Acervo para o futuro

Conheça Zumví, movimento afro fotográfico nascido em Salvador há 30 anos

Exposição no IMS Paulista apresenta memória da cultura e da política negra no Brasil a partir da fotografia

Fotografia do Bloco Olodum, em Salvador, Bahia, em1987
Fotografia do Bloco Olodum, em Salvador, Bahia, em1987 | Crédito: Lázaro Roberto

Fundado nos anos 90 por três fotógrafos negros de Salvador, o movimento Zumví conta hoje com um acervo de mais de 30 mil fotografias e documentos produzidos por pessoas negras. Cerca de 400 imagens desse arquivos compõem a exposição “Zumví Arquivo Afro Fotográfico”, do Instituto Moreira Sales (IMS)

Em entrevista ao programa Conversa Bem Viver, Hélio Menezes, curador da exposição, afirmou que o desconhecimento do movimento, que teve Lázaro Roberto como um de seus fundadores, é um fato impressionante que demonstra a relação perversa do Brasil com a memória negra no país. 

Durante a conversa, o curador também defendeu que a fotografia digital e os smartphones podem ser mecanismos de democratização do fazer fotográfico e contou como o Zumví atua nesse contexto.

O Zumví tem ficado atento a isso e tem feito, na medida do que lhe é possível, espaços de formação. Isso é muito interessante. O Zumví é mais do que um arquivo que salvaguarda imagens e documentos, é também uma escola viva. Então, são cursos tanto de fotografia para jovens negros baianos ou residentes na Bahia, sobre conservação, limpeza, digitalização de negativos fotográficos. E nesse processo, existe também uma espécie de formação que é de ordem política. 

“O Zumví é mais do que um arquivo que salvaguarda imagens e documentos, é também uma escola viva. Então, são cursos tanto de fotografia para jovens negros baianos ou residentes na Bahia, sobre conservação, limpeza, digitalização de negativos fotográficos. E nesse processo, existe também uma espécie de formação que é de ordem política”, afirmou.

“Lázaro sabia que em algum momento esse futuro ia chegar e quando esse futuro chegasse, ele estaria lá. O Zumví estaria lá como um arquivo que podemos revisitar, um arquivo ao qual podemos regressar”, disse.

Leia a entrevista completa:

Brasil de Fato: Quero começar te pedindo para apresentar o Zumví.

Hélio Menezes: O Zumví, arquivo afro fotográfico, foi fundado em 1990, por três fotógrafos de Salvador que perceberam naquele momento que existia um fosso, um abismo entre a prática fotográfica e a prática de autoria negra dentro da fotografia.

Eles perceberam que a grande maioria das imagens feitas sobre a população negra baiana, nas suas mais diversas variedades, momentos, contextos, eram fotografias feitas por sujeitos, em grande maioria, brancos e não raras vezes estrangeiros. E isso criava toda uma ideia de baianidade, visualmente, que não necessariamente se colava à realidade vivida por aqueles sujeitos. 

Com o tempo, Lázaro Roberto assumiu a dianteira deste arquivo. Tanto Aldemar quanto Raimundo não prosseguiram na direção do Zumví por uma série de motivos, especialmente pelo alto custo que representa a arte da fotografia analógica. É importante que a gente sublinhe aqui, a gente está falando de jovens praticando fotografia nas periferias de Salvador, em meados dos anos 70, mas sobretudo ao longo dos anos 80.

Com o tempo, este arquivo foi recebendo doações de outros fotógrafos que viam no Zumví um centro de memória da cultura negra, da política negra. E com essas novas doações, com essa adesão de outros fotógrafos, com as suas coleções particulares que a partir dali se tornavam coleções pertencentes ao Zumví, hoje, após 36 anos de sua fundação, o arquivo conta com mais de 30 mil negativos, 30 mil fotografias em seu acervo. 

Então, esta exposição que pela primeira vez reúne um volume tão significativo de imagens, são 400, ainda é uma exposição muito pequena.

Brasil de Fato: Te parece assustador que este movimento, tão contundente, passe tão à margem da história brasileira e da opinião pública de forma geral?

Hélio Menezes: É algo muito impressionante, mas que ao mesmo tempo não foge de uma certa regra perversa que o Brasil destina à memória negra de uma maneira mais ampla. O Zumví causa escândalo nesse sentido que você observa, porque é um arquivo de fato fundamental, eu acho muito impressionante, como se pode ainda falar de uma certa história visual do Brasil sem que o Zumví esteja integralmente inserido e em posição de protagonismo. Porque estamos falando de um jovem Lázaro, que testemunha em Salvador contextos e situações que viriam a transformar radicalmente o que compreendemos por movimento negro contemporâneo e que entendemos por luta negra, por intelectualidade negra. 

E eu me refiro à fundação do movimento negro unificado em finais dos anos 70, com um marco inaugural, em 78, no conhecido evento na escadaria do Teatro Municipal de São Paulo, mas também eu me refiro, por exemplo, à fundação do bloco afroIlê Aiyê em Salvador, 4 anos antes, em 74, o primeiro de outros tantos blocos afro que viriam a se proliferar neste mesmo momento.

Lázaro viu, portanto, a emergência desses blocos afro, Lázaro foi testemunha e participante também de uma grande ampliação da presença dos afoxés, nos Carnavais de Salvador, nas festas populares de Salvador. Os afoxés, para quem não conhece, são agremiações carnavalescas que se autodefinem como o candomblé na rua, são práticas muito mais ligadas à ancestralidade religiosa africana como uma prática também profana na rua, sem abrir mão das suas devidas práticas religiosas e sagradas. 

É nessa virada dos 70 para os 80 que Lázaro também conhece Jeremias Mendes, um dos fotógrafos que integra Zumví, que por sua vez, já era uma figura fundamental na emergência de um teatro negro amador, periférico, em Salvador.

Jeremias Mendes é um dos nomes do bando do teatro do Olodum, hoje é uma figura muito mais reconhecida, embora não no tamanho que mereça ainda, mas naquele momento é o movimento negro unificado e são os blocos afro e afoxés que vão criar uma certa cultura de extremo orgulho negro. É um momento de reafricanização das vestimentas, do gosto estético, do gosto sonoro, das produções artísticas.

É também um momento que a Bahia, particularmente, passa por um processo de dessincretização dos terreiros de Candomblé e de outras práticas de origem africana. Então, esse arcabouço forma, no jovem Lázaro, e em todos os demais fotógrafos que integram, passaram e passam pelo Zumví , uma consciência política muito aguçada. Uma clareza muito grande do enorme valor que eles testemunhavam ao fotografar a Feira de São Joaquim, o quilombo da Praia Grande de Gira de Maré, o quilombo do Rio das Rãs, a fotografar a cena de reggae, de hip-hop na Bahia, nos bares de reggae espalhados por Salvador, a estética negra dos cabelos, os blocos afro e afoxés, como eu já mencionei, a visita de Nelson Mandela à Bahia em 1991. E tudo isso forma um arquivo que torna-se de fato central. E choca o fato desse arquivo ser ainda tão pouco conhecido. Ao longo dos últimos anos, eu fico feliz e orgulhoso de particularmente ser uma testemunha, participante desse processo de redescoberta e de expansão do Zumví.

Durante muitos anos, Lázaro Roberto carregou isso sozinho, com o peso literal de mais de 30 mil fotografias, as necessidades de conservação, as necessidades de limpeza, digitalização de todo esse arquivo. 

Esse arquivo nunca teve uma sede própria. Passou por fundos de uma igreja emprestada, depois uma salinha na sede do MNU no bairro da Liberdade em Salvador, até que vai parar em algum momento na casa de Lázaro, no quarto. Ele dormia com esses negativos, quem conhece fotografia analógica sabe o cheiro químico que eles emanam.

José Carlos Ferreira, que é sobrinho de Lázaro, adentra a universidade pública, ele é historiador formado pela Universidade Federal do Recôncavo Baiano em Cachoeira, e ao formar parte do movimento estudantil e do movimento negro articulado pelos estudantes, ele se dá conta que tem na própria família um sujeito como Lázaro e um arquivo como do Zumví, que estava na casa do seu tio.

Então ele como historiador passa a se dedicar ao estudo desse arquivo e começa a reestruturar o Zumví. E nos últimos 8, 10 anos que alguns curadores começaram a se interessar pelo Zumví, eu já trabalho com o Zumví há alguns anos. Fui co-curador junto com a Gianni Lima, Grada Kilomba e Manuel Borja Vilalta da 35ª Bienal de Artes de  São Paulo e tinha um momento especialmente de destaque para esse arquivo do Zumví. E a partir dali, eu imagino que o interesse venha crescendo a chegar ao ponto da essa exposição agora no Instituto Moreira Sales com um volume muito mais amplo, mas você tem razão quando pontua que há uma disparidade entre o tamanho, a importância, a relevância histórica, cultural, simbólica, visual, política do Zumví com a sua ainda relativa baixa presença, conhecimento nos meios culturais, jornalísticos. É um sinal de que nós precisamos correr atrás.

Brasil de Fato: Como pensar a fotografia atual, com a possibilidade de registros com smartphone, a partir de Zumví, que tem um lema desde o princípio, que é fotografar hoje para o futuro? Levando em consideração ainda que o registro de imagens têm sido muito usados também para denúncias do presente, de violações de direitos humanos contra a população negra.

Hélio Menezes: Essa pergunta vale uma tese. Mas uma questão que está de fundo na sua pergunta é a relação da população negra de uma maneira geral com tecnologia, e com acesso à tecnologia.

Sobretudo as que têm custos muito elevados. A fotografia é uma arte cara. E no Brasil, e com uma certa particularidade na Bahia, sendo cara, foi muitas vezes destinada às elites. E a gente sabe que quando falamos de elites no Brasil, essa elite tem cor, embora não se admita.

Lázaro, por exemplo, começa a relação com a fotografia quando ele ganha de presente de um padre progressista, italiano e comunista uma máquina usada, que muitos anos depois ele troca por uma outra máquina também usada.

A gente está falando aqui de uma “coreografia do impossível”, se me permite a metáfora outra vez, porque de fato é acesso sempre mais dificultado, ou limitado simplesmente.

Desde 2003, Lázaro vem fotografando com câmera digital ,mas ele gostaria de voltar mesmo à prática analógica. Esse caso, que é particular, espelha uma experiência mais coletiva.

O que o Zumví tem feito diante disso? 

Mesmo quando a gente fala hoje de uma certa democratização que os celulares e as câmeras digitais proporcionam, a gente bem sabe as diferenças de valores entre diferentes aparelhos celulares e quanto mais sofisticada, melhor, mais desenvolvida a câmera, mais caro é o próprio aparelho também. Então, essa distribuição segue sendo muito desigual.

O Zumví tem ficado atento a isso e tem feito, na medida do que lhe é possível, espaços de formação. Isso é muito interessante. O Zumví é mais do que um arquivo que salvaguarda imagens e documentos, é também uma escola viva. Então, são cursos tanto de fotografia para jovens negros baianos ou residentes na Bahia, sobre conservação, limpeza, digitalização de negativos fotográficos. E nesse processo, existe também uma espécie de formação que é de ordem política. 

Lázaro sempre disse que ele desenvolveu uma afro maneira de fotografar e que ela não tinha pressa. Quando o Lázaro repetia e segue dizendo: “Eu fotografo para o futuro, eu fotografo para o futuro”. Eu leio essa ideia de futuro a partir de um entendimento político que Lázaro teve desde o princípio, de que talvez naquele momento essas imagens não interessassem à grande imprensa, não interessassem à história da fotografia, não interessassem às instituições culturais e talvez interessasse muito pouco — e aqui é preciso também sublinhar as próprias lideranças negras, que naquele momento não se davam conta da necessidade premente de registro imagético das revoluções que eles próprios estavam realizando ali. Então Lázaro sabia que em algum momento esse futuro ia chegar e quando esse futuro chegasse, ele estaria lá. O Zumví estaria lá como um arquivo que podemos revisitar, um arquivo ao qual podemos regressar.

Eu acho que quando a gente compara esse fundamento político de Lázaro, lá 40 anos atrás, e que segue ativo hoje nessas oficinas de formação, na sua transição para fotografia digital, é claro que a gente está falando de um sujeito que está atento às transformações da prática da fotografia. Hoje a fotografia digital é muito mais dominante do que era10 ou 15 anos atrás.

E essas imagens, muitas vezes, registram situações de violência, de brutalidade policial, servem de testemunha para momentos chave de violência na história, mas também são essas mesmas câmeras que têm nos permitido ver a multiplicidade de momentos de intimidade, de amor, de intimidade familiar e de festas. Pensa, sei lá, nos retratistas do morro, para citar mais um arquivo negro periférico importante de Salvador. As suas imagens de festas de aniversário, de casamento nos trazem noções de uma história da vida privada brasileira que também era muito pouco conhecida.

Eu acho que quando a gente pensa no Zumví, e que ele vai se tornando cada vez mais digital, a partir dessa produção de Lázaro mais recente, vai ser muito interessante contrastar, penso eu, em exposições futuras, o que é essa produção mais contemporânea não analógica de Lázaro.

Na nossa exposição, a gente montou uma espécie de nicho, onde alguns monitores, algumas televisões passam em loop uma série de fotografias do arquivo que permitem um outro tipo mesmo de prática fotográfica. Acho que vale a pena comparar.

Serviço
Exposição Zumví Arquivo Afro Fotográfico
Data: até 23/8/2026. Terça a domingo e feriados das 10h às 20h (fechado às segundas)
Local: IMS Paulista – Avenida Paulista, 2424, São Paulo/SP – Brasil
Entrada gratuita 

Conversa Bem Viver

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Editado por: Thaís Ferraz

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