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‘É maior do que fazer um casal trans, estamos falando de layout de sociedade’, diz Pedro Novaes

O ator que interpreta o Léo na novela ‘Três graças’ fala sobre seu personagem e a parceria com a atriz Gabriela Loham

Pedro Novaes
Pedro Novaes | crédito: Amanda Aguiar

O dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), divulgado no final de janeiro, que é marcado como o mês da visibilidade trans, revela que pelo menos 80 pessoas trans e travestis foram assassinadas no Brasil em 2025.

Em relação a dados como estes, o ator Pedro Novaes, que interpreta Leonardo Ferreti na novela Três graças, exibida em horário nobre na TV Globo, disse em entrevista ao Conversa Bem Viver. “A gente vive num país que mais mata pessoas trans atualmente ainda, então a gente tem um problema.”

A vivência das pessoas trans no Brasil não é um tema comum na teledramaturgia nacional, lógica que vem sendo quebrada pelo casal formado por Pedro e a atriz Gabriela Loham, mulher trans que interpreta Viviane.

Pedro destaca ainda que presença do casal na novela pode ter um papel didático junto ao público brasileiro e aponta que apresentar essa realidade é uma das formas de combater preconceitos. “A gente vê muitos preconceitos, mas para quebrar esses preconceitos a gente tem que botar eles no mundo, tem que falar sobre isso e contar histórias como ViLéo para que as pessoas possam se moldar, se mover, diante disso”, disse o ator

Confira a entrevista completa

Brasil de Fato: Queria começar falando contigo sobre seu personagem na novela ‘Três graças’, Léo que está protagonizando o casal com a personagem Viviane interpretada por Gabriela Loran. Como casal já deu para entender que está entrando num momento conturbado.

Pedro Novaes: Eu acho que esse é um bom momento para a gente conversar sobre isso, sobre esses problemas que vão vir acontecer entre Léo e Viviane. Pelo personagem, eu acho que ele já tem que acordar pedindo desculpas, mas, como ator Pedro, eu tenho um orgulho gigante de fazer esse personagem.

Porque ele é tão necessário para a sociedade que a gente vive atualmente e tudo que já foi vivido antes, e eu tenho essa oportunidade junto de Gabi contar uma história que acontece muito no Brasil. Estou muito feliz mesmo com o trabalho que a gente tem construído com o time todo.

Quando te convidaram para interpretar ele e você viu o arco narrativo dele. Você já percebeu que seria um personagem de muita reflexão, tanto pessoal, mas para sociedade? 

Claro, sim, quando eu recebi o convite, eu recebi o resumo inicial do que ia acontecer. Claro que a gente tem um arco aberto, é uma obra aberta, então, a gente vai ditando junto com o autor, a direção e os atores o arco da onde ele pode ir, tem muito dedo dos atores e das atrizes sobre sobre a história do personagem.

Mas quando recebi o convite, foi um assunto de muita seriedade, muito importante para por essa narrativa de um personagem que ia ter uma índole muito conturbada através desse pai e que ele ia acabar se envolvendo com uma mulher trans, e o cenário da vida dele ia mudar completamente, e ali eu entendi que realmente a gente ia estar falando de uma pauta necessária, de uma pauta séria, de uma coisa que a gente tem que falar. Esse foi um dos motivos de eu aceitar esse personagem. Sabia que ia ser um grande desafio, dentro da minha carreira, eu procuro sempre personagens que me desafiam, que me tiram do meu lugar de conforto. Na hora que recebi o convite, eu falei: “Hum, aqui tem uma oportunidade para escrever uma história bonita, de carreira pessoal também”.

A Viviane é interpretada pela grande Gabriela Loham, e a gente já teve a oportunidade de conversar com ela, mas eu queria saber se antes de começar a trabalhar com ela, você já conhecia o trabalho da Gabriela?

Eu tinha visto o trabalho que ela tinha feito em Renascer, mas a gente não se conhecia pessoalmente. Quando eu conheci a Gabriela pessoalmente, no primeiro encontro, a gente teve uma quebra já de qualquer gelo. Ela é uma pessoa muito séria, ela é muito letrada em tudo o que ela faz. Eu procuro estar sempre com uma escuta muito aberta, lógico, sempre. 

A Gabi é muito leve, ela traz pontos importantes com uma leveza muito grande que é como ela leva e toca a vida dela, ela tem uma segurança, uma seriedade muito incrível. E nos primeiros encontros que a gente teve, eu entendi que a gente ia ter uma troca muito maneira, justamente por se conectar, as personalidades se conectaram nesse lugar. A gente consegue muito trazer e conversar sobre assuntos muito sérios e com leveza.

Na primeira vez, eu já sabia que a gente ia fazer um trabalho bonito, porque eu particularmente tento estar com 100% da minha vontade, se estou ali é porque eu quero muito estar, isso faz eu me abrir para o meu personagem da forma como ele for. Então, eu não tive essa visão de estar receoso, de pensar se as pessoas vão aceitar, pelo contrário, estava feliz que a gente ia poder tocar nesses assuntos e me senti preparado e disposto a aprender também durante o processo, trocando com a Gabi.

A gente vê algumas pessoas, nesse nosso Brasil, que estão muito fora da realidade, parece que estão atrasadas no tempo, que falam coisas que não tem nada a ver, fazem críticas completamente off, não sabem de nada. A gente sabia que ia lidar com essas críticas, mas a gente estava ali junto para poder rebater e mostrar no trabalho uma história bonita que acontece muito no nosso Brasil.

As novelas sempre foram um marco para todo brasileiro e brasileira há cerca de 30 anos. Muitos temas delicados eram tratados de outra forma, sem tanta sensibilidade, sem tanta abertura para outras vozes. Hoje é diferente. Como está sendo para você vivenciar esse momento da novela? Você vem de uma família muito imersa dentro da novela, vocês trocam sobre esse momento e que responsabilidade a gente também tem sobre isso? 

Claro, eu ia falar sobre essa responsabilidade justamente nesse lugar. Eu acho que não é à toa que as gerações vão passando e as pessoas vão ditando as novas dinâmicas de como são as coisas. A gente vive num país que ainda tem muito preconceito, muitos erros nesse lugar, mas que já vive uma evolução muito maior. Já vive um cotidiano em que essas coisas deixaram de ser um tabu, uma problematização, e passam a ser parte do dia a dia, do cotidiano. Por que não, a gente, dessa geração, que fala sobre isso, que vive isso, por que não botar isso no entretenimento e no horário nobre da novela das nove, que a maioria dos brasileiros tem acesso, a gente poder contar isso e trazer até letramento para essas pessoas, Então acho que a responsabilidade vem desse lugar, de saber que as pessoas do Brasil estão assistindo, que a gente tem influência sobre essas pessoas.

A gente vê muitos preconceitos, mas para quebrar esses preconceitos a gente tem que botar eles no mundo, tem que falar sobre isso e contar histórias como ViLéo para que as pessoas possam se moldar, se mover diante disso. A gente vive num país que ainda mais mata pessoas trans atualmente. Então, a gente tem um problema.

Como tem sido a reação do público pessoalmente contigo? 

Todas as pessoas me param na rua, Lucas, e elas falam: “Tu vai ficar com aquela garota, hein? Tem que ficar com a Viviane”. É assim, todo mundo torcendo muito para ViLéo me traz um coração quente, porque isso foi uma das coisas que a gente quis que acontecesse. Que as pessoas torcessem por esse casal. As pessoas odeiam o Ferreti, o Santiago Ferreti, eles odeiam o meu pai.

E a forma como eu vim construindo esse personagem, é como eu ia humanizar esse moleque que teve essa vida dentro desta casa, criado por esse pai hiper machista que não via nenhum outro tipo de saída a não ser assumir o lugar do pai e ser igual ao pai. E aí ele quebra essa realidade quando conhece a Viviane e aí como eu humanizo essa transição, foi através do amor mesmo deles. O amor vem para salvar, sempre.

Quando você pega um personagem desses emblemático, que ele tem muitas facetas, que está num local delicado, que precisa que a mensagem desse personagem dialogue bastante com a sociedade, que tenha, de certa forma, um tom  até pedagógico, de mostrar a figura desse desse herdeiro, um homem branco, hétero, como que ele precisa aparecer pra sociedade, você busca o Marcelo Novaes, a Letícia Spiller, teus pais, como referência?

Nessas horas eu acho que não. Eu busco muitas referências nos meus pais, lógico, em termos de atuação, mas eu fiz uma construção pessoal, fiz uma preparação por fora da novela também para poder chegar nesse lugar de assumir esse lado terrível do Léo, e botar isso como uma verdade no personagem.

Eu não vivo essa realidade desse personagem, eu não tenho essa vivência, não falo como ele, não penso como ele, mas como é que eu faço isso com verdade? Eu fui buscar em situações que já aconteceram na minha vida, de pessoas que eu conheço que que possam ter um pezinho nessa realidade do Léo ou então até em relatos de outras pessoas que já viveram situações como de ter um Léo do outro lado, e sentiram a arrogância desse personagem, a insalubridade, né, dessa pessoa e comecei a botar isso em contexto dentro de cena.

A gente vê muito isso acontecer, no Brasil afora, é só você ligar a TV. Estamos falando de um ano eleitoral e a gente tem uma pauta na novela das nove em que a gente pode contestar muita coisa. Você liga a TV e ouve um discurso, de um cara que vai falar atrocidades e isso também é referência, tudo é estudo. É muito maior do que só fazer um casal trans, a gente tá falando de de um layout de sociedade, é muito grandioso.

É uma ficção mas é uma ficção que fala sobre verdade. A novela e o entretenimento tem essa importância também para fazer política.

Você pensou em ter o Spiller no sobrenome ao invés de Novaes?

A galera já questionou muito isso, sabia? O Spiller ele não tá no meu nome, meu nome é Pedro Pena Novaes. Eu até questionei minha mãe depois que rolou um meme. Podia até os dois Spiller Novaes, mas foi uma questão lá de na hora que ela foi botar o nome, toda essa questão social, patriarcal também, da de puxar um nome que é do pai, tem toda essa situação, mas que, de repente, um dia eu posso botar, vou pensar nisso.

E para fechar, queria falar um pouco do Pedro Novaes músico. Conta um pouquinho como está essa dupla identidade, como consegue conciliar essas coisas?

Minha vida é uma loucura, só que eu amo essa loucura, porque eu sou apaixonado e vidrado na música, eu já estou neste ramo há muito tempo. 

Uma hora eu estava na atuação. Aí a outra hora eu virava para a música, isso com 12, 13, 14 anos de idade. Depois teve uma hora que eu entendi, que foi quando eu fiz Malhação, que eu podia fazer as duas coisas, e uma ia puxar a outra. As duas coisas iam se ajudar.

A gente tem esse projeto já faz 10 anos, que é a Banda Fuze e a gente tem uma ligação muito gostosa. Eu estou no estúdio todos dias. Quando eu não estou na Globo, eu volto pro estúdio, e a gente tem uma agenda de show muito maneira e fã clubes muito maneiros.

A gente já lançou um álbum e vamos lançar o álbum novo esse ano. Isso nunca para, sou apaixonado demais. 

Conversa Bem Viver

Em diferentes horários, de segunda a sexta-feira, o programa é transmitido na Rádio Super de Sorocaba (SP); Rádio Palermo (SP); Rádio Cantareira (SP); Rádio Interativa, de Senador Alexandre Costa (MA); Rádio Comunitária Malhada do Jatobá, de São João do Piauí (PI); Rádio Terra Livre (MST), de Abelardo Luz (SC); Rádio Timbira, de São Luís (MA); Rádio Terra Livre de Hulha Negra (RN), Rádio Camponesa, em Itapeva (SP), Rádio Onda FM, de Novo Cruzeiro (MG), Rádio Pife, de Brasília (DF), Rádio Cidade, de João Pessoa (PB), Rádio Palermo (SP), Rádio Torres Cidade (RS); Rádio Cantareira (SP); Rádio Keraz; Web Rádio Studio F; Rádio Seguros MA; Rádio Iguaçu FM; Rádio Unidade Digital ; Rádio Cidade Classic HIts; Playlisten; Rádio Cidade; Web Rádio Apocalipse; Rádio; Alternativa Sul FM; Alberto dos Anjos; Rádio Voz da Cidade; Rádio Nativa FM; Rádio News 77; Web Rádio Líder Baixio; Rádio Super Nova; Rádio Ribeirinha Libertadora; Uruguaiana FM; Serra Azul FM; Folha 390; Rádio Chapada FM; Rbn; Web Rádio Mombassom; Fogão 24 Horas; Web Rádio Brisa; Rádio Palermo; Rádio Web Estação Mirim; Rádio Líder; Nova Geração; Ana Terra FM; Rádio Metropolitana de Piracicaba; Rádio Alternativa FM; Rádio Web Torres Cidade; Objetiva Cast; DMnews Web Rádio; Criativa Web Rádio; Rádio Notícias; Topmix Digital MS; Rádio Oriental Sul; Mogiana Web; Rádio Atalaia FM Rio; Rádio Vila Mix; Web Rádio Palmeira; Web Rádio Travessia; Rádio Millennium; Rádio EsportesNet; Rádio Altura FM; Web Rádio Cidade; Rádio Viva a Vida; Rádio Regional Vale FM; Rádio Gerasom; Coruja Web; Vale do Tempo; Servo do Rei; Rádio Best Sound; Rádio Lagoa Azul; Rádio Show Livre; Web Rádio Sintonizando os Corações; Rádio Campos Belos; Rádio Mundial; Clic Rádio Porto Alegre; Web Rádio Rosana; Rádio Cidade Light; União FM; Rádio Araras FM; Rádios Educadora e Transamérica; Rádio Jerônimo; Web Rádio Imaculado Coração; Rede Líder Web; Rádio Club; Rede dos Trabalhadores; Angelu’Song; Web Rádio Nacional; Rádio SINTSEPANSA; Luz News; Montanha Rádio; Rede Vida Brasil; Rádio Broto FM; Rádio Campestre; Rádio Profética Gospel; Chip i7 FM; Rádio Breganejo; Rádio Web Live; Ldnews; Rádio Clube Campos Novos; Rádio Terra Viva; Rádio interativa; Cristofm.net; Rádio Master Net; Rádio Barreto Web; Radio RockChat; Rádio Happiness; Mex FM; Voadeira Rádio Web; Lully FM; Web Rádionin; Rádio Interação; Web Rádio Engeforest; Web Rádio Pentecoste; Web Rádio Liverock; Web Rádio Fatos; Rádio Augusto Barbosa Online; Super FM; Rádio Interação Arcoverde; Rádio; Independência Recife; Rádio Cidadania FM; Web Rádio 102; Web Rádio Fonte da Vida; Rádio Web Studio P; São José Web Rádio – Prados (MG); Webrádio Cultura de Santa Maria; Web Rádio Universo Livre; Rádio Villa; Rádio Farol FM; Viva FM; Rádio Interativa de Jequitinhonha; Estilo – WebRádio; Rede Nova Sat FM; Rádio Comunitária Impacto 87,9FM; Web Rádio DNA Brasil; Nova onda FM; Cabn; Leal FM; Rádio Itapetininga; Rádio Vidas; Primeflashits; Rádio Deus Vivo; Rádio Cuieiras FM; Rádio Comunitária Tupancy; Sete News; Moreno Rádio Web; Rádio Web Esperança; Vila Boa FM; Novataweb; Rural FM Web; Bela Vista Web; Rádio Senzala; Rádio Pagu; Rádio Santidade; M’ysa; Criativa FM de Capitólio; Rádio Nordeste da Bahia; Rádio Central; Rádio VHV; Cultura1 Web Rádio; Rádio da Rua; Web Music; Piedade FM; Rádio 94 FM Itararé; Rádio Luna Rio; Mar Azul FM; Rádio Web Piauí; Savic; Web Rádio Link; EG Link; Web Rádio Brasil Sertaneja; Web Rádio Sindviarios/CUT.

O programa de rádio Bem Viver vai ao ar de segunda a sexta-feira, às 7h, na Rádio Brasil de Fato. A sintonia é 98,9 FM na Grande São Paulo. A versão em vídeo é semanal e vai ao ar aos sábados a partir das 13h30 no YouTube do Brasil de Fato e TVs retransmissoras.

Assim como os demais conteúdos, o Brasil de Fato disponibiliza o programa Bem Viver de forma gratuita para rádios comunitárias, rádios-poste e outras emissoras que manifestarem interesse em veicular o conteúdo. Para ser incluído na nossa lista de distribuição, entre em contato por meio do formulário.

Editado por: Maria Teresa Cruz

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