou, o MPB4 age assim.
Nós sempre acompanhamos o que está acontecendo, cantamos o que gostamos, mas que se refere ao que está ocorrendo. Nossa presença no palco, após esses 60 anos de confirmação da nossa disposição de agir assim, já nos identifica.
O simples fato de estarmos no palco nos identifica como alguém que discorda de qualquer tentativa de golpismo, que discorda de qualquer tipo de censura e de qualquer tipo de preconceito.
Podemos até gravar uma canção de amor a cappella, mas o fato de estarmos no palco cantando uma canção de amor não exime nossa presença nem destoa da nossa percepção do que seja cantar num país tão desigual, que precisa de tanta coisa para se tornar, de fato, um país atualizado em que a educação e a cultura sejam preponderantes.
Pauleira, como é para você, não sendo um integrante original da formação do grupo na época dos anos de chumbo da ditadura, mas, sim, um integrante que compôs o grupo a partir dos anos 2000? Como foi a sua chegada a esse coletivo?
Paulo Malagutti: Foi um grande presente que a vida me deu. Pelo infortúnio da morte do Magro, que foi o grande arranjador e arquiteto musical do grupo, isso me trouxe uma responsabilidade muito grande. Ao mesmo tempo, foi-me dada essa confiança por eles.
Já nos conhecíamos desde os anos 1980, quando minha vida profissional começou. No final dos anos 1970, eu tinha um grupo chamado Céu da Boca, um grupo vocal conhecido do MPB4.
Sei que por causa desse trabalho específico — e depois tive o Arranco de Varsóvia, também grupo vocal — fui escolhido para substituir o Magro, por eu ter essa afinidade com o vocal e por sermos amigos.
A parte do combate, do ser combativo, que é o MPB4, foi outro grande presente. Tenho profunda admiração pelo posicionamento que eles sempre tiveram, algo muito coerente. Procuro participar disso e levar adiante.
Estou no MPB4 há 14 anos, vai fazer 14 anos em outubro. É muito tempo, mas já nesta fase consolidada. O MPB4 é amado pelo Brasil todo. Vejo como viajamos, trabalhamos e chegamos aos lugares: o respeito é tanto pela música quanto pelo posicionamento. Acho até mais pela música, curiosamente.
O som do MPB4 é uma marca muito forte que tem a vantagem de ter esse discurso combativo ativo. Tenho muito orgulho de estar aqui com eles há esse tempo todo nessas duas frentes tão importantes.
Como surgiu esse ímpeto de fazer diferente? Quais foram as referências?
Aquiles Rique Reis: Quando surgimos, em uma fase pré-golpe de 1964, participávamos do Centro Popular de Cultura (CPC), lá em Niterói (RJ), onde morávamos. Nosso repertório naquela época se juntava com nossa disposição política.
Depois do golpe de 1964, profissionalizamo-nos em São Paulo e continuamos a buscar um repertório que nos marcasse como um grupo de esquerda, mas com músicas de que gostássemos pela própria harmonia, melodia e ritmo. Assim fomos criando.
Uma das pessoas fundamentais nesse início foi o Magro, nosso diretor musical e maestro. Naquela época, entre 1964 e 1965, já como profissionais, ouvíamos os grupos vocais da época: éramos fãs do Os Cariocas e do Trio Tambá, quando fazia vocalizações.
Ouvíamos grupos vocais estrangeiros, como The Swingle Singers e The Hi-Lo’s. O trabalho do Magro foi buscar um DNA que nos marcasse vocalmente. Por mais que admirássemos o grupo Os Cariocas, não queríamos partir para aquele virtuosismo vocal puxado para o agudo, como o Severino Filho fazia.
Nós partimos do grave e começamos também a privilegiar as letras. Lembro-me de que uma das nossas primeiras gravações foi Olê Olá, do Chico Buarque. Cantamos a música toda em uníssono, abrindo somente um acorde perfeito na última sílaba. Fomos criticados na época “como um grupo vocal canta em uníssono e não faz vocalização?”. Isso nos marcou.
Logo em seguida, o Magro fez o arranjo para Lamentos, do Pixinguinha, com letra de Vinícius de Moraes. Ali o Magro se soltou vocalmente e o MPB4 mostrou que poderia ter esse preciosismo vocal. Aos poucos, fomos mantendo nossa característica de valorizar os versos e a poesia, mas mostrando que sabemos fazer vocal e, quando fazemos, fica bonito e as pessoas ouvem o recado que pretendemos dar.
Essa conjuntura criou a personalidade do MPB4, com a qual estamos até hoje trabalhando com muito orgulho e prazer. Sobrevivemos hoje de fazer shows. O carinho que recebemos em cada apresentação é estimulante. Mostra que o caminho que escolhemos trilhar não foi fácil, mas foi prazeroso.
O MPB4 é conhecido pelas grandes parcerias, de Noel Rosa e Milton Nascimento a Chico Buarque. É possível dizer qual foi a parceria mais emblemática? Há alguma que guardam com carinho como divisor de águas?
Paulo Malagutti: Acho que há dois: o Chico Buarque e o Paulo César Pinheiro. O Paulo César Pinheiro está em dezenas de músicas escolhidas pelo MPB4. Cicatrizes, que é uma música em parceria com Miltinho, é um grande sucesso nas rodas de samba. Vamos cantá-la amanhã aqui em Curitiba.
Cantar essas coisas é um prazer imenso. Sou muito fã do Chico e do Paulo César Pinheiro também. Esses dois, a partir dos anos 1960, apontaram direções importantíssimas na música brasileira.
Aquiles, o emblemático Terceiro Festival da Música Popular Brasileira, que aconteceu em 1967, era uma tradição que reunia a nata da música e trazia os grandes sucessos. MPB4 e Chico Buarque, com Roda Viva, ficaram em terceiro lugar. Foi uma frustração ou vocês entenderam?
Aquiles Rique Reis: Não houve frustração, porque naquela época já éramos gigantes também. Éramos todos gigantes e contratados da TV Record. Foi um momento muito especial da música brasileira porque calhou de juntar todo mundo surgindo naquele mesmo momento.
Tornou-se ainda mais favorável porque um empresário do meio televisivo, Paulo Machado de Carvalho, percebeu que ganharia muito dinheiro com a música popular brasileira que se fazia naquela época.
A TV Record, sob a administração do Paulinho Machado de Carvalho, tinha um musical por dia no horário nobre. A Record daquela época fazia com a música brasileira o mesmo que as televisões de hoje fazem com as novelas. Quando surgiram os festivais, a Record já tinha fidelizado um telespectador que adorava a música brasileira.
Os festivais serviram como trampolim para projetar esse povo todo e fazer com que fossem reconhecidos nacionalmente. O clima nos bastidores em 1967 era de muita competitividade, mas, ao mesmo tempo, de uma camaradagem grande. Éramos jovens naquela época — pode parecer brincadeira, mas já fomos jovens um dia — e éramos mais próximos do que somos hoje. Hoje cada um está no seu canto.
O grupo foi formado a partir de um encontro entre vocês quando a maioria estava na universidade e muitos eram integrantes da União Nacional dos Estudantes (UNE). Vocês diriam que a UNE segue com essa importância e contundência para a música, arte e formação política?
Aquiles Rique Reis: Eu acho que sim, apesar de que o movimento estudantil daquela época era muito mais vigoroso. Hoje, vendo de fora, não percebo uma atividade tão vigorosa como percebia lá atrás, em que o movimento estudantil tinha muito mais participação e posicionamento diante das situações políticas do país.
A participação da juventude é fundamental em qualquer processo de mudança na vida de um país. A UNE continua aí, como o MST continua forte e o movimento sindical também. Esse povo todo está na política de hoje. Estamos todos aí, cada um na sua atividade, tentando fazer o melhor possível para tornar o Brasil um país bom de se viver, com o povo satisfeito e feliz.
Conversa Bem Viver

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