Cinco Tipos de Medo, dirigido por Bruno Bini, chegou aos cinemas do Brasil nesta quinta-feira (9). Tendo como parte do elenco a atriz Bárbara Colen e o ator e cantor Xamã, a produção já havia conquistado quatro Kiquitos de Ouro no Festival de Gramado do ano passado.
A história se passa em Cuiabá, no Mato Grosso, e aborda cinco vidas que se conectam, por meio da violência que marca o cotidiano de moradores do bairro Jardim Novo Colorado, que fica na periferia da capital mato-grossense.
“Cinco Tipos de Medo tem a qualidade de estar sempre um pouquinho na frente e você fica ali atrás tentando juntar as pistas. São cinco personagens cujas histórias vão se cruzando. O filme é todo fragmentado em tempos diferentes, tem flashback, uma hora vai para frente, outra hora vai para trás, mas acho que, no final, o público sai muito feliz porque consegue amarrar toda a história”, explica Colen, ao Conversa Bem Viver.
A produção também se insere no atual contexto do cinema nacional brasileiro, que busca cada vez mais diversidade de rostos e regionalidades representadas. Para Xamã, isso é motivo de comemoração.
“Antigamente a TV e as produções eram muito brancas. Mas o Brasil não tem essa cara; o Brasil tem milhões de caras. Acho que isso que estamos colocando no cinema — nosso rosto, nossa representatividade, nosso corpo político — vem muito de contar várias histórias sobre nós, e não apenas ficar seguindo um padrão de rosto ou tipo de pele. O Brasil é um país continental e gosto de ver isso acontecendo não só na novela, mas no cinema e em todos os cantos”, diz o artista.
Leia a entrevista completa:
Brasil de Fato – O que de mais interessante o público pode esperar no filme?
Bárbara Colen – Há uma série que eu adoro chamada The Wire, que está sempre dois passos à frente do público; você sempre tem que estar correndo atrás. Eu acho que, às vezes, as pessoas subestimam o poder do público de acompanhar as coisas e dão tudo muito mastigado.
Acho que Cinco Tipos de Medo tem essa qualidade de estar sempre um pouquinho na frente e você fica ali atrás tentando juntar as pistas. São coisas que fazem você conseguir entender a história; não é uma história que termina de forma confusa.
São cinco personagens cujas histórias vão se cruzando. O filme é todo fragmentado em tempos diferentes, tem flashback, uma hora vai para frente, outra hora vai para trás, mas acho que, no final, o público sai muito feliz porque consegue amarrar toda a história.
Xamã, é a sua estreia nas telonas como um protagonista. Você ganhou o prêmio de melhor ator coadjuvante, mas está na trama do início ao fim. É também mais um vilão para o seu currículo. Como você está lidando com isso?
Xamã – Eu sou o “malvadão”, não é? Está ligado. Acho que desde a primeira vez que comecei a trazer mais essas coisas do universo da música para o cinema — no rap existe muito isso de falarmos de crime, da poesia, da música — sempre fiz os testes assim.
Geralmente, sempre vinham coisas mais de “bandido” ou outro tipo de vilania, como foi em Os Donos do Jogo, algo mais de autoridade. Mas acho que, neste filme, também existe um pouco de fragilidade. Nenhum dos personagens começa do jeito que acaba; eles vão se “tricotando” entre si.
O Bruno também me deu muita liberdade para poder criar, tirar o que eu achava que poderia ser o “sapinho” que estava na minha cabeça. Ele me deu liberdade para levar as coisas para o set. Tenho muito carinho também pela Laura Nogueira e pela Kity Feo, pessoas que me recebiam no set para me ajudar a fazer as cenas.
A Laura me ajudava a produzir as cenas nas leituras junto com a Bárbara; a gente lia junto. Na hora de nos receberem no set, era sempre muita alegria, sempre fui muito bem recebido. Eu parecia estar na Disney.
Acho que também fui presenteado por ter esse elenco junto, poder estar com a Bárbara, com a Bella, com o João, com o Rui. Poder construir cenas com eles foi incrível, porque você não faz cinema sozinho. Além de depender de mim, dependo de quem está comigo produzindo junto, construindo, dando suporte um para o outro.
A galera da lente, a galera da luz, tudo aquilo é como se fosse um grande time. Estamos acostumados com o futebol, que fala em um time de 11; no cinema, o time às vezes tem 200 pessoas. Mas é um time muito forte, muito potente, e fiquei muito feliz em poder participar desse projeto. Depois de Cinco Tipos de Medo, acho que foi o início do “bichinho” do audiovisual me mordendo. Meu primeiro contato ali foi muito mágico. Tento trazer isso até para as minhas músicas também.
Bárbara, sua personagem se apresenta como mocinha, mas de repente entra em contornos mais complexos. É uma policial mulher. Como você encarou esse trabalho?
Bárbara Colen – Acho que foi uma personagem com a qual tive muito cuidado. Eu ia falar “receio”, mas acho que a palavra melhor é “cuidado”. Quando recebi o roteiro, tinha muito medo de ficar simplesmente em uma violência gratuita ou de ser uma personagem meio fascista, uma figura extremamente violenta. Mas acho que a própria história já traz outras camadas.
Para além do que fizemos, acho que já estava no roteiro. Quando vem essa mulher negra, que é mãe e perde o filho nessas condições, você está acompanhando aquilo acontecer. Há muitas camadas de humanidade ali e a questão da vingança não fica perdida. Acho que o simples deslocamento pelo fato de ser uma personagem mulher já muda tudo.
Esse é um arquétipo muito masculino no cinema: alguém que perde alguém e parte para a vingança; sempre vemos esses personagens associados aos homens. Mas quando você vê uma mulher dando corpo para essa personagem, já é diferente, porque os corpos são diferentes. Imagina, vou para uma briga com o Xamã. Entre os personagens há uma desproporção física.
Então, quando ela ganha aquela briga, o público já torce de forma diferente. Acho que são coisas que estavam no roteiro e que já nos davam uma complexidade maior para esses personagens, o que é o mais interessante no final.
Xamã, estamos conseguindo descentralizar o cinema nacional. Cinco Tipos de Medo é um filme feito todo em Cuiabá, no Mato Grosso. Além disso, o elenco é majoritariamente não branco. Como você avalia isso?
Xamã – Antigamente, a TV e as produções eram muito brancas. Era uma linguagem em que quem era bonito seguia um padrão: era loiro, de olhos azuis. Esse era o bonito que passava na televisão no horário nobre, nos filmes; era o rosto do ator galã. Mas o Brasil não tem essa cara; o Brasil tem milhões de caras. Somos um país continental.
Acho que podemos contar a história do Mato Grosso e de Cuiabá dessa maneira. E há algo também muito parecido com a realidade não só do Rio, mas do Brasil inteiro: a parte da violência e como ela é tratada. Muito do preconceito vem da ideia de que se tem preconceito com a favela porque lá geralmente tem “bandido”, mas esquecem o abandono social.
O que acontece lá? A história toda é contada sob pontos de vista que vão tirando você, às vezes, do foco. Por exemplo, a Luciana é uma personagem que, no início, você imagina ser fragilizada e fraca, mas, na verdade, ela quebra o cara e acaba com tudo. Ela bate no cara mais forte. Eles vão quebrando as convicções.
Acho que isso que estamos colocando no cinema — nosso rosto, nossa representatividade, nosso corpo político — vem muito de contar várias histórias sobre nós, e não apenas ficar seguindo um padrão de rosto ou tipo de pele. O Brasil é um país continental e gosto de ver isso acontecendo não só na novela, mas no cinema e em todos os cantos.
O brasileiro conta a história de uma maneira que ninguém conta. Então, é óbvio que vamos fazer cinema com o nosso povo e com a nossa forma de escrever. Isso é a identidade que viemos criando há um tempo.
Bárbara, você tem uma relação muito particular com o Kleber Mendonça Filho, participou tanto de Aquarius quanto de Bacurau, dois filmes de grande repercussão. Você acabou não participando de O Agente Secreto. Teve vontade de participar do filme premiado?
Bárbara Colen – Eu fico muito feliz, porque é uma construção. Aquarius foi em 2016, quando fomos para Cannes pela primeira vez. Só de o filme entrar em Cannes já foi um grande acontecimento; lembro que foi uma comoção nacional. Tudo o que acontece com o Kleber é um pouco a história do que vem acontecendo com o cinema brasileiro.
De 2016 para cá, estar em Cannes, depois voltar com Bacurau e agora O Agente Secreto, que não só foi para Cannes, como ganhou prêmios principais, depois Globo de Ouro e Oscar. Acho que estamos em uma ascensão muito interessante que tem tudo a ver com o que o Xamã está falando.
O Kleber é um cara que sempre entendeu muito bem o Brasil e a importância da diversidade do elenco e de mostrar esse país com as caras que ele tem. Isso reverbera em tudo: no sucesso do filme, no interesse internacional e no fato de o Gabriel Domingues, que foi o produtor de elenco, estar indicado como um dos melhores castings. É interessante quando você tem pessoas não preguiçosas e dispostas, de fato, a escalar atores interessantes, com rostos interessantes. A representatividade se nota no resultado.
Xamã, voltando à pergunta sobre ter mais um vilão no currículo. Lembro-me do Lázaro Ramos dizer que houve um momento da carreira em que ele não queria mais pegar vilões para não reproduzir o estereótipo do personagem negro traficante, reforçando o preconceito e o racismo no Brasil. Isso é algo que você também leva em consideração?
Xamã- Acho que, conforme as oportunidades aparecerem…Minha vontade era tanta de trabalhar com cinema que fiz vários testes e não passei em todos. Quando as oportunidades começaram a surgir, consegui ganhar espaço. Passei em alguns para vilão, mas não acho que o da novela das nove hoje seja um vilão, porque a história dele já foi para outro lugar.
Mas sobre nascer e morrer vilão…como eu contaria essa história? Ele é mau porque é mau? O cara teve uma infância e uma história violentas. Eu vou interpretar como aquele cara que morava no meu bairro, como aquele amigo meu que poderia ter sido músico também. Como foi a vida dele? Vou tentar repetir esses comportamentos e imprimi-los para jogar nas cenas.
Acho que o rap também tem essa facilidade de transformar o “fui crime” em “serei poesia”. Mas para os próximos papéis, tenho alguns projetos em plano e pretendo ter outros registros na dramaturgia. Já existem algumas coisas pré-prontas, mas, por enquanto, estou focando nos lançamentos e na divulgação de Cinco Tipos de Medo. Os próximos projetos serão divulgados mais para o final do ano ou para o ano que vem.
Bárbara, a violência é uma marca do cinema brasileiro. Cidade de Deus foi, talvez, o primeiro grande filme de projeção nacional recente e é um filme que reproduz muito da violência do Brasil. Quando você recebeu o roteiro de Cinco Tipos de Medo teve receio sobre como a violência seria abordada?
Bárbara Colen – Acho que Cidade de Deus e Cinco Tipos de Medo são registros diferentes. Cinco Tipos de Medo está inserido em um formato muito claro de cinema de gênero: ele é um filme de ação. Como filme de ação, ele tem todos os elementos que o gênero precisa. Você não pode fazer um filme de terror sem fazer as pessoas sentirem medo, sem uma perseguição ou cena de suspense, porque isso define o gênero.
Inserido nesse recorte, o filme tem elementos de ação que são comuns e universais. Posto isso, sempre me encanta a possibilidade de fazer cinema de gênero no Brasil. Não sei o que aconteceu na nossa trajetória, mas parece que houve um recorte de que o Brasil só pode fazer realismo social e que só esse tipo de cinema — independente, autoral, que traça a realidade brasileira sofrida — será legitimado.
Isso também é super legal, são os filmes em que mais trabalho, inclusive. Mas acho que temos capacidade, espaço e possibilidade de explorar outras linguagens. Toda vez que sinto que estamos ampliando nossos horizontes como produtores e fazedores de cinema, isso me dá muita alegria.
No roteiro de Cinco Tipos de Medo, o que mais me chamou a atenção foi ter uma personagem feminina que parte para a vingança e age, em vez de ficar em casa chorando sem ação nenhuma, que é o que sempre vemos. Na verdade, me deu muita alegria. Não critiquei a violência, mas fiquei feliz por pensar que, como mulher, estou ocupando um lugar novo no cinema brasileiro.
Xamã – Aqui a nossa “Zé Pequeno” é mulher. Estou brincando. O filme é ótimo. Acho que existe essa história de fazer as pessoas imaginarem. O filme vai apresentando panoramas e pontos de vista diferentes: às vezes violência, às vezes drama, às vezes engraçado.
Acompanhamos algumas salas no Rio e vimos que as pessoas às vezes riem de nervoso ou riem em momentos muito tristes. Você brinca com o esquema sensorial das pessoas. A ação serve para você se ligar que é um filme de ação. Eu te lembro disso em alguns momentos e isso gera as sensações que o público tem. Assistir a Cinco Tipos de Medo é uma visão muito sensorial. Costumo brincar que é um péssimo filme para ir ao banheiro no meio; se você voltar, pode não entender o que está acontecendo.
Bárbara Colen – Gente, só queria reforçar: vão ao cinema na estreia, dia 9 de abril. Vão na primeira semana, pois é muito importante para ficarmos em cartaz e sermos vistos. Eu estou com oito filmes para sair. Está uma loucura este ano. Muitos eu ainda não posso falar, mas estou torcendo para termos boas notícias das seleções internacionais em breve.
Conversa Bem Viver

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