O projeto Um milhão de Tetos Solares tem como objetivo democratizar o acesso e a produção dos insumos da energia solar. A iniciativa foi lançada durante a 17ª Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia, na Paraíba e deve ser realizado em pelo menos quatro estados brasileiros: no Piauí, com o apoio da Cáritas França, e nos estados de Pernambuco, Paraíba e Minas Gerais com o apoio da Fundação Banco do Brasil.
Em entrevista ao programa Conversa Bem Viver, Roselita Vitor, coordenadora do Polo da Borborema, uma rede formada por sindicatos rurais no agreste paraibano, e integrante da 17ª Marcha pela Vidas das Mulheres e pela Agroecologia, explicou que a ideia é criar autonomia energética para as famílias agricultoras do semiárido nordestino. “a gente também está dizendo que quer democratizar a energia, que as famílias do semiárido podem produzir sua própria energia, consumir a sua energia, pode até vender a sua energia. Sem retirar as pessoas do lugar, sem adoecer as famílias agricultoras e sem violar os seus direitos. A gente quer uma energia descentralizada e inclusiva”, diz.
Roselita destacou, ao longo da conversa, como é feita a organização e os debates da Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia. Ela afirma que junto com os relatos de vida das mulheres, de forma comum, são apresentadas situações de violências cometidas contra elas, e que combater essa violência e fortalecer as mulheres está entre as principais pautas da marcha. ”A marcha vem, nesses 17 anos, afirmando a agroecologia e defendendo o território, mas também queremos defender o nosso território, que é o corpo das mulheres, a sua liberdade de produzir, de viver, de trabalhar e ser livre.”
Confira a entrevista
Brasil de Fato: Começa nos contando o que é e qual o significado da Marcha pelas Vidas das Mulheres e pela Agroecologia.
Roselita Victor: A marcha pela vida das mulheres e da agroecologia nasce a partir das experiências que a gente vai desenvolvendo aqui no território do Polo da Borborema, que fica no agreste da Paraíba. Na medida que a gente vai construindo um projeto de agricultura familiar e agroecologia, que começa em 93, a gente com o movimento sindical, com as organizações comunitárias, vai percebendo, que as mulheres sempre estavam ali fazendo agroecologia.
Quando você visita uma família e olha para o redor de casa, que hoje a gente chama quintal, é onde está a cisterna para pegar água da chuva, é aonde está o chiqueiro das galinhas, é onde estão as frutas, a pinha, a acerola, goiaba, o coentro, a cebolinha e tantas coisas. As mulheres sempre tiveram propriedade sobre este lugar. E quando a gente começa a sistematizar as experiências dessas mulheres, olhar para as experiências dessas mulheres, a gente compreende que elas sempre fizeram agricultura, mas elas não estavam nos espaços públicos, muitas vezes nem da comunidade. Era um trabalho dentro da família e não era valorizado.
E junto com as experiências e o saber que as mulheres estavam trazendo, vinha junto também as violência que as mulheres sofrem cotidianamente, porque a gente ainda não superou esse processo. Então, mulheres que trabalhavam o dia inteiro cuidando da casa, cuidando dos filhos, na roça e no seu trabalho do quintal, começavam a lamentar-se da violência. Como não poder sair sozinha, da violência de não poder vir na cidade sozinha resolver as suas questões, porque o marido não deixava. A gente chegou a ouvir de mulheres assim: “olha, eu durmo, mas o companheiro dorme com uma faca debaixo do travesseiro”. Isso é muito forte. Então, a marcha nasce do saber, das experiências da agroecologia e ao mesmo tempo a agroecologia foi uma porta que se abriu.
A marcha é exatamente isso, é um movimento que nasce para afirmar a agroeconomia como um projeto político para as mulheres do nosso território, ao mesmo tempo que também denuncia todo e qualquer tipo de violência que as mulheres camponesas sofrem.
O Polo da Borborema é uma rede formada por sindicatos rurais que estão no agreste paraibano. Queria que você explicasse como é que surgiu essa articulação, e como ela se relaciona com as identidades feministas e agroecológicas. Uma relação entre identidades de agricultoras que não se separa do território, é isso mesmo?
Isso mesmo. A gente começa aqui nesse território construindo as primeiras experiências em agroecologia com o movimento sindical em 1993. Com a chegada da SPTA, que é uma organização não governamental que faz a assessoria ao Polo da Borborema. E o Polo é uma rede de sindicatos de agricultores e agricultoras familiares, associações comunitárias, redes que trabalham com o mercado da agroecologia, com a cooperativa.
O projeto começa em três municípios: Remígio, Solânea e Lagoa Seca. Ele passa também a se irradiar para outros municípios. As pessoas começaram a dizer: “Ah, porque antes seu movimento sindical aqui na região, parte dele era de birô”. Os agricultores e as agricultoras tinham que sair do campo para vir para sede do sindicato. A gente começa a construir o contrário, a gente começa a sair da sede para se encontrar com as famílias lá no campo, para entender a agricultura. O que os agricultores e as agricultoras estavam fazendo na agroecologia? E também perceber as inovações. Então, a experiência nasce disso. Aqui é uma região marcada historicamente pela agricultura familiar. É muito densa. É uma região de 19 mil famílias agricultoras. De 0 a 10 hectares é a sua maior terra. As famílias conseguem produzir para o consumo da família, mas também um excedente vai para as feiras livres.
Essa população de agricultores e agricultoras, eram pessoas consideradas como não tendo conhecimento. Porque antes era: ’quem sabe é quem foi para a universidade e eu trago conhecimento para elas’. E não o contrário. Mas a gente sempre entende que o saber tem que se conectar à prática, porque a agroecologia também é ciência. E é nessa percepção de diálogos e saberes que a gente constrói esse território e atuamos em 13 municípios aqui da região. São os sindicatos de trabalhadores e trabalhadoras rurais, as associações comunitárias de base, a COP e Borborema, que é nossa cooperativa regional, a Eco Borborema, que é uma associação que conduz e planeja o trabalho com os agricultores e culturas da agroecologia e o polo é esse grande articulador desse movimento, desse conjunto de movimento que a gente tem aqui.
Qual o balanço se faz dessa 17ª edição da marcha que teve o tema: Mulheres em defesa da Borborema Agroecológica contra as falsas soluções para o clima?
É a quinta vez que a gente marcha trazendo o tema das mudanças climáticas. O debate sobre o clima está acontecendo no mundo todo, no Brasil também. Mas o debate sobre as mudanças climáticas acontece muito a partir da visão geral, do que se coloca na mídia a nível global. A gente quer discutir mudanças climáticas a partir dos territórios. Ela já é realidade no nosso território ou ela é o futuro?
No semiárido brasileiro, em particular, todo esse debate do clima traz a questão sobre a produção das energias renováveis. No semiárido brasileiro tem muito sol e tem muito vento. Todas as empresas privadas do mundo parece que se viraram para cá.
Como é que tem sido esse modelo de transição energética no Brasil, em particular no semiárido brasileiro? Tem sido um modelo centralizado, tem sido um modelo que tem adoecido as famílias. Quando ele é centralizado, a gente tem visto que a nossa caatinga precisa ser retirada. Precisa dar espaço para os carros levarem os grandes maquinários para a construção dos parques.
O mapbiomas de 2025 já coloca claramente um índice alto de desmatamento no semiárido brasileiro, porque aqui a gente já tem um bioma que se torna cada vez mais vulnerável pela sua situação geográfica e da mudança climática.
Caatinga em pé é muito melhor para captação de carbono do que você tirar a caatinga para botar parque eólico. Então a gente tá vendo que tem muitas controvérsias nesse modelo. A terra continua concentrada na mão de poucos. O que a gente tem da agricultura familiar são famílias extremamente perto uma da outra, porque a maioria das pessoas que fazem agricultura familiar no semiárido não tem terra.
Esses aerogeradores, 24 horas girando, fazendo barulho, pessoas extremamente doentes, pessoas que estavam tomando remédio controlado porque não conseguiam dormir hora nenhuma com o barulho dos aerogeradores. E quando elas vão se desgastando, aquele pó do desgaste dos das pas vão caindo em cima da casa das famílias
Mas tem uma outra coisa que é mais grave, que é a violação dos direitos dos agricultores e das agricultoras. Quando as empresas chegam nos territórios, eles abordam as famílias de forma individualizada, violam uma coisa que é de direito, que é o direito da comunicação sobre os impactos e sobre o sucesso dele. Esse é o modelo que a gente tá dizendo que nós não queremos. E a nossa marcha escancarou para o Brasil esses impactos da violação dos direitos dos agricultores e das agricultoras e das comunidades.
Perguntamos às mulheres sobre o processo de preparação para março. Como é que elas estão vendo as mudanças climáticas nas suas comunidades?
E como isso foi muito forte. As mulheres que diziam: “Gente, a gente tá sofrendo demais com calor. Aqui a gente sempre teve calor, mas calor insuportável como a gente está vivendo, a gente nunca teve. Parece que o sol baixou, porque a temperatura aumentou demais”. Plantas da Caatinga que floresciam no final de novembro, início de dezembro, vieram florescer em janeiro. As famílias se espelham muito da natureza para pensar os ciclos de chuva, para pensar o roçado, as plantações,
Além disso, tem o uso de drone nas comunidades rurais, de pessoas que compram terra, pessoas que não vivem da agricultura, são empresários, são advogados, e cada um tem um drone para avançar nas comunidades isso, tirando a caatinga e botando o mata-mato para criação de gado. E esse território é um território que nunca viveu isso, a gente percebeu agora na marcha como esse negócio avançou.
E a gente também tem proposta. Porque a gente aprendeu no semiárido brasileiro que poderia democratizar água para as famílias dispersas no semiárido, no pé da serra. Então, a gente também está dizendo que quer democratizar a energia, que as famílias do semiárido podem produzir sua própria energia, consumir a sua energia, pode até vender a sua energia. Sem retirar as pessoas do lugar, sem adoecer as famílias agricultoras e sem violar os seus direitos. A gente quer uma energia descentralizada e inclusiva.
Foi muito importante a gente ter nessa marcha o lançamento do programa um milhão de teto solares. Mulheres mandaram áudio para gente dizendo como é importante lutar, como é importante a nossa luta A nossa luta tem sentido.
E o projeto nasce da própria experiência no semiárido brasileiro, é a partir da experiência de Monte Santo na Bahia, de uma escola familiar agrícola que produz suas próprias placas solares para a comunidade e para as famílias. A marcha é um conjunto de muitas vitórias juntos.
Transição energética sim, mas não assim. Essa é uma das palavras de ordem que ecoou durante a 17ª marcha pela vida das mulheres e pela agroecologia e que traz bem esses dois lados colocados aqui na conversa. Um lado que denuncia, mas outro também que anuncia. Um exemplo é a questão da água que acabou resultando no surgimento do programa, 1 milhão de cisternas. Dá pra traçar um paralelo com o programa das placas solares?
Isso mesmo, a gente também quer trazer esse debate da energia, porque a gente entende que o sol e o vento são de todos nós.
O vento e o sol que a gente tem tanto aqui no semiárido, não podem ser para as empresas privadas, elas devem ser para todas as pessoas. Assim também a água, que lá nos anos 2000 a gente já dizia que queria democratizar para a família agricultora.
Com o projeto 1 milhão de teto solar, primeiro estamos dizendo que as famílias vão aprender a confeccionar suas próprias placas. É o processo de formação, para que as famílias tenham autonomia na produção. Segundo, a gente vai ter nesse programa intercâmbios entre as famílias e as experiências que já tem no semiárido brasileiro. Quem vai fazer as mudanças são os sujeitos, as organizações no território. Nós iremos começar em quatro estados do Nordeste. Piauí, com o apoio da Cáritas França, em Pernambuco, na Paraíba e em Minas Gerais com o apoio da Fundação Banco do Brasil.
É muito triste a gente ver empresas estrangeiras dominando o nosso território. De forma tão violenta, de forma tão desumana, e a gente colocava isso para Associação Brasileira de Eólicas, que isso não deveria existir.
A gente visitou várias comunidades no Nordeste do Brasil e não conseguiu ver, a partir desses grandes modelos centralizados, o sucesso para que as famílias pudessem continuar vivendo com dignidade.
Então quando a gente tá marchando, estamos querendo continuar no território, marchando para defender o território, para defender a natureza, porque as famílias também são parte da natureza. As famílias sabem como usar as plantas da caatinga. Então acho que quando se retira a caatinga se retira um pouco de nós também.
A Marcha tem muitos significados e o fruto dela é muito importante para que as mulheres continuem defendendo esse território, defendendo a vida e construindo a agroecologia. Não pode ser o que é da natureza ser um bem privado para as empresas que vem aqui explorar as famílias agricultoras e isso não pode ser.
O território do Polo da Borborema também é da história de Margarida Maria Alves, entre tantas outras mulheres. Queria fechar essa conversa lembrando isso.
Isso mesmo. Tem um pouco das Ligas Camponesas que passam por Alagoas Grande, Campina Grande, Sapé, irradiadas pela luta de João Pedro Teixeira, de Margarida [Maria Alves] e de Elizabete Teixeira.
Eu lembro que um dos sindicalistas que ainda convivemos e que era desse período, era Celestino Pereira, mas aqui também tem essa história marcada por essa grande mulher que é Margarida Maria Alves. Ela continua presente na gente, a gente continua seguindo a sua luta, o seu legado.
De uma mulher agricultora, camponesa, sindicalista, que nos anos 80 foi capaz de enfrentar o latifúndio da Paraíba, o mesmo que assassinou João Pedro Teixeira, Nego Fuba e tantos outros companheiros das ligas camponesas de Sapé. Foram os mesmos que assassinaram Margarida Maria Alves. E Margarida é essa mulher que inspira também muitas de nós.
Eu acho que cada uma da gente é inspirada por essa força, por essa coragem, de não se calar, né? Eu acho que isso é muito importante. Ela dizia: “medo tem, mas a gente não usa”. A gente não pode se paralisar pelo medo.
Cada uma de nós que está na marcha, que segue inspirada por ela e a gente tem muita certeza que em cada marcha ela tá com a gente ali, dizendo: “Vamos, vamos, é luta que segue”.
Conversa Bem Viver

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