O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, já entrou para a história do cinema brasileiro com as indicações em quatro categorias para o Oscar, repetindo o recorde histórico de filmes brasileiros, antes exclusivo de Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, em 2004. Uma das estatuetas que podem vir para o Brasil neste ano é de uma categoria que estreia na premiação: a de melhor seleção de elenco. E o Conversa Bem Viver desta terça-feira (3) recebe um dos responsáveis por esse sucesso: o diretor de elenco Gabriel Domingues.
Quando perguntado sobre quais as chances do filme brasileiro na disputa, que O Agente Secreto concorre também nas categorias de melhor filme, melhor filme internacional e melhor ator, com Wagner Moura, Domingues é direto: “Eu acho que é nas quatro”. Após passar pelos Estados Unidos para falar sobre o filme, ele afirma ter visto uma recepção muito positiva dos críticos.
Sobre a indicação na categoria de melhor seleção de elenco, ele afirma que ficou “super feliz, honradíssimo, surpreso, chocado, catatônico”, e diz já ter vivenciado “um choque” com os eventos que participou no coração da indústria cinematográfica mundial.
“Eu fiquei muito impressionado com a escala das coisas, eu não tinha nem ideia. Eu estou aqui no Brasil há 36 anos, desde sempre, e apesar disso consumi muito cinema hollywoodiano a vida inteira. Você chega lá e você vê de perto aquele metiê, aquele universo, aquelas pessoas. Isso para mim foi bem chocante”, contou.
Confira a entrevista completa:
Brasil de Fato: Vamos começar conversando um pouquinho sobre como foi aquela quinta-feira que foram anunciados os indicados [ao Oscar] e seu nome apareceu. Você já esperava?
Gabriel Domingues: Não, não é que eu esperava. Desde que saiu o meu nome na pré-seleção, que tinha dez filmes indicados, dez nomes indicados para essa nova categoria, ali já foi um momento de: “Caramba, vou para Los Angeles, então, participar de todos os eventos que essa pré-indicação requer”. Então eu já comecei a viver um pouco essa emoção ali.
Eu demorei acho que um mês e meio da pré-indicação até a minha primeira ida para os Estados Unidos. Eu acho que o meu choque maior foi ir para os Estados Unidos, eu nunca tinha ido. Conhecer Los Angeles, conhecer Nova York e conhecer todo esse contexto da produção norte-americana, inserido no coração da indústria. Eu fui colocado no centro das tomadas decisões da indústria norte-americana. Eu fiquei muito próximo, conheci muita gente da indústria, participei de vários eventos com os votantes, membros da academia. Tudo isso convidado e guiado pela Neon, que é a distribuidora norte-americana do filme.
Para mim, o meu maior choque foi ir para lá. Eu fiquei muito impressionado com a escala das coisas, eu não tinha nem ideia. Eu estou aqui no Brasil há 36 anos, desde sempre, e apesar disso consumi muito cinema hollywoodiano a vida inteira. Você chega lá e você vê de perto aquele metiê, aquele universo, aquelas pessoas. Isso para mim foi bem chocante.
E aí tem esse evento que é o que eles chamam de bake-off, que é uma noite numa sala de projeção do cinema do museu da academia, onde eles projetam uma pequena entrevista, uma conversa. Eles mandam sete perguntas previamente estabelecidas e a gente respondeu isso para os representantes da academia na categoria de casting [elenco]. Tem três líderes dessa categoria que conduziram essa pequena entrevista de 20 minutos que eles gravaram e projetaram lá no dia no museu da academia. E ali eu senti que eu tinha mandado bem. A minha entrevista foi legal, eles gostam muito do filme.
Acho que também o trabalho de de seleção de elenco do filme falou muito para eles. Eles estavam muito interessados pelo filme, e assistiram o filme várias vezes. Nas conversas eu podia sentir que eles tinham ali um certo fascínio pelo trabalho da escalação de elenco do filme O Agente Secreto. Eu fiz esse trabalho, fui para lá, respondi as perguntas, teve a apresentação, conheci um monte de gente, conversei a beça e rolou, foram 10 dias desse processo.
Quando eu voltei para o Brasil, eu estava em pleno choque cultural, saindo de um choque cultural avassalador e falei: “Bem, agora vamos saber, né?”. Ninguém tinha muita noção de quais seriam os parâmetros que eles iam usar para escolher os filmes que seriam indicados, se era a qualidade das performances ou a precisão na escalação. E eles também tinham dúvidas, eu me senti bem, me senti acolhido, me senti confortável porque eu vi que eles também tinham dúvidas, por ser o primeiro ano [da categoria], então todo mundo estava no mesmo barco e deu certo.
Fiquei super feliz, honradíssimo, surpreso, chocado, catatônico, mas não foi como se fosse a primeira primeira emoção que eu senti, eu já tava num processo de meses vivendo essa situação.
Como foi o processo de seleção do elenco? À medida que O Agente Secreto foi ganhando proporção, e principalmente agora, depois que teve essas nomeações, muito se comentou, seja na crítica especializada ou não especializada, sobre como os atores que foram escolhidos – fora o Wagner Moura que já é uma figurinha bem carimbada. As pessoas diziam “parece que nem são atores”, até menosprezando um pouco os profissionais que foram escolhidos, olhando para eles quase como se não fossem de fato profissionais da área. Todos ali tinham uma boa experiência, talvez alguns estrearam em longa metragem, mas todo mundo ali é do teatro, tem uma boa experiência. Não foi caminhando na rua que vocês encontraram essas pessoas.
Eu acho que as pessoas verdadeiramente não têm a noção do que é o processo de fazer um filme com suas inúmeras nuances, processos e questões. Elas não têm muita dimensão do que é o processo de fazer um filme. Ninguém sabe exatamente como se escala o elenco de um filme, inclusive porque não existe uma forma de fazer, existem inúmeras. Cada filme, cada projeto, cada obra pede um jeito diferente. Cada autor tem a sua forma de trabalhar.
Talvez isso nem seja uma exclusividade do Brasil, eu acho que também senti isso um pouco em certos contextos internacionais. Tem um pouco de dúvida e um certo mistério, uma certa curiosidade de saber como se dá a escalação de um filme. E a gente vai respondendo de acordo com o contexto. Dito isso, eu acho que essa dúvida se as pessoas são ou não atores profissionais, e o que é um ator profissional também, enfim.
A gente tem no Brasil uma tradição de cinema que mescla muito atores que já têm uma carreira estabelecida com outros que não tem. Por exemplo, eu estava pensando em Pixote de Hector Babenco, que é um filme repleto de atores não profissionais, mas ao mesmo tempo a Fátima Toledo, que foi a pessoa que fez a escalação de elenco, dava aula de teatro numa casa de correção social. Ela recrutou muitas pessoas que participavam das oficinas dela. Então, o cinema brasileiro já tem uma tradição de de trabalhar com atores não profissionais ou atores espontâneos, não sei qual é o termo correto. Mas assim, talvez isso seja até uma característica que a gente encontra em muitos filmes brasileiros.
O Agente Secreto, especificamente, foi feito em um momento da minha carreira, e falo enquanto diretor de elenco, uma pessoa que faz a escalação do elenco de filmes, séries, que trabalhou muito nos últimos 12 anos. Eu já tenho um arcabouço e um repertório de acessos e possibilidades de atores, uma pesquisa que já foi feita, e eu continuo fazendo, com pessoas que estão muito fora do radar, que estão fora do que se espera e fora do que é talvez o cinema ou o audiovisual mais massivo, que passa pela televisão também. Talvez a minha forma de trabalhar escape um pouco ao que as pessoas estão acostumadas a ver no audiovisual mais de massas.
Eu comecei a trabalhar em cinema autoral, que a gente tem uma liberdade muito grande nas decisões de escalação, no processo de pesquisa. Eu acho que ter vindo do cinema autoral já me deu um olhar muito apurado e muito interessado em pessoas que não necessariamente ocupam um lugar de visibilidade ou de reconhecimento nos veículos que as produções mais tradicionais geralmente têm.
Eu acho que essa dúvida talvez fale um pouco sobre os tipos físicos que a gente vê na maior parte das produções. A gente tem ali uma galera maravilhosa, super capacitada, gabaritada, que estudou a beça. Todo mundo já fez teatro, em suas respectivas cidades, em suas respectivas zonas de influência. As pessoas construíram uma carreira e têm uma uma formação muito sólida, eu acho que isso gera essa dúvida. As pessoas ficam: “Mas são não atores, de onde vieram?”. E eu respondo: “Vieram das suas cidades”.
Talvez aqui no Sudeste a gente não alcance essas nuances, mas João Pessoa é repleta de grandes atores, Fortaleza é repleta de grandes atores, Natal é repleta de grandes atores, Maceió, Recife. O Brasil é imenso, é gigante, se a gente tiver interesse pelas pessoas do Brasil, não falta lugar para a gente ir, para conhecer gente, cruzar o nosso caminho com os caminhos das pessoas. Isso é uma coisa coisa que o cinema mais autoral pode trazer.
Obviamente, há atores não profissionais no filme. Tipo Tânia Maria, que é um exemplo de uma pessoa que não se profissionalizou enquanto atriz, mas ela tem 72 anos, ela é incrível, ela é uma gênia, uma pessoa extraordinária. Ela já tinha feito Bacurau, ela já tem experiência com cinema de alguma forma. E ela fez outros filmes.
Na forma de trabalhar em O Agente Secreto, a gente tinha um consenso e um diálogo muito interessante de que era possível convidar pessoas que talvez não tivessem tido experiências profissionais em cinema antes, mas a gente construir um espaço de segurança, conforto, convidar essas pessoas para ir até Recife conversar com o Kleber [Mendonça Filho, diretor do filme], para conversar com o Leonardo Lacca, que é o preparador de elenco, diretor assistente e aí a gente dividir com essas pessoas também o que que a gente faz.
É um processo bilateral, de interesse mútuo. Obviamente requer tempo, atenção, cuidado, uma série de coisas que muitas vezes certas produções não têm, inclusive por questões de orçamento. Felizmente a gente tinha em O Agente Secreto esse pensamento. Emilie [Lesclaux, produtora do filme] é uma produtora que tem uma visão artística incrível, então ela tomou esse cuidado, de criar o processo com essa inclusão das pessoas e esse convite para fazer uma investigação mais lenta e profunda dos lugares que cada possibilidade de ator poderia chegar no filme.
Você participou de filmes como A Melhor Mãe do Mundo, de Anna Muylaert; O Último Azul, de Gabriel Mascaro; e Baby, de Marcelo Caetano. Em sua trajetória, sempre tem essa percepção de achar atores que estão despontando, faltando só alguém acreditar.
Você citou três filmes muito diferentes e que meus processos de trabalho foram muito diferentes entre si. O filme da Ana, que eu amo – amo a Ana e amo o filme A Melhor Mãe do Mundo. A seleção da Shirley [Cruz, protagonista] foi um processo muito rico, muito interessante, de pensar na escalação dessa atriz para interpretar essa personagem que é uma mulher que vive à margem, uma catadora que está nas ruas de São Paulo. E a gente fez inúmeros testes. Foi um processo super profundo, cuidadoso.
A Shirley, que é uma atriz com quem a Ana já tinha trabalhado, eu já tinha trabalhado, a gente admira muito. Ela trouxe para a personagem uma força extraordinária. Acabou de ganhar o prêmio APCA [Associação Paulista de Críticos Teatrais], merecidíssimo. A Shirley é brilhante, e ela talvez não tenha tido as oportunidades, na carreira dela em outros projetos, porque as pessoas entenderam que ela não tinha certas características que se buscam para grandes papéis na TV ou sei lá onde. Mas para o nosso filme especificamente, como é um um cinema autoral e a gente tinha essa liberdade, tinha essa essa vontade da Ana de absorver esse drama humano vivido pela personagem. A Shirley caiu como uma luva e foi perfeita, contribuiu muito e trouxe muito da experiência dela e da vivência dela e do olhar dela sobre o mundo.
É um tipo de processo muito específico fazer um longa-metragem com uma cineasta que tem uma carreira consolidadíssima, mas que tem uma vontade também de tocar em outras questões, de alcançar outros discursos com o filme, de de chegar numa outra numa camada mais profunda de um problema social. Então, a colaboração da Shirley foi fascinante.
No caso do filme do Gabriel, O Último Azul, eu trabalhei em colaboração com o Diego Bauer, que é um super articulador e artista, cineasta de Manaus. Eu conheci muitos atores de Manaus. O filme foi rodado em Manacapuru, que fica a algumas horas de Manaus. Foi incrível a troca. Eu moro no Sudeste, eu sou sudestino, mas eu já trabalhei, já fiz alguns projetos lá.
Conversar com o Diego, com o Gabriel [Mascaro], entender as possibilidades, conhecer a cena de Manaus nas suas profundidades, foi incrível. Fazer teste, encontrar a galera, conhecer a produção de Manaus, que tem filmes incríveis. O Diego tem filmes incríveis com atores sensacionais. A Isabela Catão, uma atriz que eu amo, eu conheci nesse processo, ela é manauara, e também me abriu muito os horizontes.
É muito interessante quando você vai para um lugar desse, para uma cidade como essa, Manaus, gigante, repleta de possibilidades, repleta de representações humanas. Eu considero um privilégio, uma sorte tremenda, eu chegar lá na função de fazer a escalação de um filme e poder conhecer a produção das pessoas. Poder me aproximar, poder conversar. Para isso acontecer, você precisa ter o interesse. A minha experiência de trabalho com a as pessoas da cena de Manaus mudou minha vida radicalmente. Eu não fui a mesma pessoa depois de passar pelo Amazonas e por Manaus, definitivamente. A gente tem o Adanilo, que é um grande ator, genial, que é de Manaus. Enfim, tem um elenco, expressivo do Amazonas no filme. Eu amei fazer O Último Azul, do Gabriel Mascaro.
No [filme] Baby eu sou roteirista. Eu trabalho com o Marcelo Caetano há mais de dez anos, também sou roteirista do Corpo Elétrico. No caso do Baby, eu estava mais na dramaturgia e no pensamento da história, das cenas, do ambiente. Mas é claro que eu dava os pitacos ali nas escolhas do elenco.
O Agente Secreto concorre ao Oscar em quatro categorias: melhor filme, melhor filme internacional, direção de elenco e também melhor ator, com Wagner Moura. Em qual dessas categorias há mais chances?
Eu acho que é nas quatro. Eu gostaria muito que ganhasse nas quatro categorias. Eu acho que o Wagner tem muitas chances. Ele está num momento incrível, acabou de ganhar o Globo de Ouro. Eu percebo o quanto as pessoas admiram o trabalho dele lá. Eu pude cruzar com ele em alguns eventos em Los Angeles e Nova York. E, cara, ele está muito bem, ele está incrível no filme.
Acho que o filme serve para mostrar muitas nuances e muitas facetas dele como ator. Ele interpreta várias fases do mesmo personagem, depois interpreta o próprio o filho do personagem. Interpreta vários personagens no mesmo filme. E isso é incrível. Eu acho que ele tem muitas chances.
Melhor filme estrangeiro também é uma é uma possibilidade muito real. Também ganhou o Globo de Ouro. É claro que os outros filmes [indicados] também são muito bons. É torcer mesmo para acontecer.
E da minha parte, da minha categoria, se rolar vai ser incrível. Eu tenho conversado com as outras indicadas, a gente participou de uma mesa redonda para um veículo de imprensa inglês e foi super legal. Elas são incríveis, foram incríveis comigo. Três são americanas, uma é inglesa e eu brasileiro, então todas falam inglês nativo. E eu falando meu inglês de brasileiro, tentando me fazer entender, e elas foram muito legais comigo, são muito generosas e admiram muito o filme, também.
Eu estou achando um ambiente muito saudável até aqui, de troca com as pessoas nesse processo. Eu entendi também que o Oscar é uma celebração. Todos os indicados fizeram um trabalho extraordinário, chegar até aqui já é um extraordinário. É mais sobre celebração que sobre competitividade. Eu entendi que é uma grande festa. Que bom que a gente está podendo participar dessa festa agora.
Conversa Bem Viver

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