'Ô Abre Alas'

‘Sabia que essa é de uma mulher?’: especialista destaca a importância de lembrar de Chiquinha Gonzaga, pianista negra autora da 1ª marcha de Carnaval do Brasil

Pianista Maria Teresa Madeira detalha a história da compositora que não só rompeu barreiras como ‘botou o pé na porta e quebrou ela inteira’

Chiquinha Gonzaga
Chiquinha Gonzaga (1847-1935) compôs a primeira marchinha carnavalesca da história em 1899 | Crédito: Domínio Público

“Ô abre alas que eu quero passar.” A frase, entoada por milhões de brasileiros em cada Carnaval, carrega mais do que o espírito da folia. É o grito de liberdade de uma mulher negra, pianista, compositora, regente, abolicionista e pioneira na luta pelos direitos autorais no Brasil. Chiquinha Gonzaga (1847-1935) compôs a primeira marchinha carnavalesca da história em 1899, e 126 anos depois sua obra segue viva na avenida, nos trios elétricos e na memória do povo.

Para contar essa história, o Conversa Bem Viver, da Rádio Brasil de Fato, entrevistou a pianista Maria Teresa Madeira, doutora em música pela UniRio e uma das maiores especialistas na obra de Chiquinha, com mais de 30 anos de dedicação à pesquisa e à difusão de seu legado.

Francisca Edviges Neves Gonzaga nasceu no Rio de Janeiro em 1847, filha de uma mãe liberta e de um pai influente. Educada como “sinhazinha”, teve aulas de piano e línguas. Aos 16 anos, teve um casamento arranjado; aos 20, separou-se, e, por isso,deserdada pela família e impedida de ter a guarda dos filhos. “Ela não rompeu barreiras, ela botou o pé na porta e quebrou ela inteira”, resume Maria Teresa.

Foi na rua que Chiquinha encontrou sua música. “Ela andava sozinha numa época em que mulher não podia circular sem um homem. Ouvia os batuques, as rodas, os ritmos de salão, e juntou tudo isso à sua formação clássica. Essa mescla fez o brilho da obra dela”, explica a pianista.

Em 1899, Chiquinha morava no Andaraí, onde também ficava o rancho carnavalesco Rosa de Ouro. “Ela foi lá e escreveu despretensiosamente aquela música. Tanto que a edição demorou, foi passada oralmente”, conta Maria Teresa. “Ô Abre Alas” foi a primeira canção feita especificamente para o Carnaval de rua — até então, a festa era animada por hinos, gritos de guerra ou batuques sem uma trilha sonora própria.

“A música ficou maior do que ela. É impressionante que uma estrofe só tenha mudado a história do Carnaval”, reflete a pianista. A marchinha antecedeu em quase 20 anos a tradição de cada agremiação ter seu próprio samba-enredo, prática que só se consolidaria a partir de 1917.

Chiquinha também foi fundamental na luta pelos direitos de compositores e músicos. Envolvida com o teatro musical, revoltava-se com as “recitas do autor” — bilheterias destinadas aos criadores apenas no fim da temporada, quando o público já rareava. “Ela se juntou a outros artistas e fundou a primeira sociedade protetora de direitos autorais do país. Tem uma foto linda da fundação: só homens e ela, com o Joãozinho do lado”, relembra Maria Teresa.

Joãozinho, seu último companheiro, foi o responsável por preservar o espólio de Chiquinha após sua morte, em 1935, numa terça-feira de Carnaval. “A família dela, por gerações, não podia falar no nome dela. Se temos partituras, fotos e escritos, devemos ao Joãozinho.”

O legado vivo e os desafios de hoje

Para Maria Teresa, a trajetória de Chiquinha é também um espelho das lutas contemporâneas das mulheres na música. “Existe uma cobrança muito grande sobre como a mulher deve se portar. Mas Chiquinha mostra que o ofício da música é o que importa. Ela tinha uma certeza que vinha de algum lugar sagrado.”

A pianista destaca que Chiquinha não foi um mártir esquecido — ela fez sucesso em vida, viu o povo cantar suas músicas e morreu reconhecida. “Isso é a cereja do bolo. A gente tende a glorificar quem luta e morre lutando, mas ela conquistou enquanto existia.”

Maria Teresa Madeira faz um apelo aos foliões: “Quando você estiver no Carnaval, cutuca a primeira pessoa do lado e pergunta: ‘Sabia que essa música é de uma mulher?'”. A pergunta ecoa a importância de reconhecer as raízes negras e femininas da maior festa popular do país.

Chiquinha Gonzaga vive — no abre-alas, na resistência, na luta por direitos e na certeza de que a música, quando é de verdade, atravessa gerações sem pedir licença.

https://youtu.be/jFVhqxU3Lc0?t=1

Conversa Bem Viver

Em diferentes horários, de segunda a sexta-feira, o programa é transmitido na Rádio Super de Sorocaba (SP); Rádio Palermo (SP); Rádio Cantareira (SP); Rádio Interativa, de Senador Alexandre Costa (MA); Rádio Comunitária Malhada do Jatobá, de São João do Piauí (PI); Rádio Terra Livre (MST), de Abelardo Luz (SC); Rádio Timbira, de São Luís (MA); Rádio Terra Livre de Hulha Negra (RN), Rádio Camponesa, em Itapeva (SP), Rádio Onda FM, de Novo Cruzeiro (MG), Rádio Pife, de Brasília (DF), Rádio Cidade, de João Pessoa (PB), Rádio Palermo (SP), Rádio Torres Cidade (RS); Rádio Cantareira (SP); Rádio Keraz; Web Rádio Studio F; Rádio Seguros MA; Rádio Iguaçu FM; Rádio Unidade Digital ; Rádio Cidade Classic HIts; Playlisten; Rádio Cidade; Web Rádio Apocalipse; Rádio; Alternativa Sul FM; Alberto dos Anjos; Rádio Voz da Cidade; Rádio Nativa FM; Rádio News 77; Web Rádio Líder Baixio; Rádio Super Nova; Rádio Ribeirinha Libertadora; Uruguaiana FM; Serra Azul FM; Folha 390; Rádio Chapada FM; Rbn; Web Rádio Mombassom; Fogão 24 Horas; Web Rádio Brisa; Rádio Palermo; Rádio Web Estação Mirim; Rádio Líder; Nova Geração; Ana Terra FM; Rádio Metropolitana de Piracicaba; Rádio Alternativa FM; Rádio Web Torres Cidade; Objetiva Cast; DMnews Web Rádio; Criativa Web Rádio; Rádio Notícias; Topmix Digital MS; Rádio Oriental Sul; Mogiana Web; Rádio Atalaia FM Rio; Rádio Vila Mix; Web Rádio Palmeira; Web Rádio Travessia; Rádio Millennium; Rádio EsportesNet; Rádio Altura FM; Web Rádio Cidade; Rádio Viva a Vida; Rádio Regional Vale FM; Rádio Gerasom; Coruja Web; Vale do Tempo; Servo do Rei; Rádio Best Sound; Rádio Lagoa Azul; Rádio Show Livre; Web Rádio Sintonizando os Corações; Rádio Campos Belos; Rádio Mundial; Clic Rádio Porto Alegre; Web Rádio Rosana; Rádio Cidade Light; União FM; Rádio Araras FM; Rádios Educadora e Transamérica; Rádio Jerônimo; Web Rádio Imaculado Coração; Rede Líder Web; Rádio Club; Rede dos Trabalhadores; Angelu’Song; Web Rádio Nacional; Rádio SINTSEPANSA; Luz News; Montanha Rádio; Rede Vida Brasil; Rádio Broto FM; Rádio Campestre; Rádio Profética Gospel; Chip i7 FM; Rádio Breganejo; Rádio Web Live; Ldnews; Rádio Clube Campos Novos; Rádio Terra Viva; Rádio interativa; Cristofm.net; Rádio Master Net; Rádio Barreto Web; Radio RockChat; Rádio Happiness; Mex FM; Voadeira Rádio Web; Lully FM; Web Rádionin; Rádio Interação; Web Rádio Engeforest; Web Rádio Pentecoste; Web Rádio Liverock; Web Rádio Fatos; Rádio Augusto Barbosa Online; Super FM; Rádio Interação Arcoverde; Rádio; Independência Recife; Rádio Cidadania FM; Web Rádio 102; Web Rádio Fonte da Vida; Rádio Web Studio P; São José Web Rádio – Prados (MG); Webrádio Cultura de Santa Maria; Web Rádio Universo Livre; Rádio Villa; Rádio Farol FM; Viva FM; Rádio Interativa de Jequitinhonha; Estilo – WebRádio; Rede Nova Sat FM; Rádio Comunitária Impacto 87,9FM; Web Rádio DNA Brasil; Nova onda FM; Cabn; Leal FM; Rádio Itapetininga; Rádio Vidas; Primeflashits; Rádio Deus Vivo; Rádio Cuieiras FM; Rádio Comunitária Tupancy; Sete News; Moreno Rádio Web; Rádio Web Esperança; Vila Boa FM; Novataweb; Rural FM Web; Bela Vista Web; Rádio Senzala; Rádio Pagu; Rádio Santidade; M’ysa; Criativa FM de Capitólio; Rádio Nordeste da Bahia; Rádio Central; Rádio VHV; Cultura1 Web Rádio; Rádio da Rua; Web Music; Piedade FM; Rádio 94 FM Itararé; Rádio Luna Rio; Mar Azul FM; Rádio Web Piauí; Savic; Web Rádio Link; EG Link; Web Rádio Brasil Sertaneja; Web Rádio Sindviarios/CUT.

O programa de rádio Bem Viver vai ao ar de segunda a sexta-feira, às 7h, na Rádio Brasil de Fato. A sintonia é 98,9 FM na Grande São Paulo. A versão em vídeo é semanal e vai ao ar aos sábados a partir das 13h30 no YouTube do Brasil de Fato e TVs retransmissoras.

Assim como os demais conteúdos, o Brasil de Fato disponibiliza o programa Bem Viver de forma gratuita para rádios comunitárias, rádios-poste e outras emissoras que manifestarem interesse em veicular o conteúdo. Para ser incluído na nossa lista de distribuição, entre em contato por meio do formulário.

Editado por: Luís Indriunas

|

Newsletter