Cinema Nacional

‘Quanto mais a gente fala do jeito brasileiro, mais chance de chegar longe com os nossos filmes’, diz Karine Teles

Homenageada na Mostra Tiradentes, a atriz Karine Teles fala sobre o cinema nacional e destaques de sua carreira

A atriz Karine Teles
A atriz Karine Teles já participou de diversas produções brasileiras como ‘Bacurau’ e ‘Que horas ela volta?’ | Crédito: Duda Mafra

Na edição deste ano da Mostra de Cinema de Tiradentes, um dos mais tradicionais festivais de cinema no Brasil, a homenageada com o Troféu Barroco foi a atriz, diretora e roteirista brasileira Karine Teles.

Com uma carreira consolidada no cinema, ela integrou os elencos de filmes como Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert,  Benzinho, de Gustavo Pizzi, Bacurau, de Kleber Mendonça Filho, e, mais recentemente, Salve Rosa, de Susanna Lira. Mas a própria atriz considera que foi interpretando Aldeide no remake da novela Vale Tudo, da TV Globo, em 2025, que ela ganhou popularidade com o público brasileiro.

“A televisão realmente tem uma força muito grande no nosso país. A maioria dos nossos municípios não têm sala de cinema, mas todo mundo assiste televisão e novela, é uma parte forte da nossa cultura, é uma coisa muito brasileira”, analisou a atriz.

Em entrevista ao Conversa Bem Viver, Teles, fala da carreira, da repercussão do cinema nacional em grandes festivais e premiações como o Oscar, sobre a força das identidades brasileiras dentro do cinema e também sobre a importância das leis de incentivo para a valorização do audiovisual brasileiro.

Confira a entrevista completa

Brasil de Fato: Este ano você foi homenageada com o Troféu Barroco dentro da Mostra de Cinema de Tiradentes, queria te ouvir sobre como foi essa homenagem, e também de como foi a receptividade lá na cidade mineira.

Karine Teles: Fiquei muito surpresa mesmo quando eu recebi o telefonema da Raquel Hallak, que é a diretora do festival, fiquei muito honrada e aceitei na hora. Mas depois eu fiquei pensando, falando: “Caramba, eu me considero uma pessoa que tá num caminho, normalmente a gente vê homenagem para pessoas que já tem muito tempo de história. Mas ao mesmo tempo eu vi que o perfil das homenagens é sempre mais esse, de gente que tá trabalhando, gente que tá vivendo, que tá fazendo coisa e fiquei muito feliz.

Para mim, além da honra de ter o meu trabalho reconhecido e homenageado nesta mostra que privilegia o encontro, a discussão, a apresentação de diversas linguagens, de cinemas que estão se pensando no Brasil inteiro, então, o meu trabalho ser homenageado numa mostra que tem esse pensamento, foi muito legal.

Mas além disso tudo, ter podido ficar durante a mostra, viver a mostra, ver os filmes, ir nos debates, estar na cidade. Eu levei meus filhos, que são gêmeos, são com 15 anos, eles fizeram uma oficina. Então, foi a vez que eu vivi mais a mostra de verdade, isso para mim foi uma das melhores partes.

O carinho da mostra e da cidade comigo foi sensacional. Na própria cerimônia de abertura, o momento da homenagem foi muito especial, muito bonito. Eu me senti abraçada, me senti acarinhada.

A mostra Tiradentes sempre tenta ser contundente e política nos seus temas, mas esse ano parece que dobraram um pouco a aposta  muito por conta do que vem acontecendo nesse cenário internacional, e eles trouxeram para o título a temática dessa “soberania imaginativa”. Você se sentiu representada?

Acho isso fundamental a gente pensar numa soberania imaginativa, porque o nosso país, além de ser enorme, em dimensões continentais, ele tem uma cultura muito rica e muito diversa. Ela parte das nossas chagas, das nossas dores, do nosso olhar para nós mesmos e eu acho que o audiovisual faz isso muito bem. 

Eu sinto que em Tiradentes a gente tem uma amostra muito grande disso, um espelho para nós mesmos, que se apresenta para o público e onde a gente pode se ver. Eu acho que a construção de uma identidade brasileira é essa identidade plural, diversos ritmos, diversas formas de de fazer.

Eu achei esse tema lindo, acho fundamental que a gente tenha soberania imaginativa, porque sempre que se fala de dentro, a gente tem mais chance de falar com todo mundo. Quanto mais a gente fala do jeito brasileiro, olhando para dentro do Brasil, eu acho que mais chance a gente tem de chegar mais longe com os nossos filmes, com os nossos, com a nossa música.

Quero falar mais da tua carreira, você sente que a sua personagem, a Aldeide, em Vale Tudo, te colocou no outro patamar de popularidade, das pessoas pararem e falarem contigo?

Eu participei de alguns dos filmes que fizeram bastante barulho no Brasil, tanto Bacurau quanto Que horas ela volta?, foram filmes bastante assistidos, a gente teve um público expressivo. São filmes que até hoje as pessoas comentam, revisitam, tem memes desses filmes que toda hora voltam quando alguma coisa acontece na nossa política. Esses dois filmes foram muito importantes para mim, tanto pela alegria de estar em dois filmes tão importantes para o nosso cinema, quanto por me tornarem um pouco mais conhecida.

Agora, a televisão realmente tem uma força muito grande no nosso país a maioria dos nossos municípios não têm sala de cinema, mas todo mundo assiste televisão e novela. É uma parte forte da nossa cultura, é uma coisa muito brasileira, que é muito assistida. A Aldeide está me fazendo experimentar, pela primeira vez na minha carreira, esse lugar de ser popular, de ser parada na rua, de pedirem foto. Isso é tudo uma novidade para mim.

Quando eu fiz a outra novela das nove, Pantanal, que foi uma novela muito popular também, a gente estava no final da pandemia. Eu não saía tanto de casa e quando eu saía eu estava de máscara, era menos reconhecida.

Não é o meu objetivo, nunca foi, ser famosa, me tornar uma celebridade. Isso é uma consequência do meu trabalho e que eu tenho que lidar com isso, é, se eu quero permanecer na indústria, né, quanto mais tempo eu fico no trabalho, quanto mais trabalhos eu faço, naturalmente eu vou ser mais conhecida.

Em Pantanal você poderia ter sofrido porque fez uma vilã, mas como era aquele momento de pandemia, a máscara te protegia um pouco.

Eu sofri um pouco na internet, foi quando eu saí do Twitter [atual X], parei de olhar tudo isso. Tem essa coisa do algoritmo, do hate, que a gente entende hoje em dia que é uma coisa que é estimulada nas redes sociais, mas na época de Pantanal foi a primeira vez que eu lidei com comentários malvados, não eram críticas, isso não foi legal.

A dona Bárbara [personagem de Karine no filme Que Horas Ela Volta?], me trouxe um pouco disso, eu cheguei a ser maltratada. Aconteceu algumas vezes, das pessoas acharem que eu era aquela mulher,  muita gente até hoje acho que eu moro em São Paulo, nunca morei em São Paulo na minha vida. As pessoas acham que eu sou rica, burguesa, e eu sou o oposto.

Pegando um exemplo prático, a gente vai ter Avenida Brasil 2 que vai sair agora, já deve ter tudo fechado, mas bem hipotético, digamos que te convidassem para fazer a Carminha, que é uma vilã extremamente estereotipada e clássica. Hoje em dia você consideraria não aceitar um papel desses por conta dessa repercussão, desses haters? 

Aceitaria. O hate tá lá, eu não preciso olhar, não me interessa no sentido de que ele não contribui em nada com o meu trabalho. Mas eu faria certamente uma vilã, adoraria fazer uma vilã de qualquer projeto, tanto que eu já fiz muitas no cinema. 

Fiz agora em Salve Rosa também, uma personagem bem problemática, ela é bem horrorosa. Os vilões têm um papel fundamental nas discussões, e quando é o lugar onde eu vou contribuir da melhor forma no trabalho, eu faço amarradona. Eu estou me colocando a favor de uma discussão e se a personagem que eu estou fazendo é uma personagem que apresenta o lado errado da discussão, eu vou dar o meu melhor para expor esse comportamento para que quem está assistindo fique com raiva, se incomode, repense, olhe para si mesmo, compare. 

E Karine, queria te ouvir um pouco sobre sua relação com o Kleber Mendonça Filho.

Eu conheci o Kleber em 2011, num Festival de Cinema Brasileiro nos Estados Unidos. Um festival que teve uma curadoria nesse ano muito legal. Mas eu já conheci o trabalho dele, de ver os curtas, aqui no Rio tinha uma locadora chamada K Video, a gente podia alugar os filmes que eram mais difíceis de encontrar, e eu vi os primeiros trabalhos do Kleber no VHS, para você ter uma ideia, fã raiz. Então, quando ele me chamou para o filme [Bacurau], eu fiquei felicíssima, disse para ele que eu toparia qualquer personagem, a minha personagem é uma alegoria, ela não tem nome, porque Bacurau está falando de um assunto, onde eu diria que a personagem principal é a cidade, aquele grupo, que vive daquele jeito unido, organizado e livre, é o herói do filme, e a minha personagem está inserida no lado oposto, nos vilões. 

Mas eu acho ela uma figura que representa um pensamento e um comportamento infelizmente muito comum no nosso país, de achar que é especial, de tentar se aliar ao opressor como uma forma de buscar um poder. A preparação foi muito mais de entender o filme, entender a discussão e entender o que aqueles dois motoqueiros representavam naquela discussão, do que fazer uma gênese de personagem. Ela é um arquétipo, um pensamento sobre uma coisa. 

Eu sou muito fã do trabalho do Kleber. Em Bacurau, a junção dele com o Juliano [Dornelles] foi muito produtiva, muito rica, era muito bom ser dirigido pelos dois, o set era muito agradável, a gente estava muito feliz, foi muito bom de fazer.

E o O Agente Secreto, eu acho um filmaço, uma prova de que uma pessoa que tem o que dizer, que tem uma voz, que tem história, que tem pensamento, que tem ideia, que tem olhar para o cinema, quanto mais apoio e condições de fazer seus filmes com dignidade tem, mais chance tem de fazer filmes incríveis que atraiam plateias do mundo inteiro, que rendam bilheteria.

Um filme extremamente brasileiro, com uma linguagem totalmente autoral, e acho lindo que tenha dado a volta desse jeito. A cultura do Oscar, que é uma coisa que sempre esteve muito colonizada na gente. Eu lembro quando eu era criança, tinha o vinil com as músicas do Oscar, os filmes de Hollywood ainda hoje ocupam a maior parte das salas de cinema no nosso país, e um filme como O Agente Secreto estar lá, concorrendo a vários prêmios, entrando de volta no país dessa forma de de cultura, eu acho acho mágico, acho bem interessante.

Eu fico imaginando que a principal mensagem que a gente precisa tirar desse sucesso é que a gente consiga incentivar as pessoas a irem ao cinema, que o cinema fique mais barato, a gente não pode perder esse encanto do cinema, não é?

Não só pela importância social do cinema, de ser uma forma da gente se pensar, da gente se olhar. Eu acho que a gente tem uma capacidade muito grande de estabelecer o nosso audiovisual como uma das indústrias mais rentáveis do nosso país. 

Já tem números mostrando que a gente gera mais emprego e reverte mais grana de imposto para o país do que algumas das indústrias super estabelecidas. Eu acho que as leis de incentivo ao audiovisual e a cultura brasileira em geral, elas são um estímulo para que essa indústria se estabeleça, assim como a indústria da agronomia, a indústria siderúrgica, o turismo, o esporte que é um uma força muito grande do nosso país.

Isso tudo precisa e tem apoio do governo para se desenvolver, mas criou-se uma fantasia de que a cultura recebe um dinheiro que devia estar sendo investido em outras áreas, uma desinformação, eu acho que que é é um projeto político mesmo, que a gente corre o risco de de voltar onde a cultura e a educação são um problema mesmo, porque são as coisas mais poderosas e que ninguém tira de ninguém.

Bens materiais, você pode perder, mas o que você estudou, o que você aprendeu, o conhecimento que você adquiriu, ninguém tira de você. E quando as cabeças se abrem, a gente começa a ter acesso à informação, a entender o mundo, a gente começa a funcionar de uma outra maneira e eu acho mais difícil de virar massa de manobra, de uma política que às vezes é uma política de de exploração, extrativista, que é a origem do nosso país. As pessoas vinham aqui tirar o que era nosso e levar embora e sem nenhuma preocupação com quem estava aqui, de maneira violenta e horrorosa.

Eu acho que esse momento agora, com esses dois anos seguidos de tanta força do cinema brasileiro no exterior, não só no Oscar, mas em todos os festivais importantes de cinema, a gente teve filmes fortes participando sendo premiados. Agora, a gente vai ter um monte de filme brasileiro no Festival de Berlim, que é um festival super importante também. Eu acho que a gente tem que aproveitar e olhar para o que precisa melhorar, porque às vezes é bem cansativo. 

Conversa Bem Viver

Em diferentes horários, de segunda a sexta-feira, o programa é transmitido na Rádio Super de Sorocaba (SP); Rádio Palermo (SP); Rádio Cantareira (SP); Rádio Interativa, de Senador Alexandre Costa (MA); Rádio Comunitária Malhada do Jatobá, de São João do Piauí (PI); Rádio Terra Livre (MST), de Abelardo Luz (SC); Rádio Timbira, de São Luís (MA); Rádio Terra Livre de Hulha Negra (RN), Rádio Camponesa, em Itapeva (SP), Rádio Onda FM, de Novo Cruzeiro (MG), Rádio Pife, de Brasília (DF), Rádio Cidade, de João Pessoa (PB), Rádio Palermo (SP), Rádio Torres Cidade (RS); Rádio Cantareira (SP); Rádio Keraz; Web Rádio Studio F; Rádio Seguros MA; Rádio Iguaçu FM; Rádio Unidade Digital ; Rádio Cidade Classic HIts; Playlisten; Rádio Cidade; Web Rádio Apocalipse; Rádio; Alternativa Sul FM; Alberto dos Anjos; Rádio Voz da Cidade; Rádio Nativa FM; Rádio News 77; Web Rádio Líder Baixio; Rádio Super Nova; Rádio Ribeirinha Libertadora; Uruguaiana FM; Serra Azul FM; Folha 390; Rádio Chapada FM; Rbn; Web Rádio Mombassom; Fogão 24 Horas; Web Rádio Brisa; Rádio Palermo; Rádio Web Estação Mirim; Rádio Líder; Nova Geração; Ana Terra FM; Rádio Metropolitana de Piracicaba; Rádio Alternativa FM; Rádio Web Torres Cidade; Objetiva Cast; DMnews Web Rádio; Criativa Web Rádio; Rádio Notícias; Topmix Digital MS; Rádio Oriental Sul; Mogiana Web; Rádio Atalaia FM Rio; Rádio Vila Mix; Web Rádio Palmeira; Web Rádio Travessia; Rádio Millennium; Rádio EsportesNet; Rádio Altura FM; Web Rádio Cidade; Rádio Viva a Vida; Rádio Regional Vale FM; Rádio Gerasom; Coruja Web; Vale do Tempo; Servo do Rei; Rádio Best Sound; Rádio Lagoa Azul; Rádio Show Livre; Web Rádio Sintonizando os Corações; Rádio Campos Belos; Rádio Mundial; Clic Rádio Porto Alegre; Web Rádio Rosana; Rádio Cidade Light; União FM; Rádio Araras FM; Rádios Educadora e Transamérica; Rádio Jerônimo; Web Rádio Imaculado Coração; Rede Líder Web; Rádio Club; Rede dos Trabalhadores; Angelu’Song; Web Rádio Nacional; Rádio SINTSEPANSA; Luz News; Montanha Rádio; Rede Vida Brasil; Rádio Broto FM; Rádio Campestre; Rádio Profética Gospel; Chip i7 FM; Rádio Breganejo; Rádio Web Live; Ldnews; Rádio Clube Campos Novos; Rádio Terra Viva; Rádio interativa; Cristofm.net; Rádio Master Net; Rádio Barreto Web; Radio RockChat; Rádio Happiness; Mex FM; Voadeira Rádio Web; Lully FM; Web Rádionin; Rádio Interação; Web Rádio Engeforest; Web Rádio Pentecoste; Web Rádio Liverock; Web Rádio Fatos; Rádio Augusto Barbosa Online; Super FM; Rádio Interação Arcoverde; Rádio; Independência Recife; Rádio Cidadania FM; Web Rádio 102; Web Rádio Fonte da Vida; Rádio Web Studio P; São José Web Rádio – Prados (MG); Webrádio Cultura de Santa Maria; Web Rádio Universo Livre; Rádio Villa; Rádio Farol FM; Viva FM; Rádio Interativa de Jequitinhonha; Estilo – WebRádio; Rede Nova Sat FM; Rádio Comunitária Impacto 87,9FM; Web Rádio DNA Brasil; Nova onda FM; Cabn; Leal FM; Rádio Itapetininga; Rádio Vidas; Primeflashits; Rádio Deus Vivo; Rádio Cuieiras FM; Rádio Comunitária Tupancy; Sete News; Moreno Rádio Web; Rádio Web Esperança; Vila Boa FM; Novataweb; Rural FM Web; Bela Vista Web; Rádio Senzala; Rádio Pagu; Rádio Santidade; M’ysa; Criativa FM de Capitólio; Rádio Nordeste da Bahia; Rádio Central; Rádio VHV; Cultura1 Web Rádio; Rádio da Rua; Web Music; Piedade FM; Rádio 94 FM Itararé; Rádio Luna Rio; Mar Azul FM; Rádio Web Piauí; Savic; Web Rádio Link; EG Link; Web Rádio Brasil Sertaneja; Web Rádio Sindviarios/CUT.

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Editado por: Maria Teresa Cruz

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